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Entenda a participação de veterinários na preservação de silvestres

Profissionais também podem trabalhar com conservação e manejo das espécies

Wellington Torres, da redação

wellington@ciasullieditores.com.br 

Como sabemos, a Medicina Veterinária é uma área que possui uma ampla gama de possibilidades de atuação aos profissionais que por ela optam. E neste dia 14, que se é comemorado o Dia Nacional dos Animais, nós da equipe C&G VF buscamos entender melhor como médicos-veterinários se portam na tratativa aos animais silvestres, com foco nos projetos de preservação e reintrodução das espécies.

Para isso, a médica-veterinária, que atualmente trabalha no Instituto Pró-Carnívoros, no Programa para Conservação do Lobo-Guará, especificamente nos projetos Lobos do Pardo, Lobos da Canastra e Sou Amigo do Lobo, Flávia Fiori, nos contou como escolheu essa área de atuação e a sua importância para a preservação da fauna.

De acordo com ela, a escolha não foi difícil e já teria sido feita antes mesmo de ingressar no curso e que o aprofundamento em trabalhar com animais livres ocorreu durante o passar do tempo. “No decorrer da graduação, descobri que gostaria de trabalhar com animais de vida livre, assim como, trabalhar com a conservação in situ, como chamamos. Essa escolha foi por acreditar que dessa forma eu poderia contribuir realmente para mudar a situação da fauna brasileira que é tão impactada por ações humanas”, afirmou.

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O programa é parte de uma avaliação multidisciplinar e
de longo prazo realizada desde 2004 (Foto: reprodução)

Para Flávia, trabalhar nesta área é de extrema importância, tanto para animais quanto para os humanos. No entanto, ainda causa muita curiosidade em qual seria o papel desempenhado pelos veterinários. O que eles fazem?

Segundo ela, tudo vai depender do objetivo do projeto em que o profissional estará incluso, onde o mesmo, poderá ter uma função exclusiva de realizar, por exemplo, a contenção química do animal para fins de coleta de material biológico, o que futuramente será utilizado em pesquisa subsequentes, ou para que os biólogos possam promover a identificação, medições, marcações e avaliações daqueles animais.

Outra possibilidade, é trabalhar seguindo fundamentos da medicina da conservação, que tem como objetivo principal manter todo um ambiente saudável. “Trabalhamos para manter uma diversidade biológica e consequentemente a qualidade de vida das pessoas, das espécies domésticas e silvestres, interagindo em equilíbrio”, explicou.

A vertente possui como grande foco de atuação a questão epidemiológica dos animais silvestres, o assunto mais pesquisado pelos médicos-veterinários. “Existem diversos patógenos circulantes no meio que animais silvestres podem adquirir, tornando-os doentes. Entre eles alguns se tratam de zoonoses, que no geral, não são naturais, pois em um ambiente equilibrado elas não existiriam”, explicou, complementando que ao saber quais doenças circulam e impactam a saúde dos silvestres, os médicos-veterinários conseguem planejar o manejo e reduzir os impactos, desenvolvendo ações de conservação.

Com uma maior atuação no Projeto Lobos do Pardo, a médica-veterinária também explica uma relação importante: como médicos veterinárias e biólogos unem forças?

Para a veterinária que trabalha em uma equipe com mais três biólogos, a união das classes é o que rege a iniciativa e o que possibilita o cumprimento de um objetivo geral: avaliar as ameaças à sobrevivência do Lobo-guará (neste caso) para direcionar estratégias especificas para a conservação e manejo da espécie acompanhada.

“De forma resumida, os biólogos, trabalham com coleta e análise de dados ecológicos e populacionais da espécie, levantam informações sobre as interrelações da espécie com a população humana, os conflitos instalados, atuam também nos procedimentos de captura dos animais (realização de biometria, marcação e aparelhamento com coleira de monitoramento). Já o veterinário, em campo, responsabiliza-se pela contenção química, análises clínicas e coleta de materiais biológicos dos indivíduos capturados, e investiga toda e qualquer  questão acerca do estado de saúde dele. Além disso, o veterinário faz a interlocução com os laboratórios de análises das amostras biológicas e interpreta os resultados, cruzando as informações com os dados coletados em campo”, explicou.

