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Currículo, mercado e ensino à distância são debatidos por veterinários

Durante Feipet, profissionais se manifestaram a favor da boa formação

Cláudia Guimarães, de Novo Hamburgo (RS)

claudia@ciasullieditores.com.br

Albert Einstein já dizia: “Não ensino meus alunos. Crio a condição para que aprendam”. São exatamente por essas condições que professores e conselhos de Medicina Veterinária vêm lutando no Brasil. O objetivo? Simples: melhorar a qualidade de ensino e colaborar para que o mercado receba, cada vez mais, profissionais capacitados.

Novas formas de aprendizagem, modalidades de ensino atualizadas e novas diretrizes sendo propostas são alguns dos exemplos de ações realizadas para que o graduando tenha 100% de aproveitamento do conteúdo programado para os anos de curso. Recentemente, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV, Brasília/DF) questionou o Conselho Nacional de Educação a respeito das diretrizes curriculares existentes nas faculdades de Medicina Veterinária e o tema gera debates dentro da classe. A 5ª edição da Feira de Negócios para Animais de Estimação (Feipet), que teve início no dia 20 de maio e encerramento nessa segunda-feira (22), em Novo Hamburgo (RS), trouxe uma novidade sobre este assunto nesse ano: o Espaço Ensino, que abre as portas para três universidades da região fomentar as realidades de seus cursos de Medicina Veterinária.

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Feipet contou com a novidade Espaço Ensino, voltado ao aprimoramento profissional (Foto: C&G VF)

O coordenador do curso da Universidade de Caxias do Sul (UCS, Caxias do Sul/RS), Leandro do Monte Ribas, afirma que a instituição possui uma visão moderna da graduação, sem deixar de lado as raízes da formação profissional. “No entanto, hoje, nossa visão é trabalhar a formação de um médico-veterinário que atue com a Saúde Única, já que o profissional mais qualificado para isso é o veterinário, uma vez que acaba unindo essa tríade que é a saúde humana, com a saúde dos animais e a conservação do meio ambiente”, menciona.

A UCS formará a primeira turma do curso, que tem duração de cinco anos e contabiliza cerca de 600 alunos, no fim deste ano e Ribas reforça:

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Leandro Ribas reforça preceitos de Saúde Única
no ensino da veterinária (Foto: C&G VF)

“Vamos graduar nossos primeiros veterinários dando prioridade para essa formação: um clínico capacitado para poder intervir em todas as demandas, tanto regionais como nacionais, que exigem a presença de um médico-veterinário”.

Na ocasião em que o CFMV sugeriu algumas mudanças nas diretrizes dos cursos de Medicina Veterinária, pontuou que os graduandos devem receber uma formação generalista. Sobre isso, Ribas comenta que, mesmo seguindo as instruções do Conselho, a UCS oferta possibilidades para os alunos já direcionarem, em estudos extraclasses, por meio de estágios, monitorias, cursos de extensão, entre outros, sua especialização. “Mas ele sai sim com essa visão generalista podendo atuar em todas as áreas que o médico-veterinário pode trabalhar”, assegura.

Discordando um pouco dessa visão do CFMV, o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio Grande do Sul (CRMV-RS, Porto Alegre/RS), Rodrigo Marques Lorenzoni, observa que a Medicina Veterinária é uma profissão de origem generalista, não sendo possível fugir deste fato. “Porém, o mercado quer um profissional especialista, ele não quer mais o meu avô que era veterinário em 1950 e atendia o passarinho, o cão, o gato e o elefante que vinha com circos para Porto Alegre (RS). Hoje, se deseja um veterinário que entenda do rim do cão, que entenda de boas práticas de fabricação de alimentos, um veterinário que saiba atuar em inspeção, enfim, profissionais das mais variáveis áreas da profissão, com alguma especialização”, ilustra.

Sendo assim, Lorenzoni defende que deve haver uma reformulação do currículo a fim de garantir uma formação generalista apenas até certo ponto do curso. “A partir dali, o aluno deve se encaminhar para uma das áreas e aí, também, contar com o fortalecimento dos programas de residência médica, bem como na medicina humana. Dessa forma, na residência o graduando tem a chance de realizar uma especialização específica. Ao meu ver, os alunos têm que começar a olhar a especificidade com qual deseja trabalhar já dentro da universidade, porque o mercado não quer um profissional generalista e acho que isso em qualquer área, não só na Medicina Veterinária”, opina.

