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Cães e gatos podem ser acometidos por diferentes tipos de tumores orais

Veterinária afirma que, além de cuidar do pet, é preciso cuidar do tutor

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

com colaboração de Catarina Mosquete

Uma das grandes preocupações na clínica de pequenos animais são as neoplasias de cavidade oral, pois é o quarto local mais frequente de tumores em cães e gatos. Existem algumas raças predispostas, sendo que, entre os cães, o Pointer Inglês, Boxer e Labrador se destacam. Nos felinos, não existe um estudo que indique uma maior frequência para a presença de tumores orais, sendo os animais sem raça definida as vítimas mais recorrentes.

Essas informações foram passadas pela médica-veterinária e professora na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra, Santa Maria/RS), Maria Ines Witz, que ainda expõe que aos pets com idade acima de oito anos e os machos são os mais atingidos, embora alguns autores refiram que não existe uma predisposição de sexo em relação a isso.

A professora explica que os locais afetados com maior frequência são a gengiva, o lábio, as maxilas, o palato e, menos regularmente, a língua. “No momento em que encontramos uma neoformação em cavidade oral ou um crescimento tecidual em cavidade oral, é importante fazer uma boa avaliação clínica deste tumor correlacionando, então, com os dados obtidos por meio do sistema TNN, onde ‘T’ é referente ao tamanho do tumor, ‘N’ ao envolvimento do linfonodo regional e ‘N’ a presença ou não de metástase”, discorre.

As metástases dos tumores de cavidade oral são mais frequentes no pulmão e no cérebro, sendo que, muito frequentemente, o primeiro local de metástase é o linfonodo. “A avaliação histológica é fundamental para traçarmos uma estratégia de tratamento para o crescimento tecidual em cavidade oral. Então, para ter um bom resultado histológico, teremos que realizar a biópsia incisional ou excisional”, expõe.

orais
No exame clínico do paciente oncológico, é preciso
fazer a inspeção, visualizando se existe alguma
assimetria (Foto: reprodução)

A biópsia incisional, segundo Maria, compreende desde uma biópsia aspirativa até uma incisão em cunha. No caso dos tumores orais, a maioria dos carcinomas não possui uma característica esfoliativa, então, outro tipo de biópsia não é válida para essa avaliação. “O importante, também, quando se realiza uma biópsia incisional, removendo um fragmento da lesão, é que ela tenha uma profundidade adequada”, alerta e adiciona: “Já a biópsia excisional consiste em uma intervenção cirúrgica para fazer a remoção total de um tumor e da área circundante para diagnósticos”.

Características. Os tumores de cavidade oral, normalmente, têm uma superfície necrosada por contaminação secundária, por isso a importância de remover o tecido abaixo disso para que se obtenha um diagnóstico efetivo, segundo a veterinária.

Já os aspectos clínicos de um paciente que apresenta tumor oral são: disfagia, atetose, em alguns casos mais severos, a anorexia, e a perda de peso, tosse, dispneia, ptialismo e assimetria facial, em casos onde a lesão tumoral é exuberante. “Alguns animais colocam a pata na boca na tentativa de se livrar daquilo que está obstruindo ou causando desconforto”, sinaliza.

Maria também menciona que existem alguns sinais clínicos específicos para tumores de arcada superior, localizados em maxila: espirros, já por comprometimento de seio nasal, descarga nasal, perda de dentes e exoftalmia. “A exoftalmia acontece pelo crescimento do tumor, principalmente, na região posterior da maxila”, complementa.

Investigação. No exame clínico do paciente oncológico, é preciso fazer a inspeção, visualizando se existe alguma assimetria, secreção nasal e oral, ptialismo e/ou epistaxe. “Também podemos contar com exames auxiliares de diagnóstico, que são os bioquímicos, onde se tem a avaliação básica do paciente por meio do hemograma, proteínas plasmáticas totais, a avaliação do número de plaquetas. Além disso, nessa apuração, precisamos saber qual a capacidade do rim e do fígado para suportar, não só, possivelmente, uma intervenção cirúrgica, como um tratamento adjuvante”, destaca.

A profissional ainda declara que é preciso realizar exame clínico geral do paciente oncológico. “Como os animais acometidos são idosos podem, então, apresentar, associadas à massa tumoral, patologias concomitantes. Pode se tratar de um animal cardiopata, nefropata ou ele pode ter algum distúrbio e saber tudo isso é fundamental para a avaliação do paciente em relação à nossa estratégia de tratamento”, frisa. Esse protocolo leva em consideração o tipo de tumor, a situação do animal, ou seja, o status de saúde e, também, a avaliação do tutor. “O veterinário deve saber o quanto aquele proprietário está interessado em tratar seu pet e qual é a ligação que existe entre eles. A situação financeira também é importante, porque isso demanda um investimento em relação ao tratamento e, por isso, devemos questionar”, insere.

palestrante
Profissional comenta as características e tratamentos
para os carcinomas orais (Foto: C&G VF)

Lidando com pessoas. Quanto essa avaliação do tutor, Maria afirma ser muito importante estabelecer uma parceria com ele para a tomada de decisão sobre o tratamento. “O sucesso da terapêutica imposta por nós dependerá da aderência do proprietário. Por isso, ele precisa concordar com a estratégia e, inclusive, estar ciente das exigências financeiras”, sublinha.

Outro fator lembrado pela profissional é que, muitas vezes, o médico-veterinário deve lidar com a estabilidade emocional do tutor. “Quem de nós nunca ouviu uma história inteira da vida daquele paciente? Muitas vezes, de outros cães que já tiveram doença semelhante ou de alguém da família que morreu de câncer? Por isso digo que, além de veterinários, somos psicólogos. Às vezes, é importante perguntar ‘tem mais alguém que vive em casa com você?’ e chamar a outra pessoa para conversar a fim de dividir as responsabilidades. Nós, muitas vezes, nos esquecemos de dar atenção a esses detalhes tão necessários”, considera.

Tipos e tratamento. As principais neoplasias benignas que acometem cães e gatos são a papilomatose, as neoplasias odontogênicas, entre elas, estão o odontoma, o cementoma e o ameloblastoma. Em relação às neoplasias malignas, as mais comuns, de acordo com Maria, são: melanoma, carcinoma espinocelular, fibrossarcoma e osteossarcoma.

Biópsia, terapia cirúrgica, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e vacinas estão na lista estratégica para tratamento dessas doenças. “A terapia cirúrgica envolve a remoção de tecido ósseo, de dentes, de lábios, algumas vezes, do globo ocular e das conchas nasais. Lembrando que devemos nos preocupar com a vascularização”, cita.

Outra situação exposta pela veterinária é a remoção de um segmento da mandíbula, que não é da região rostral, mas, sim, da região posterior. “Isso, na maioria das vezes, será a melhor escolha, em termos de margem de segurança. O inconveniente é que esses pacientes ficam com a língua pendular e ocorre o desvio da mandíbula para o eixo central”, compartilha.

A radioterapia apenas os veterinários de São Paulo (SP) e do Rio de Janeiro (RJ) conseguem utilizá-la, como conta a profissional, o que restringe o procedimento em outras localidades. Já a quimioterapia possui pouco valor terapêutico de forma isolada. “Normalmente, ela é associada à cirurgia e apenas alguns tipos de carcinoma podem ser tratados com ela. A imunoterapia funciona bem nos carcinomas e, principalmente, naqueles gatos que têm hepatite crônica e carcinoma, que são aquelas lesões escuras no pelo, tanto na pálpebra, quanto na lateral do focinho”, finaliza.

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