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Apenas três especialistas em oncologia veterinária são aprovados no Brasil

Exame, com 19 inscritos, filtrou só profissionais capacitados para a área

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

A especialização na Medicina Veterinária já é uma grande tendência no Brasil, porém, alguns profissionais haviam deixado de lado, até então, a importância da obtenção de um título de especialista para mostrar o quão aptos são para realizar atendimento e tratamento de pets. A qualificação é uma forma de reconhecimento da experiência na área e o mais recente título aprovado foi o de oncologia veterinária.

Na primeira prova, aplicada pela Associação Brasileira de Oncologia Veterinária (Abrovet, São Paulo/SP), somente três pessoas dentro de um grupo de 19 foram aprovadas. A médica-veterinária responsável pelo setor de Oncologia do Hemovet e do Hospital Veterinário Animaniac’s e também oncologista no Provet, todos sediados em São Paulo (SP), Juliana Cirillo, foi uma delas. Ela conta que o interesse pela oncologia iniciou-se quando estava no terceiro ano do curso de graduação, após um parente muito próximo falecer em decorrência de um câncer no pâncreas. “Resolvi estudar para tentar entender aquela doença e foi aí que me encontrei. Achei a oncologia fascinante e intrigante”, narra. Logo após sua formatura, Juliana foi para a França a fim de aprimorar seus conhecimentos na área. “Meu primeiro contato com outras modalidades terapêuticas nessa esfera foi a radioterapia de megavoltagem e braquiterapia, assim como métodos diagnósticos que até então não tínhamos ainda no Brasil, como a tomografia, ressonância magnética e cintilografia”, cita.

aprovados
Título foi recebido com grande alegria pelo reconhecimento da dedicação
dos três profissionais da Medicina Veterinária (Foto: reprodução)

Outra profissional que conquistou o título é a oncologista veterinária do Provet, Karen Batschinski, que, logo que se formou, trabalhou como clínica geral e, inicialmente, tinha a intenção de se especializar em Medicina Felina. “Porém, a partir do momento em que comecei a estudar um pouco mais a oncologia em uma pós-graduação, resolvi que minha área de interesse era, definitivamente, essa”, expõe. Ela afirma que, naquele primeiro momento, achou interessante o processo de desenvolvimento de uma neoplasia e, também, as maneiras que a mesma tem para “driblar” os tratamentos existentes.

O associado fundador e atual Diretor Social da Abrovet, Rodrigo Ubukata, que, além disso, é oncologista no Provet, também foi aprovado no exame e relata que seu histórico familiar de câncer é grande e essa doença sempre o intrigava. “Queria saber como ela ocorria, como eram os tratamentos, se existia uma forma de prevenção ou diagnóstico mais precoce. Nos casos dos animais, não me conformava com o que ouvia na época: ‘É câncer, então, infelizmente, o melhor caminho é a eutanásia’. Achava isso um descabimento, pois não se abandona uma pessoa com câncer, por que com um animal seria diferente?”, questionava.

Avaliação. Cada etapa para a obtenção do título teve seus obstáculos, de acordo com a, agora, especialista, Juliana. Primeiramente, foi realizada a seleção do profissional apto a prestar a prova. “Era necessário estar formado há, pelo menos, cinco anos, ser sócio da Abrovet há três anos, além de precisar obter uma pontuação mínima com atuação na área, participação em congressos específicos e ter realizado um curso de especialização latu sensu em ou pós-graduação stricto sensu na área de oncologia”, descreve.

Após essa candidatura ser aprovada, segundo Juliana, ocorreu a primeira prova, que era constituída por 60 testes abrangendo as áreas de oncologia clínica, cirúrgica e patologia. “Após aprovação, veio a segunda prova, composta por seis casos clínicos. Apesar de atuar na área há oito anos, fazer uma revisão de toda a oncologia veterinária não foi tão simples assim”, revela. Para ela, foi extremamente gratificante a obtenção do título. “Espero poder incentivar outros colegas que já atuam na área a prestarem a prova também. Acho que o título só veio a contribuir para o fortalecimento desta especialidade, que vem crescendo a cada ano”, insere.

A especialista Karen comenta que, tanto a prova teórica, quanto a prática, foram bastante difíceis. “A nota mínima exigida era 7 e as questões envolviam as mais diversas áreas da oncologia, tais como biologia molecular, imunologia do câncer, patologia, cirurgia e clínica oncológica”, enumera.

