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Debate traz opiniões divergentes sobre dieta vegana para pets

Veterinários e zootecnista expõem suas experiências com esta alimentação

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Preocupações com o meio ambiente, saúde e bem-estar dos animais são algumas coisas bastante recorrentes nos dias atuais. Com base nisso, há uma mudança no hábito alimentar de diversas pessoas, que optam por dietas veganas para si mesmas e, muitas vezes, repassam esta ideologia aos seus cães e gatos. Mas, o que os veterinários e zootecnistas têm a dizer sobre isso?

A C&G VF conversou com a médica-veterinária Carolina Mussi Goldstein, que acredita que precisam existir mais estudos para afirmar que a dieta vegana não é prejudicial à saúde do pet a longo prazo. “Veremos, daqui a alguns anos, o reflexo dessa alimentação. Muitos estudos são realizados em um curto período de tempo, com poucos pacientes estudados. Por exemplo, são divulgados estudos com duração de 6 meses, sendo que existem privações de vitaminas que começam a refletir na saúde, justamente, após os 6 meses sem a ingestão das mesmas, dependendo do estoque prévio no organismo do animal”, argumenta.

Como apontado por ela, não existe um estudo imparcial, com anos de duração e com um “N” (número de pacientes estudados) significativo com tal alimentação, diferente das rações convencionais, que possuem anos de estudos científicos rigorosos. “Até lá, sigo contra a alimentação vegana para pets. Sempre vou priorizar a ciência e estudos com credibilidade. E digo isso sendo, eu mesma, vegetariana, com interesse no veganismo. Minha ideologia não se sobrepõe à minha responsabilidade de manter meus próprios pets e pacientes saudáveis”, garante.

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Carência de vitaminas podem causar doenças de pele,
como dermatites, por exemplo, ou, ainda, dificuldades
digestivas nos animais (Foto: reprodução)

A veterinária e proprietária do consultório Bola de Pelo (Goiânia/GO), Lidiane Aparecida Sartin de Oliveira, também é contra a oferta exclusiva de uma dieta vegana aos animais de companhia. Segundo ela, os organismos destes animais absorvem com muita facilidade os aminoácidos necessários por meio da proteína animal e baixa eficiência proteína de origem vegetal. “Desta maneira, um ponto em comum entre cães e gatos é que são animais anatomicamente carnívoros, com dentes caninos bem desenvolvidos, ausência de amilase salivar, estômago bastante desenvolvido e com pH rigorosamente ácido, apto a digerir proteínas, e intestino grosso curto”, explica.

O outro lado. Já a profissional que realiza atendimento clínico, cirúrgico e oftalmológico no Hospital Veterinário Vetnasa Interlagos, Fernanda Loureiro Fazio, afirma que a oferta de alimentos veganos ou vegetarianos é bem-vinda em casos de animais alérgicos, onde uma dieta de exclusão dos alérgenos não possa ser realizada pelo tutor. “Opto por rações sem a presença da proteína animal (caso o cão tenha intolerância) e livre de corantes e conservantes artificiais”, conta.

Fernanda acredita que é possível fornecer uma dieta vegana aos pets desde que a mesma seja acompanhada por um nutricionista. “No caso das ração prontas, já são enriquecidas com vitaminas, aminoácidos, minerais e proteínas que atendem todas as necessidades nutricionais do cão ou do gato, sem a necessidade de mesclar ou suplementar”, aponta.

Por sua vez, o veterinário e fundador da Animal Place, Jorge Moraes, não recomenda a oferta exclusiva de vegetais, mas afirma que, hoje em dia, existe a sintetização de aminoácidos essenciais a partir de vegetais e que há, no mercado, algumas rações adaptadas e apropriadas para uma dieta vegana. “Contudo, elas são mais caras e, por se tratar de um produto novo, não há muitos estudos sobre os resultados deste tipo de alimento no organismo dos animais a longo prazo. Não temos como saber qual será a qualidade de vida desses pets na idade senil, por exemplo”, expõe. Por isso, em sua visão, equilibrar uma alimentação para o animal é essencial. “Se o tutor optar por dietas com origem vegetal, pode haver a necessidade de suplementação com vitaminas e minerais, além de outros nutrientes que ajudem a compor a proteína”, adiciona.

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Nos gatos, a taurina, originária de proteína animal, é um
aminoácido essencial para o bom funcionamento hepático,
formação de tecido muscular e cardíaco (Foto: reprodução)

Formulação. O zootecnista Henderson Verdugo Pascoal, que atua na área de desenvolvimento de produtos para o mercado de nutrição animal, revela que é a favor de uma alimentação vegana aos animais desde que a formulação seja feita com responsabilidade e por profissionais que, realmente, tenham conhecimento sobre nutrição. “Meu papel como profissional da área de pesquisa e desenvolvimento de alimentos é criar soluções nutricionais equilibradas, que respeitem as exigências dos animais e seu bem-estar”, manifesta.

Pascoal discorre que, para o desenvolvimento de alimentos veganos para cães e gatos, primeiramente,  o nutricionista ou zootecnista busca saber qual a exigência nutricional do animal e, levando em conta o conceito de nutrientes que atendam às exigências específicas de cada um, ele deve identificar as fontes de nutrientes presentes nos diferentes ingredientes e formular o alimento, preenchendo cada necessidade. "Sendo assim, com a evolução da nutrição animal, há no mercado ingredientes que fornecem todos os nutrientes necessários para atender cães e gatos sem o uso de itens de origem animal, tornando possível para animais de companhia sobreviverem e se desenvolverem se alimentando com rações veganas, desde que sejam completas e balanceadas", declara.