RODRIGO LORENZONI-CRMV-RS-CAESEGATOS

Além de uma formação global sobre a Medicina Veterinária,
Lorenzi acredita que especialidade é sim diferencial de mercado
(Foto: C&G VF)

Para o presidente do CRMV-RS, os pilares que as universidades devem ter para formar bons profissionais são: técnicas e pesquisa, vivência prática e a equivalência com o mercado. “O contato do aluno com o animal, com laboratório, com a rotina da profissão, dentre outras coisas, se aprende na academia. E cito a necessidade de haver um alinhamento com as necessidades do mercado porque, hoje, há uma dissintonia entre o perfil de profissional que a universidade forma e o que o mercado quer. O mercado quer alguém com capacitação técnica, evidentemente, e a faculdade entrega isso, mas o mercado não quer só isso, quer um profissional que tenha capacidade de liderança, entendimento de gestão, de trabalho em equipe, conhecimentos básicos de finanças, de contabilidade, enfim, um veterinário que tenha habilidades construídas ou, pelo menos, pavimentadas na universidade e, hoje, isso não existe e me preocupa muito. Acho que estamos em uma encruzilhada da profissão: ou a academia entende isso, dá atenção e corrige o rumo, ou a academia vai colocar em risco o crescimento da profissão”, salienta.

A presidente da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais do Estado  e do Rio Grande do Sul (Anclivepa-RS), Vera Machado, vai ao encontro do posicionamento do CFMV: "O profissional que sai da universidade deve estar apto para atuar nos diversos segmentos da profissão. A especialização é uma opção pós curso que se tornou necessária devido ao grande número de profissionais no mercado e uma forma de se destacar entre os outros".

Ensino gaúcho e aprendizagem à distância. Rodrigo Lorenzoni conta que existem 18 cursos de Medicina Veterinária no Estado do Rio Grande do Sul. Quando iniciou seu mandato, há cinco anos e meio, havia apenas dez cursos. “Podemos afirmar que é um mercado ascendente e isso, por um lado, nos mostra que há um interesse social das pessoas com a profissão e, ao mesmo tempo, nos traz uma preocupação com a qualidade do ensino, nos questionamos se esses cursos terão condições de oferecer a estrutura adequada para o ensino da Medicina Veterinária e se nós teremos mestres e doutores suficientes para capacitar médicos-veterinários”, questiona e menciona o número de cursos de Veterinária no Brasil: mais de 272.

O presidente também cita um terceiro aspecto que também o preocupa: o ensino à distância. “Aqui no Rio Grande do Sul não existe nenhum curso, mas tivemos uma tentativa disso em Santa Catarina, que é o mais absoluto absurdo. A Medicina Veterinária não é virtual, não temos como ensiná-la de forma digital. Por isso, o processo deliberado de abertura de cursos traz grandes preocupações, mas as soluções ainda não estão ao nosso alcance. O que conseguimos fazer, enquanto Conselho, é tentar disciplinar algumas coisas que nos cabem, por exemplo, o funcionamento dos hospitais veterinários em escolas e a presença do responsável técnico dentro de laboratórios e universidades; então, começamos a discutir dentro do sistema de conselhos regionais a possibilidade de implantar prova de proficiência aos moldes da prova da OAB”, revela. Segundo ele, há um movimento de um grupo de conselhos que pensam em fazer alteração na lei para que se inclua a necessidade de que o formando seja, antes, aprovado e aí ser considerado estar apto para receber o registro profissional para trabalhar. “Acredito que essa seja uma alternativa interessante para que possamos preservar a sociedade, os animais e garantir que teremos bons profissionais no mercado”, expõe.

Vera Machado acrescenta que, caso o Ministério da Educação (MEC, Brasília/DF) continue liberando cursos sem ter controle sobre a qualidade dos mesmos, o futuro da profissão está ameaçado. "Além de boas faculdades, bons cursos e professores capacitados, deve haver alunos interessados, que, realmente, saiam da graduação aptos a cumprir sua missão diante da sociedade", pontua.

Sobre o tema “ensino à distância”, o coordenador da UCS, Leandro Ribas, diz que, assim como outras áreas da saúde, a Medicina Veterinária não deveria contar com vagas para cursos à distância. “Precisamos dessa vivência prática, mesmo que com adaptações nos meios de estudo, pensando no bem-estar animal, como, por exemplo, a não utilização de animais para pesquisas em laboratórios. Mas, mesmo com essas novas normativas e perspectivas de estudo na Medicina Veterinária, ainda entendemos, nós professores, que o ensino à distância nessa profissão é um risco para a sociedade. Eu, enquanto coordenador, sou completamente contra essa modalidade de ensino, porque acredito que seja um retrocesso dentro do estudo da Medicina Veterinária”, defende.

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