Ubukata também destaca como principal dificuldade o processo realizado pela Abrovet para fazer com que a especialidade fosse reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV, Brasília/DF). “A partir daí, aguardar todo o processo de elaboração da prova e tudo o que deveríamos ser submetidos até o resultado final também foi complicado. Organizar todas as informações da nossa vida acadêmica e profissional, no meu caso, de 20 anos, não foi algo fácil”, confessa.

aprovados onco
Profissionais acreditam que documento contribuirá
com o avanço de pesquisas na oncologia, o
que acaba levando ao desenvolvimento de melhores
tratamentos aos pets (Foto: divulgação)

Especialistas e ponto. Juliana enxerga a obtenção do título como o reconhecimento de todo seu esforço e dedicação ao longo dos anos na área de oncologia. “Atualmente, muitos clientes fazem, literalmente, uma busca em nosso curriculum lates antes de agendar uma consulta para seu animal. Lembro-me de uma ocasião em que o tutor sabia até o tema de minha dissertação de mestrado”, lembra e frisa que o título veio para agregar valor à sua formação profissional, demonstrando que está apta a exercer seu trabalho da melhor forma possível.

O título de especialista faz com que ocorra uma padronização dos veterinários, na visão de Karen, tanto no tratamento quanto no diagnóstico dos tumores. “Somando-se a isso, em países como os Estados Unidos, uma vez tendo obtido o título de especialista, o veterinário passa a ser mais valorizado, inclusive pela remuneração. O título oferece maior credibilidade ao profissional”, menciona. No Brasil, segundo ela, existem diversos cursos de especialização em oncologia com duração de, aproximadamente, dois anos que tem o intuito de ensinar e treinar os alunos. “No entanto, os que terminam esses cursos passam a exercer a oncologia independentemente de estarem ou não preparados tecnicamente. Assim sendo, a prova para obtenção do título de especialista é extremamente importante para verificar se o profissional que se diz especialista está, realmente, apto para atuar na área”, pondera.

Veterinários despreparados, no ponto de vista de Karen, acabarão perdendo o espaço no mercado a partir de agora. “Isso beneficiará os animais com câncer, já que serão tratados por profissionais com real experiência e treinamento, valorizará o veterinário especialista, já que tutores, no futuro, provavelmente buscarão profissionais com a titulação, e contribuirá com o avanço de pesquisas na oncologia, o que acaba levando ao desenvolvimento de melhores tratamentos para os nossos pacientes”, atesta.

O título de Oncologista Veterinário, para Ubukata, é extremamente importante para que a sociedade saiba que, aqueles que o obtiveram, possuem experiência e excelência no treinamento da área. “Em tempos que observamos uma proliferação enorme de ‘cursos de especialização’, que não deveriam jamais ser chamados assim, pois não garantem o título e, muito menos, vivência nas diversas áreas das mais diversas especialidades. Infelizmente, muitos são apenas correções de uma graduação deficiente. Profissionais egressos se auto intitulam ‘especialistas’ sem nem mesmo terem se candidato ao concurso e ao menos terem experiência”, critica.

O título, agora reconhecido, revela-se, a Ubukata, como uma grande alegria e reconhecimento de sua dedicação. “Eu e minhas colegas, também hoje tituladas como primeiros oncologistas brasileiros, demonstramos, por anos, todos os nossos esforços, abdicações pessoais, estudos fora do País, participação em pesquisas, entre outras atividades, e, agora, tudo isso vale a pena”, comemora e, ainda, adiciona: “O documento é a certeza de que estou oferecendo o que de melhor existe no tratamento do câncer”.

estudo
Atualização é fundamental de acordo
com os especialistas (Foto: reprodução)

A/C estudantes. Para aqueles que pretendem seguir a área de oncologia, Juliana garante que é importante estudar muito, sempre. “Participar de congressos nacionais e internacionais se possível, pois é uma especialidade que está em constante desenvolvimento e novas informações surgem a cada semana. Atualização é fundamental. Diria que é preciso, também, ter certa sensibilidade para atuar na oncologia. Todo tutor merece atenção, mas tutores de pacientes oncológicos são clientes diferenciados”, destaca. Segundo ela, nesses casos, não basta apenas o conhecimento teórico, é preciso, também, entender um pouco sobre a psico-oncologia.

O estudo também é reforçado por Ubukata: “Sempre digo a um estudante: ‘Quando você achar que já sabe tudo, estude mais’, pois nunca saberemos tudo. A ciência evolui a cada dia, novidades são divulgadas constantemente e quem não se atualiza fica para trás. A prepotência de achar que já estudou demais, por ter títulos como Mestre, Doutor ou Pós-Doutor não o fazem um especialista”, assegura.

Karen conta que já ouviu por aí que o título não mudará em nada. “Mas fica a pergunta: Por que não tentar prestar a prova? Medo de não passar? Talvez para aqueles que não passem na prova isso seja uma maneira de estimular o estudo e a atualização na área. Pode ser que, em curto prazo, não faça diferença, mas, com a divulgação do título, haverá valorização do especialista e fará com que tutores aumentem a procura por profissionais titulados pela Abrovet. Isso já foi comprovado em outros países como os EUA e também na Europa. Por que não aconteceria o mesmo aqui no Brasil?”, indaga.

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