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Junção direciona estratégias especificas para a conservação
e manejo da espécie acompanhada (Foto: reprodução)

De forma complementar, o projeto também recebe aporte de outros biólogos e veterinários com expertises diferentes, o que potencializa a atuação do projeto, como a colaboração de uma bióloga que trabalha identificando e minimizando o impacto das rodovias sob os lobos na região do projeto, e uma veterinária especialista em reprodução e avaliação hormonal, por exemplo.

De volta a natureza. O projeto que constitui o Programa para a Conservação do Lobo-Guará, dentro da estrutura do Centro Nacional de Pesquisa de Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP), é realizado no setor nordeste do estado de São Paulo.

Ao ser questionada perante o termo reintrodução, Flávia explica que o mesmo pode ser interpretado de duas maneiras diferentes. A primeira, acerca do sentido conceitual mais direto, refere-se a uma espécie que foi extinta ou erradicada localmente, fazendo com que a reintrodução trate de fazer com que a espécie volte a ocupar determinada região. Já a segunda, é voltada para relocações (ou translocações) e repovoamento de indivíduos, ambas são realizadas pelo projeto.

De acordo com a profissional, as relocações ocorrem quando se captura ou se apreende um animal adulto, lesionado (por um tiro, atropelamento, doente) ou são e promove-se a soltura dele em outro local, diretamente ou depois de passar um período em cativeiro ou centro de reabilitação.

“Essa ação é praticamente um manejo buscando não impactar a espécie com a retirada desse indivíduo da natureza. Já o repovoamento, é uma ação de conservação que busca aumentar uma população com o reforço de novos indivíduos. Essa ação pode envolver também animais resgatados ou envolver filhotes resgatados ou nascidos em cativeiro que deverão ser reabilitados e treinados a viver na natureza”, informou.

Ainda de acordo com ela, em qualquer uma das opções, cuidados devem ser tomados. “O principal é a manutenção dos animais no período de reclusão em cativeiro e a outra é o procedimento de soltura”, explicou, levantando que existem duas formas de soltura: a branda e a abrupta.

A soltura de maneira abrupta é realizada em um animal que é proveniente da natureza e que por algum motivo (estava em área urbana, foi atropelado, baleado, envenenado, estava enfraquecido por alguma doença ou problema qualquer) foi removido e destinado a cativeiro, até a recuperação. Diferente da Branda, voltada para casos em que um filhote ou um animal que é nascido em cativeiro necessitará passar por uma espécie de “treinamento em cativeiro”, até se mostrar apto a viver sozinho em seu habitat natural, sem ajuda humana.

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O tipo de soltura varia de acordo com a situação do animal
(Foto: reprodução)

“Eu pude participar dos procedimentos envolvendo lobos-guarás nos dois casos. Ambos relacionados a um processo de repovoamento e o ideal é que em todos os casos, o animal reintroduzido seja monitorado constantemente até se estabelecer em uma área e reproduzir”, afirmou.

Após a soltura, os animais seguem sendo monitorados por meio de armadilhamento fotográfico e pela coleira GPS com transmissão de dados via Satélite. Porém, Flávia explica que o maior desafio é tentar manter o acompanhamento dos animais a longo prazo. “Para isso é preciso de grande constância nas atividades, onde questão financeira é preponderante, já que hoje, investimentos na área da conservação da fauna são escassos”, informou.

Em apelo, a veterinária indaga que para que o projeto siga caminhando e levantando informações e, quando necessário, atuando nas causas que impactam negativamente as espécies (que degradam as populações e levam à extinção) é necessária uma busca constante por parceiros e investidores na causa, o que não é fácil de se concretizar.

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