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Dos primórdios aos dias atuais: como combater a Raiva?

Após surgirem os sinais, doença é, quase sempre, fatal

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Em sânscrito, língua clássica da Índia, se diz “Rabhas”, o que significa ”agredir”. Na nossa linguagem, lemos como “Raiva”, cuja origem data de 3000 a.C. É uma doença que afeta o homem e os animais (zoonose), que compromete o sistema nervoso central, onde provoca uma encefalite aguda, fatal e, em geral, de evolução rápida. Nesse 28 de setembro, Dia Mundial Contra a Raiva, a C&G VF traz um panorama sobre a enfermidade em humanos e animais de companhia e mostra como é possível reduzir a casuística.

O médico-veterinário e professor da Escola de Veterinária, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC, Betim/MG), e diretor Clínico do Santo Agostinho Hospital Veterinário (Belo Horizonte/MG), Vitor Márcio Ribeiro, conta que, na Europa, as principais fontes de infecção são as raposas e os guaxinins. Nos Estados Unidos e Canadá, o vírus da Raiva é encontrado em animais silvestres como o gambá, guaxinim, raposa e morcegos insetívoros. “Já na América Latina e no Caribe, embora ainda persista o ciclo urbano em algumas regiões, ciclos silvestres vêm assumindo muita importância, em mangustos, morcegos hematófagos, cachorros do mato e saguis. Na África e Ásia, o ciclo predominante é o urbano, onde o cão é o principal transmissor”, aponta.

Vitor Ribeiro
Ribeiro é diretor Clínico do Santo Agostinho
Hospital Veterinário (Foto: divulgação)

O profissional revela que a infecção causa dezenas de milhares de mortes por ano, principalmente na Ásia e na África, onde se registram mais de 95% dessas ocorrências. “Cerca de 40% das pessoas mordidas por animais suspeitos de raiva são crianças menores de 15 anos de idade”, sinaliza. Após o surgimento dos sinais, a Raiva é quase sempre fatal, segundo Ribeiro.  “Ela é uma enfermidade desatendida de populações pobres e vulneráveis, nas quais as mortes são subnotificadas. Tem sido mais frequente em comunidades rurais isoladas, onde as medidas de prevenção são escassas”, completa.

Ribeiro chama atenção para o fato de que todos os anos, mais de 15 milhões de pessoas em todo o mundo recebem uma vacinação antirrábica pós-mordida. “Isto evita muitas mortes por Raiva anualmente”, garante e afirma que, à medida que o vírus se espalha para o sistema nervoso central, desenvolve-se inflamação progressiva e fatal do cérebro e da medula espinhal.

Tipos da doença. Ribeiro menciona que existem duas formas da doença. A primeira são pessoas com raiva furiosa, que exibem sinais de hiperatividade, comportamento excitável, hidrofobia (medo da água) e, às vezes, aerofobia (medo de vento ou de ar fresco). “A morte ocorre após cinco a 10 dias, devido à parada cardiorrespiratória”, discorre. A segunda é a Raiva paralítica, que representa cerca de 30% do número total de casos humanos. “Esta forma de doença apresenta um curso menos dramático e, geralmente, mais longo do que a forma furiosa. Os músculos, gradualmente, ficam paralisados, começando no local da mordida ou arranhão. Aos poucos, o paciente entra em coma e vai a óbito. A forma paralítica da doença é, frequentemente, diagnosticada de forma errada, contribuindo para a subnotificação”, observa.

Retrospectiva da vacinação. O veterinário cita que o grande marco no controle da enfermidade humana se deu em 1885, quando o cientista francês Louis Pasteur recebeu um garoto de nove anos, que, no dia anterior, havia sido mordido por um cão raivoso nas mãos, pernas e músculos. “Até então, Pasteur havia tentado vacinar somente animais, porém, frente à natureza, à gravidade das lesões e à consciência de que a criança contrairia a Raiva, decidiu iniciar a experimentação da vacinação contra a Raiva em seres humanos”, narra. O garoto citado sobreviveu e, desde esse tratamento, realizado em janeiro de 1885, até outubro de 1886, Pasteur tratou 2.490 pessoas, sendo 1.726 provenientes da França e Argélia e as demais de diversos países, inclusive Rússia e Estados Unidos.

Em 1921, essa vacina foi adaptada para o uso em cães domésticos como parte do controle da Raiva no Japão, de acordo com o profissional. Já na década de 1950, no Chile, foi desenvolvida a vacina contra a Raiva canina, utilizada por órgãos públicos brasileiros. “Trata-se da vacina modificada do tipo Fuenzalida & Palácios, aperfeiçoada nos anos seguintes e tornando-se mais segura e mais potente. A vacina é constituída de vírus rábico inativado, 2% de tecido nervoso e conservantes, apresentada na forma líquida. Nas clínicas veterinárias, estão disponíveis outros tipos de vacinas de vírus inativado, produzidas em cultivo celular, com ou sem adjuvantes, que podem ter esquemas de vacinação e administração semelhantes ao da vacina Fuenzalida & Palácios”, esclarece.

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Veterinário deve estar presente durante uma campanha
de vacinação pública ou privada (Foto: reprodução)

Nos dias atuais. Os registros de raiva em cães e gatos em todo o Brasil são, na maioria, causados por variantes de vírus rábico encontrados em morcegos, como discorre Ribeiro. “Essas variantes pertencem ao ciclo silvestre da doença e podem acometer, acidentalmente, a outras espécies de animais domésticos como os cães e gatos, no entanto, possuem menor potencial de transmissibilidade”, adiciona.

Os animais devem ser avaliados antes de imunizados, pois a vacina não deve ser aplicada em animais doentes, com sinais de verminose ou subnutridos. “Esses animais não terão condições de responder ao estimulo vacinal e, ainda, poderão estar mais propensos a efeitos colaterais. A idade mínima para vacinação é de três meses com reforços a cada 12 meses, conforme orientação do Ministério da Saúde do Brasil para as campanhas públicas e, no caso da Medicina Veterinária privada, conforme o calendário vacinal estipulado pelo médico-veterinário”, orienta.

O profissional ainda destaca que alguns cuidados devem ser tomados no momento da vacinação dos animais de companhia. “É desejável a presença de um veterinário durante uma campanha de vacinação pública ou privada. A Raiva é uma das doenças que mais mata cães em todo o planeta e a vacinação criteriosa é uma das mais importantes formas de detê-la”, finaliza.

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