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Casos de leishmaniose refletem falta de orientação à comunidade

Veterinária conta que 88% dos cães não tratados e sintomáticos vão a óbito

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Não importa o número de notícias e informações sobre casos de Leishmaniose. A quantidade de casos continua crescente, o que pode indicar displicência da população em relação aos cuidados de prevenção da doença. Exemplo disso é a cidade de Florianópolis (SC), que, nos três primeiros meses deste ano, registrou 18 cães diagnosticados com a doença e 11 animais foram eutanasiados. Sendo assim, reforços sobre o tema são sempre bem-vindos.

No Brasil, conforme expõe a médica-veterinária Anaiá da Paixão Sevá, os hospedeiros são humanos, canídeos, tanto silvestre como domésticos, felinos e roedores marsupiais. “O cão doméstico é considerado o principal reservatório da doença pelos seguintes fatos: ele tem contato mais estreito com o homem, abriga bastante carga parasitária e transmite para o vetor”, comenta.

A profissional conta que existem alguns estudos mostrando que há uma relação entre a ocorrência de casos humanos e de casos caninos. “Quando aumenta a incidência em pessoas, aumenta, também, nos cães. Da mesma forma quando diminui, tornando-se uma relação direta. Mas, também temos um estudo que diz o inverso, então isso ainda é apenas questionável”, aponta.

As alterações mais observadas em cães acometidos pela enfermidade, considerando que de 50 a 60% dos animais soropositivos são assintomáticos, ou seja, não demonstram sintomas, são: emagrecimento, perda de pelos, fraqueza, feridas, gânglios inchados, crescimento exagerado das unhas, anemia, dentre outros. Nos órgãos internos, pode ocorrer o crescimento do fígado e demais alterações. “Os assintomáticos estão bem clinicamente, porém infectados. Assim, o animal tem a sorologia positiva, no entanto, demora de quatro a oito meses para ter sintoma”, discorre e insere que os assintomáticos transmitem mais que o sintomáticos: “Por ter a pele íntegra, esse pet abriga mais parasitas”, adiciona.

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Veterinária frisa que o tratamento só gera a cura
clínica e não a parasitológica (Foto: reprodução)

Os gatos também não podem ser esquecidos, apesar de os cães serem os principais reservatórios. Os sinais mais visíveis são: conjuntivite, dermatite ulcerativa, uveíte e estomatite. “Também é possível observar um aumento dos gânglios linfáticos. Além disso, podem ocorrer sintomas específicos, como anorexia, emagrecimento progressivo, apatia etc”, integra.

Diagnóstico e tratamento. Em busca de identificar a Leishmaniose, os veterinários possuem algumas opções, de acordo com Anaiá: citologia, histologia, cultivo in vitro, cultivo in vivo e métodos moleculares. “Há, ainda, diagnóstico sorológico, com reação direta, indireta, Elisa e teste rápido. Este último coleta o sangue, extrai soro e oferece o resultado em quatro minutos. Esse é o método utilizado pelo Ministério da Saúde (Brasília/DF)”, comenta.

A veterinária frisa que o tratamento só gera a cura clínica e não a parasitológica: “A terapia diminui a carga parasitária, mas o parasita não morre, então o pet continua infectado e infectante”. Os pets sintomáticos são tratados com um mês de miltefosina junto com tratamento de suporte, porque, segundo Anaiá, normalmente, a leishmaniose está associada com doença de pele, anemia e doença renal. Após um mês, a terapia continua com alopurinol, que deve ser administrado para o resto da vida do animal, além de eventuais tratamentos da doença. “Ainda tem a seguinte questão: o veterinário trata, o animal fica bem, mas tem recidiva e desenvolve sintoma clínico. Portanto, é indicado a cada quatro ou seis meses realizar exames laboratoriais para ver se o paciente está em fase de recidiva e, caso sim, voltar tratamento com miltefosina”, orienta.

Junto à terapêutica, a profissional atesta que é importante utilizar medidas de proteção, como coleiras e repelentes para afastar o vetor. “É imprescindível diminuir o contato do mosquito com o animal”, destaca e revela o investimento que um pet acometido exige: “O medicamento com miltefosina para um cão de 20kg está, em torno de, R$ 1.200 e dura os 28 dias iniciais de tratamento. Exames periódicos somam mais R$ 200, além do uso de repelentes. Por conta desse custo, existe uma frequente descontinuidade da intervenção”, sinaliza.

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Realização da eutanásia está relacionada ao alto
índice de depressão e suicídio na Medicina
Veterinária (Foto: reprodução)

Contenção. O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de cada município é responsável por verificar e acompanhar os contactantes, como comenta a veterinária, pois, em residências com mais de um animal, mais de um sempre está infectado. “Em relação à vigilância e ao controle, o centro de vigilância classifica a cidade de acordo com o tipo de transmissão existente a fim de saber qual medida será tomada”, expõe.

Ela conta que o local pode ser intitulado como “vulnerável”, sem casos autóctone humano ou canino, mas está próximo aos municípios infectados, com fluxo migratório intenso; “receptivos”, quando verificou a presença do vetor, porém não há casos; e cidades “transmissoras”, que já foi registrado caso autóctone.

Proteção. A vacina disponível no mercado brasileiro e reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF) é a Leishtec. “Ela só pode ser ofertada a animais soronegativos, acima de quatro meses de idade e em três doses iniciais, com intervalo de 21 dias entre elas, e, depois, reforços anuais”, recomenda. Cada dose custa em torno de R$ 120 e o exame de sorologia é R$ 90. “A Leishmune esteve no mercado, mas não haviam terminado a fase 3 do estudo e, quando terminaram, o MAPA considerou que as vendas deveriam ser interrompidas”, lembra.

Anaiá também comenta o fato de que a Medicina Veterinária está no topo das profissões com alto índice de depressão e suicídio e relaciona com as escolhas dos tutores de cães e gatos acometidos pela Leishmaniose, que afetam os veterinários: “É público e notório que o profissional que realiza a eutanásia não gosta do que está fazendo. Muitas vezes, ele tem que sacrificar um animal soropositivo, porém, assintomático: o pet está bem, abanando o rabo, mas deve ser sacrificado, porque é um reservatório e a decisão foi da família”, evidencia.

A profissional também faz um apelo a toda a comunidade, mesmo àquelas pessoas que não têm animais, mas que, também, podem fazer seu papel: “É preciso cuidar do ambiente, utilizando repelente e se precavendo contra o mosquito. Devemos pensar nas pessoas ao nosso redor, no vizinho que pode ser portador de HIV, um bebê ou um idoso, indivíduos mais expostos à contaminação”, finaliza.

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