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Convulsões x epilepsias: profissional aponta como diferenciar

Algumas pessoas confundem prognóstico com diagnóstico da doença

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Entre tantas ocorrências que chegam aos hospitais e clínicas especializadas em neurologia veterinária, as crises convulsivas ou convulsões estão entre os problemas mais recorrentes. Como explica o médico-veterinário diplomado pelo American College of Veterinary Internal Medicine (Acvim, Colorado/EUA) na especialidade neurologia, Ronaldo Casimiro da Costa, a crise é um período de função cerebral anormal excessiva paroxística, ou seja, que aparece desaparece de forma súbita, com grande variação e manifestação clínica.

Sendo assim, o profissional explica que se trata apenas de um sinal clínico. “Me perguntam qual o prognóstico para pacientes com convulsões. É, praticamente, a mesma coisa que perguntar qual o prognóstico do paciente com tosse. Isso porque há uma variedade de motivos e especificações. Muitos profissionais do Brasil, inclusive, confundem esse sinal clínico com um diagnóstico”, aponta.

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Profissional deve iniciar a abordagem excluindo todas
as possíveis causas extracranianas (Foto: reprodução)

Já a epilepsia, Casimiro explica que é uma síndrome caracterizada por crises epiléticas recidivantes de origem intercraniana. “Existem dois tipos de epilepsia. A idiopática ou primária é resultante de um distúrbio cerebral primário e hereditário em muitas raças. Pode ser, também, sintomática, quando as convulsões são causadas por uma doença intracraniana primária, como tumor e encefalite”, explana. Além desses dois tipos, há o diagnóstico “provável sintomática”, quando o veterinário suspeita que as crises sejam secundárias e uma lesão intracraniana mesmo que não tenha sido identificada com recursos de imagens avançadas.

Além dos tipos diferentes de crises, existe, também, uma classificação. “Elas podem ser generalizadas ou focais. As generalizadas são aquelas em que ambos hemisférios cerebrais são envolvidos simultaneamente. Já as crises focais são aquelas onde existe uma anormalidade focal de alguma região cortical. Por conta da organização somatotópica do córtex cerebral motor, nesse tipo de ocorrência há o envolvimento dos músculos da face”, discorre. O profissional ainda adiciona que além dessas, existe a crise focal com generalização secundária.

Como deve ser a investigação? Na abordagem diagnóstica o veterinário deve procurar resposta para duas questões, de acordo com Casimiro: “O que o paciente apresenta é, realmente, uma crise convulsiva?” e “Se sim, qual é a causa?”. “Depois disso, a fim de facilitar o diagnóstico, o profissional deve iniciar a abordagem tentando excluir todas as possíveis causas extracranianas, por meio de resenha, anamnese, exame físico, hemograma e exames bioquímicos”, enumera. Se nenhuma alteração for encontrada, só restam as causas intracranianas, segundo o especialista.

As lesões estruturais intracranianas podem ser detectadas, dependendo do tamanho e de onde se localiza, por meio do exame neurológio EM. “Na abordagem de um paciente com histórico de possíveis crises, o EM é o principal instrumento diagnóstico a disposição do clínico, porque oferece informações sobre a função neurológica”, revela. O exame fornece, principalmente, segundo ele, dados sobre a localização da lesão. Porém, em casos com suspeitas de epilepsia sintomática é necessária a realização de exames como a análise do líquido cérebro-espinhal, a tomografia e/ou a ressonância magnética.

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Casimiro cita as vantagens e desvantagens das opções
de medicamento para a terapia (Foto: C&G VF)

Como tratar? Uma crise de meses em meses, normalmente, não necessita de tratamento, como garante Casimiro, mas, uma a cada duas semanas sim. “O intervalo para considerar uma crise é de seis meses”, expõe. Existem diferentes tipos de anticonvulsivantes no mercado, mas o profissional destaca que a maioria dos utilizados em humanos não apresenta farmacocinética compatível para a utilização em cães. “A maioria dos cães já alcança bons resultados com o uso de Fenobarbital e do Brometo de Potássio na terapia de manutenção, desde que o veterinário trabalhe adequadamente com essas drogas”, sinaliza.

Vantagens e desvantagens dos medicamentos. Casimiro atesta que o Fenobarbital é seguro e vem sendo utilizado há anos na Medicina Humana. “Além disso, ele tem custo acessível, pode ser administrado a cada 12 horas mantendo a concentração eficaz e pode ser oferecido por via oral, intravenosa e/ou intramuscular”, descreve.

Em contrapartida, de acordo com ele, o paciente se torna dependente da droga, pode contrair hepatotoxicidade, um dano no fígado causado por substâncias químicas que, em alguns casos, chega a ser fatal. O remédio também causa sedação, que, geralmente, desaparece após duas ou três semanas de tratamento, causa poliúria, polidipsia e ganha de peso, entre outros efeitos colaterais.

No caso do Brometo de Potássio, Casimiro diz que ele é tão ou mais efetivo quanto o citado anteriormente, é acessível e seguro e é excretado intacto por via renal, não sofrendo metabolização hepática, portanto, não é hepatotóxico. “Não existe relatos de dependência e pode ser utilizado em associação ao Fenobarbital”, acrescenta. O medicamento pode ser administrado a cada 24 horas, o que se torna mais fácil aos proprietários.

Porém, Casimiro inicia a lista de desvantagens com a informação de que o medicamento não está disponível comercialmente e, por isso deve ser manipulado. “Ele também demora para estabilizar a concentração sérica, em torno de quatro meses, e, atualmente, só é possível administrar por via oral”, conta. O remédio ainda causa fraqueza dos membros pélvicos, vômito, quando aplicado em altas doses, sedação, polidipsia e poliúria, entre outras disfunções.

O tratamento está funcionando? O profissional explica que o veterinário responsável pelo tratamento tem alguns indícios para saber se o tratamento aplicado está atingindo retorno. “O ideal é que o cão fique três meses sem crise. Esse é o objetivo primário. Ou, então, que tenha redução de, no mínimo, 50% das ocorrências”, elucida. Não existe nenhuma medicação para o tratamento da epilepsia canina, na visão de Casimiro, que seja tão eficaz quanto o Fenobarbital, pois apresenta eficácia de 82%. “De cada 20 cães epiléticos que o veterinário atenda, apenas três não alcançam benefícios com esse medicamento”, finaliza.

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