Carências. No entanto, a veterinária Carolina rebate afirmando que existem aminoácidos e vitaminas que os pets obtêm exclusivamente pela alimentação, ou seja, não são sintetizados pelo seu próprio organismo. “Os aminoácidos essenciais totalizam 10 nos cães e 11 nos gatos (um deles é a taurina).  Quanto às vitaminas, podemos citar o ácido fólico e, principalmente a vitamina B12, somente encontradas em ingredientes de origem animal”, reforça.

Lidiane adiciona mencionando que, no caso dos felinos, diversos distúrbios ósseos, gastrointestinais, hematológico, perda de peso e quedas de pelo estão relacionados à dieta inadequada. “A metionina e cistina são aminoácidos encontrado exclusivamente em carnes. A deficiência de metionina acarreta em dermatites crostosas e a cistina diminui a produção de pelos, além de terem baixa produção de glicose. Além disso, dietas pobres em fenilalanina, encontrada em carnes, inclui baixa pigmentação da pelagem em felinos”, compartilha.

Moraes também cita que, diante de carências vitamínicas, o animal pode produzir doenças de pele, como dermatites, por exemplo, ou, ainda, sofrer dificuldades digestivas. “Isso porque cães e gatos têm dificuldade na digestão de celulose e, em contrapartida, possuem facilidade em digerir a proteína de origem animal”. Apesar disso, Pascoal garante que a ausência de carne não é capaz de causar problemas aos pets: “Por isso existem as rações, que devem seguir, em suas fórmulas, quantidades substanciais de ingredientes proteicos que forneçam os aminoácidos necessários, sejam eles de origem animal ou não. Não há restrições de uso para animais saudáveis”.

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Profissionais defendem que os hábitos alimentares
humanos são muito diferentes dos hábitos naturais
dos animais (Foto: reprodução)

Animal x tutor. Sobre os hábitos dos proprietários influenciarem a saúde de seus pets, Carolina diz que, dentro das diretrizes de bem-estar animal, são consideradas 5 liberdades: “Uma delas é ‘ter liberdade para expressar os comportamentos naturais da espécie’. Ao projetarmos nossas vontades e ideologias nos animais, estamos tirando sua liberdade de expressar comportamentos naturais, influenciando, diretamente, em seu bem-estar, de forma negativa. Temos que respeitá-los, ao máximo, como eles são”, pondera.

Lidiane também defende que os hábitos alimentares humanos são muito diferentes dos hábitos naturais dos animais. “Cada espécie possui sua particularidade e podem ser afetadas negativamente com dietas veganas, no caso dos cães e gatos, dietas hipercalóricas ou superalimentados”, indica.

Por outro lado, Fernanda menciona que, utilizando uma ração vegana ou vegetariana, o tutor não tem o trabalho de preparar a comida do seu animal e tem a garantia de que o mesmo está recebendo todos os nutrientes necessários. “A utilização desse tipo de alimentação tem sido indicada para uso terapêutico, com excelentes resultados na clínica médica, principalmente nos animais alérgicos. Além de diminuir o odor das fezes”, declara e considera importantíssimo ressaltar que essa dieta, quando feita em casa, deve ser acompanhada e suplementada por um nutricionista. “Principalmente para o gato, onde a deficiência de taurina causa a morte do animal”.

Considerações finais. Diante de suas análises e experiências pessoais, cada entrevistado possui uma linha de pensamento. Lidiane se posiciona totalmente contrária à alimentação vegana para cães e gatos por este tipo de dieta, em sua opinião, não respeitar a fisiologia e não fornecer aminoácidos e vitaminas essenciais a esses pets. “Existem rações veganas no mercado, que, no meu conhecimento e rotina clínica, têm prejudicado a formação da pelagem dos animais e causado diarreias, principalmente nos felinos que atendi em meu consultório. Eles tiveram melhora do quadro clínico após 30 dias de fornecimento de alimentação adequada, que, nestes casos, orientei o consumo de ração industrializada de alta qualidade”, descreve.

Carolina sublinha: “Como disse anteriormente, acredito que a ideologia não deve se sobrepor à responsabilidade de manter o pet saudável com bases científicas e comprovadas”. Já Jorge, que não indica a dieta apenas para gatos, que, segundo ele, são exclusivamente carnívoros, acredita que um nutrólogo deve fazer avaliações clínicas e laboratoriais regularmente nos pets adeptos ao veganismo para identificar, previamente, qualquer deficiência nutricional e verificar seu desenvolvimento.

Fernanda indica a alimentação vegana nos seguintes casos: alérgicos, com problemas intestinais, com pancreatite e hepatopatia, para idosos e em pós-operatório ou internação. “Em todos os casos, tendo o animal se adaptado bem com a alimentação, mantenho pelo resto da vida, sem necessidade de acompanhamento, somente com o uso da ração”, revela.

Este é um movimento crescente, na visão de Pascoal: “Percebemos uma excelente aceitação e um crescimento acima do esperado na comercialização dessas rações vegetais, principalmente na versão para gatos, onde havia uma grande resistência. É importante lembrar que a maior parte das rações comerciais, atualmente, seja com composto animal ou não, utiliza aminoácidos sintéticos, como metionina, cistina e taurina”, aponta.

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