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Ações básicas de controle são indispensáveis na luta contra Leishmaniose

Limpeza de ambientes, saúde e higiene dos animais auxiliam monitoramento

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

A Medicina Veterinária, bem como toda área que envolve a ciência, é baseada em evidências e é carregada de estudos e discussões sobre as enfermidades que podem acometer os animais, os homens e o meio ambiente. Essas pesquisas são importantes desde a maneira como são conduzidas até, principalmente, os resultados que proporcionam o acúmulo do conhecimento científico.

Como comenta o professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, Belo Horizonte/MG), David Soeiro, a evidência científica existe em alguns graus, mais fortes e mais fracos. “Esses indícios são baseados em critérios desde os estudos de caso ou opinião de experts até revisões sistemáticas, passando para o que chamamos de ‘estudos padrão ouro’, que são os casos clínicos randomizados. Mas, importante destacar é que no acúmulo do conhecimento científico, conseguimos extrair a relação de uma intervenção para determinada doença e comparar os tipos diferentes de operação em áreas e indivíduos, para, então, alcançar o desfecho clínico”, explica.

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David Soeiro é pesquisador na UFMG e auxiliou
diversos estudos sobre o tema (Foto: C&G VF)

No caso da Leishmaniose Visceral (LV), zoonose altamente explorada por Soeiro, algumas ações devem ser priorizadas a fim de evitar sua propagação. “Entre elas, o diagnóstico precoce e tratamento adequado dos casos humanos; vigilância e monitoramento em cães com diagnóstico positivo; vigilância entomológica, que ajuda a administrar os indicadores nos programas e controle de vetores; saneamento ambiental, controle químico, ações de educação em saúde, pesquisas, vacinas e tratamento canino”, enumera.

O saneamento ambiental mencionado pelo profissional influencia no controle da transmissão urbana da LV, que requer empenho, e de resultados nem sempre satisfatórios a partir de uma única aplicação residual de inseticida. “Portanto, outras medidas mais permanentes são indicadas como o manejo ambiental, por meio da limpeza de quintais, terrenos e praças públicas, a fim de alterar as condições do meio, que propiciem o estabelecimento de criadouros de formas imaturas do vetor”, frisa. Medidas simples como as listadas pelo pesquisador contribuirão para evitar ou reduzir a proliferação do vetor.

Porém, apesar de na teoria ser simples, pesquisas não mostram bons resultados em relação à prevenção da Leishmaniose. Soeiro indica uma provocação inserida no Relatório Saúde Brasil, de 2016, produzido pelo Ministério da Saúde (Brasília/DF), que atesta que não foi alcançada a efetividade nos problemas de saúde nos últimos anos e coloca que, assim como para a dengue, as formas de controle, existentes até então contra a leishmaniose, apresentaram pouco efeito benéfico. “O relatório traz uma provocação: ‘assumimos esse fracasso?’”, narra.

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Limpeza de quintais, terrenos, praças públicas, além de boa higiene
em cães favorecem o controle da doença (Foto: reprodução)

Ainda após o levantamento do relatório, diversos trabalhos demonstraram a eficácia na utilização de coleiras impregnadas com o inseticida Deltametrina como medida de proteção individual para os cães contra picadas de flebotomíneos. “Entretanto, para a sua adoção em programas de saúde pública, a fim de interromper o ciclo de transmissão doméstico, é necessária a implementação de estudos longitudinais que demonstrem sua efetividade como medida de controle”, destaca. Assim como no caso das vacinas para os pets existentes no Brasil, que apresentam eficácia comprovada, porém não garantem efetividade, enquanto medida de saúde pública, na redução de casos da doença.

Esses estudos, segundo Soeiro, demonstram que a eliminação da Leishmaniose nas Américas não parece ter um objetivo realista. “Isso por conta de uma série de problemas, entre eles, compromisso político, conhecimento científico e problemas no sistema de vigilância e gerenciamento. Levantamentos entre as áreas afetadas são essenciais para nortear novas linhas de pesquisas, porque influencia na academia e nos serviços a serem realizados”, defende.

Portanto, para a população não depender apenas de ações políticas municipais, medidas de proteção individual são primordiais para evitar os riscos de transmissão, tais como: uso de mosquiteiro com malha fina, telagem de portas e janelas, uso de repelentes, não se expor nos horários de atividade do vetor (à noite e durante a madrugada) e em ambientes onde ele pode ser encontrado.

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