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Ensaio preventivo ao câncer canino poderá mudar oncologia

Professor e doutorando analisa estudo em progresso nos Estados Unidos

Wellington Torres, da redação

Wellington@ciasullieditores.com.br

Comemorado mundialmente no dia 4 de fevereiro, o Dia Mundial de Combate ao Câncer visa aumentar a conscientização da patologia, que, infelizmente ainda, não possui cura, além de incentivar a prevenção. O cenário também é o mesmo para os animais de companhia.

No entanto, como anunciamos anteriormente aqui no portal Cães&Gatos Vet Food (leia mais), universidades americanas estão produzindo um ensaio científico, onde se é analisado uma vacina preventiva às células responsáveis pelos diferentes tipos de câncer canino. Com isso, o professor e doutorando em oncologia veterinária da FCAV/Unesp – Jabotical, Igor Luiz Salardini Senhorello, nos esclareceu a funcionalidade e efeitos a curto e longo prazo de um estudo como este, assim como contou um pouco mais sobre o cenário científico brasileiro do setor.

DOENTES
Os cânceres mais comuns em cães são os de pele, mama,
testítuculos, útero, ovários, fígado e pulmão
(Foto: reprodução)

Em funcionamento graças à união das universidades da Califórnia, Colorado e Wisconsin, o Estudo de Vacinação contra o Câncer Canino (ensaio VACCS) poderá abranger cerca de 30 proteínas anormais encontradas nas células cancerígenas, podendo combater o linfoma, osteossarcoma, hemangiossarcoma e mastocitomas. Com duração de cinco anos e com cerca de 800 cães participantes, os animais receberão várias vacinas ou placebos, já que o cerne do projeto é focado na prevenção (não tratamento) da doença.

Para Senhorello, que havia algum conhecimento sobre o desenvolvimento de estudos semelhantes ao americano, definiu a iniciativa é inovadora e extremamente importante para o setor oncológico da Medicina Veterinária. “Ao unir três grandes universidades, responsáveis por inúmeras pesquisas norteadoras, com professores referências na oncologia veterinária, acredito que tenham plena consciência de tudo que envolva este projeto, que, se concretizado, mudará o panorama da doença”, afirmou.

Acerca da periodicidade necessária para que o ensaio tenha respostas eficazes, ou não, o especialista brasileiro em oncologia, explica que “como é uma pesquisa que testa uma vacina, principalmente por ser direcionada ao câncer, ela vai demorar um longo período porque os animais precisarão ser vacinados e acompanhados”, enfatizou.

O processo, de acordo com Senhorello, é necessário, pois os pesquisadores precisarão analisar e comparar o grupo de animais vacinados com as proteínas e os que tomarão placebo, para, assim, checar se os cães expostos ao produto da iniciativa não desenvolveram algum tipo de câncer, perante os não vacinados.

Porém, o oncologista alerta que algumas questões poderão interferir no processo. “A iniciativa envolve muitas coisas, como agressão ambiental, já que os cães serão expostos a instalações diferentes, onde os ambientes não serão os mesmos, assim como os cuidados que cada tutor terá com o seu animal ao longo dos cinco anos de análise”, apontou.

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Vacina conterá substância que estimula respostas
imunológicas  (Foto: reprodução)

Ainda segundo ele, os pesquisadores terão que continuar testando a vacina após o prazo final de cinco anos para que ela realmente mostre resultado. “Eu não acredito que só nesses cinco anos consigamos ter uma resposta concreta em relação à efetividade da vacina por conta de vários vieses que podem surgir em relação ao aparecimento do câncer canino”, analisou, complementando que dentro da Medicina Veterinária, ainda não se sabem exatamente como alguns cânceres surgem.

Para ele, como o estudo ocorrerá em um considerável período e pela quantidade de animais, respostas serão dadas de uma forma ou de outra, mas de maneira que trará esperança aos profissionais que trabalham no tratamento do câncer canino.

“A longo prazo, essa pesquisa, se efetivada, ela dará um passo muito grande na oncologia, porque imagina que iremos trabalhar com prevenção e não com o tratamento. Uma vez que temos um medicamento que é capaz de prevenir, mesmo que não seja 100%, mas consiga prevenir 70% a ocorrência do câncer, poderemos dar um passo muito grande, até mesmo para melhorar a longevidade e sobrevida dos animais”, afirmou.

Igor também explicou que a ação poderá até mesmo influenciar na Medicina Humana, já que ambos os setores acabam por fazer o que chamam de oncologia comparada.

Um estudo como esse poderia ser feito no Brasil? Ao ser questionado se o País conta com estrutura para algo semelhante, o professor indaga que a longo prazo, ele até pode ser realizado, porém, para que consigamos isso, será necessário maior incentivo financeiro, seja de instituição pública, ou até mesmo de instituição privada.  Os custos de uma vacina, isolamento de proteína, produção e manutenção do estudo são muito altos.

“Quando colocamos um animal num estudo longo desses, de cinco anos, precisamos assegurar que aquele tutor, por exemplo, vai fazer o que a gente pede, que vai continuar com o cão ao longo do período. Então, é muito comum, nesses ensaios clínicos de longo prazo, ter bastante incentivo financeiro, até mesmo para o tutor”, relatou.

Segundo ele, os tutores acabam até recebendo um tipo de mesada para manter o animal no projeto. “Se não tivermos a colaboração do cuidador, nesse caso em específico, não conseguiremos dar continuidade ao trabalho”, explicou.

Panorama Estadual. Segundo o doutorando em Oncologia Veterinária, o tratamento do câncer canino no Brasil, de modo geral, está sendo bem desenvolvido. “Existem grandes centros de oncologia em São Paulo, em algumas universidades, inclusive aqui na Unesp de Jaboticabal, em que já são realizados vários recursos para o tratamento do câncer, como quimioterapia, radioterapia, eletroquimioterapia. O que possibilita realizar um bom tratamento de maneira geral”, explicou.

No entanto, o especialista relata o alto custo para efetuar os tratamentos, motivo que limita a procura dos tutores. “Nem todos os proprietários conseguem dar o melhor tratamento devido ao custo ainda ser bastante elevado, principalmente de algumas medicações um pouco mais específicas, o que atrapalha um maior controle”, afirmou.

Porém, Senhorello afirma que a oncologia veterinária brasileira vem se desenvolvendo muito e, mesmo com dificuldades, os proprietários estão cada vez mais cientes de que existe o especialista para tratar os pets.

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