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Animais de dentro e de fora das casas merecem saúde e bem-estar

Tanto os pets quanto os animais silvestres devem ter sua qualidade de vida preservada

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Já estamos no fim do ano e, se fizermos uma pequena retrospectiva, apenas de 2020, lembraremos de muitos episódios de maus-tratos contra animais e o caso mais recente, que chocou todos nós: os fogos no Pantanal que, de certa forma, também se enquadra em crueldade com os bichos.

Hoje, Dia Mundial dos Animais, o médico-veterinário responsável pelo atendimento de pequenos animais e animais silvestres do complexo veterinário, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Salto-SP), Enore Augusto Massoni, comenta que o bem-estar animal está diretamente relacionado à qualidade de vida. “A saúde, condições físicas e psicológicas e a expressão do comportamento natural são parâmetros para avaliar o bem-estar. Sendo assim, garantindo-o nós conseguimos assegurar que os animais tenham qualidade de vida”, afirma.

Como mencionado pelo profissional, vivemos em um ambiente comum – nós e os animais –, então, nossas atitudes com eles refletem diretamente na nossa interação com esses bichos e na interação deles com o meio ambiente. “Quando não cuidamos dos animais, podemos gerar graves consequências para o meio ambiente. Por exemplo: caçando e prendendo pássaros silvestres prejudicamos a dispersão de sementes que é função deles; destruindo colmeias e matando abelhas prejudicamos a polinização que elas fazem entre as plantas. O avanço sustentável das sociedades depende diretamente da maneira com que o homem cuida do meio ambiente e trata os animais”, observa.

Essa realidade é descrita pelo médico-veterinário especialista em animais silvestres e exóticos, que atua na Clínica Veterinária Iguatemi e no Zoológico de Sorocaba, André Luiz Mota da Costa, como Saúde Única, tão debatida dentro da Veterinária e da Zootecnia: “É o termo que engloba a saúde animal, a humana e a ambiental. Se a saúde animal não vai bem, teremos efeitos nocivos nas saúdes humana e ambiental. E as recíprocas se aplicam”, sustenta.

Se resolvemos ter um pet, devemos preservar seus
comportamentos naturais para garantir seu bem-estar
(Foto: reprodução)

Para Costa, se não cuidarmos da fauna silvestre ou doméstica, teremos surtos de doenças animais que causarão desequilíbrio ambiental. “O efeito será ainda pior quando essas doenças forem zoonoses. Veja o exemplo da Covid-19: tudo começou com o consumo de carne de morcegos na China. Olha o tamanho do problema”, fomenta.

Silvestres e pets: todos importam! Assim, Massoni delata que o homem destrói o meio ambiente, consome os recursos naturais e interfere diretamente na cadeia alimentar, eliminando um ou mais níveis dela. “Levando em consideração essas atitudes, o homem, interfere no bem-estar dos animais, destruindo seu ambiente, consumindo ou contaminando sua água e seu alimento. A principal consequência de tudo isso é a extinção ou o risco de extinção de muitas espécies”, argumenta.

O caso do Pantanal é citado pelo veterinário como mais um exemplo claro de como algumas práticas, tidas como culturais, podem ser prejudiciais para os animais e para a natureza. “Não se sabe, ao certo, a origem das queimadas, mas, ao que tudo indica, está relacionada à prática de rotação de culturas agrícolas, onde parte do preparo da terra para uma nova plantação consiste em queimar a anterior. Não precisamos ir muito longe para ver: nossos vizinhos, até mesmo alguns parentes, juntando folhas ou lixo no quintal e queimando sem pensar nas consequências disso para a saúde, muito menos no risco dessa pequena fogueira se alastrar”, compartilha.

Sobre as queimadas, Costa pondera que a população local precisa ter informações mais claras sobre prevenção e combate aos incêndios. “Ao mesmo tempo, são necessárias políticas públicas mais eficazes para prevenção e combate das queimadas”, opina.

Já no caso dos pets, Massoni acredita que, se resolvemos ter um animal de estimação, devemos preservar ao máximo alguns de seus comportamentos naturais para garantir seu bem-estar. “Temos que oferecer um ambiente adequado, alimentação de qualidade e liberdade para expressar seu comportamento natural. Quando interferimos nesses pontos, geramos o estresse não adaptativo, que é um tipo de estresse que os animais não possuem recursos para sair dele, o que acaba gerando consequências físicas e emocionais, como queda de imunidade. Isso deixa os animais mais suscetíveis a doenças oportunistas”, salienta.

Interferindo no habitat dos animais silvestres ou na cadeia
alimentar, causamos várias consequências para o ambiente
como um todo (Foto: reprodução)

Costa complementa: são inúmeros os erros nos cuidados em casa com os animais de estimação. “Mas, os mais comuns são os nutricionais. Incluo aí os excessos na alimentação, que leva os pets à obesidade e suas terríveis consequências”, expõe e adiciona que é possível saber se o animal está sendo bem tratado por seu tutor: “Pelo seu comportamento, suas atividades e hábitos diários. Um olhar especializado percebe se o animal está bem ou não em alguns minutos de observação. Muitas vezes, o tutor que não está acostumado com a espécie em questão (se tratando de um animal exótico ou silvestre), não consegue saber se o animal está bem. Aí entra o médico-veterinário, que vai avaliar o pet, identificar o problema e orientar esse proprietário”, frisa.

Para evitar esses erros de manejo com os pets, Massoni defende que é muito importante conhecer a espécie, seu comportamento, seus hábitos alimentares e reprodutivos e entender como proporcionar tudo que ele precisa com o mínimo de impacto para sua saúde. “O médico-veterinário tem papel fundamental em orientar e informar os tutores sobre como cuidar de seus animais. Informações como alimentação, ambiente e comportamento devem ser fornecidas e esclarecidas, até mesmo, antes desse animal ser adquirido (comprado ou adotado) para a família saber se tem condições de atender às exigências da espécie”, declara.

Somos o reflexo da natureza. De acordo com Massoni, dividimos a mesma casa com os animais e, nessa casa, cada um possui sua função. “Quando impedimos os animais de desempenhar suas funções, seja pela destruição de seu habitat ou pela interferência na cadeia alimentar, causamos várias consequências para o ambiente como um todo. Todas as nossas atitudes têm consequências e, quando essas atitudes envolvem outras vidas, as consequências são ainda maiores”, endossa.

Portanto, na visão do veterinário de pets e silvestres, devemos mudar nosso comportamento e a maneira como cuidamos do meio ambiente: “Os recursos naturais são finitos e indispensáveis para nossa sobrevivência e, principalmente, para os animais. Precisamos trata-los, bem como a natureza como um todo, com respeito e zelo, se pretendemos sobreviver por mais tempo nesse plante e, acima de tudo, garantir qualidade de vida e bem-estar para nós e para os animais”, encerra.

Costa também busca conscientizar a todos sobre a importância de garantirmos uma vida digna a todos os animais do mundo: “São nossos irmãos nesse planeta, com os mesmos direitos que nós humanos temos nesse espaço. Como nos consideramos racionais e ‘superiores’, somos responsáveis por sua preservação e pelo seu bem-estar”.

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