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Falta de pesquisa atrapalha evolução do manejo da leishmaniose felina

A maioria dos métodos de prevenção e terapia é restritiva aos cães

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

com colaboração de Gabriela Salazar

Que a leishmaniose é considerada uma das doenças mais importantes do mundo não há dúvidas. São mais de 500 mil casos por ano e o Brasil é um País bastante presente nessa somatória, sendo que, por aqui, há, em média, 3.841 casos humanos distribuídos em todas as regiões e, cada vez mais, casos em animais de companhia vêm sendo registrados.

No entanto, o veterinário e um dos fundadores do Grupo Brasileish (Belo Horizonte/MG), Paulo Tabanez, faz um questionamento: “O número de profissionais que atenderam casos de leishmaniose felina é menor. Porque? Será que ela é rara ou desconhecida?”.

Segundo ele, o que se sabe é que a leishmaniose transmite-se por meio da picada de um mosquito, pertencente ao gênero Phlebotomus. Desta forma, o mosquito pica um animal doente e/ou portador e, uma vez que o protozoário amadurece no inseto, pica outro pet, transmitindo o agente patogênico. “As espécies diagnosticadas no cão e no gato são amazonenses, brasilienses, mexicana e venezuelenses. Há, ainda, dois tipos da doença: a leishmaniose visceral e a tegumentar. O gato tende a ter uma apresentação cutânea da leishmaniose visceral com muito mais frequência”, revela.

No Manual Brasileiro de Vigilância e Controle da zoonose, não há recomendação alguma de eutanásia de cães, ou mesmo em gatos, com leishmaniose, como comentado pelo veterinário. “Mais um detalhe a ser aprofundado para mostrarmos a importância do tema. Os teste laboratoriais não estão, nem de longe, conseguindo diferenciar o que é tegumentar do que é visceral aqui no Brasil e isso influencia na falta de informações de diagnóstico nos felinos. Nós ainda estamos tentando descobrir como faremos isso no cão, então, é um passo enorme e que, obviamente, temos que nos aprofundar na pesquisa”, avalia.

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Existem poucos os trabalhos científicos sobre
essa enfermidade em gatos (Foto: reprodução)

Outro fator importante mencionado pelo profissional é que o cão é um reservatório primário, isso significa que se tirar todas as espécies do planeta, ele sozinho consegue passar infecção para toda a população. “Já o reservatório acidental se infecta e ponto final, não passa para a frente. E o secundário consegue infectar outros indivíduos, mas ainda precisa do primário. Então, hoje falamos que o gato é um reservatório, ao menos secundário, pois não sabemos, ainda, qual o papel real dele. A tendência é que ele não seja um acidental, talvez até um primário”, opina. Sendo assim, ainda não há trabalhos científicos que afirmem, segundo Tabanez, que a infecção para o gato pode ser horizontal ou vertical, em contato sexual, de forma transplancentária e em transfusão de sangue. “Só consideramos a infecção pela picada do flebotomíneo", insere.

Carrapatos e pulgas infectam? Depende, porque eles se infectam pelo cão, mas isso não faz deles bons vetores. “Não podemos dizer que o carrapato e a pulga sejam vetores, porque não é comprovado. O primeiro trabalho que achou um carrapato se infectando em um gato é muito recente, de 2014. Isso, obviamente, não significa que o ectoparasita seja infectante, ele se infecta durante rebaixo sanguíneo, mas não funciona, de fato, como um vetor”, discorre.

O que, no entanto, pode-se dizer, na visão do veterinário, é que não tem como falar em leishmaniose felina sem comparar com a canina, ou da canina sem correlacionar com a humana, porque é de onde a humana vem migrando e, cada vez mais, vamos aprendendo. “A pergunta é: será que matar cães ou gatos implica na redução da doença na população humana”, indaga o profissional que afirma que 3.841 casos no Brasil não é muito, mas que 10% desse número podem morrer. “Então, a letalidade é alta. O diagnóstico retardado e a terapia inadequada impactam na letalidade, mas não na morbidade”, frisa. Levando esse fato em consideração, Tabanez afirma que matar cães e gatos não justifica a diminuição da doença na população humana e que isso deve ser discutido em todo o mundo.

Histórias e mitos felinos. A leishmaniose em gatos foi descrita pela primeira vez no mundo em 1912, na Argélia, e, depois, em vários outros lugares foi detectada a presença da doença, como narra o profissional. “Ainda assim, se você fizer um compilado sobre o tema, serão poucos os trabalhos sobre a enfermidade em gatos”, cita.

Mas, mais um item que é correto afirmar, segundo o veterinário, é que estar infectado não significa estar doente, ou seja, o animal pode, ainda assim, não ser infectante. “Tanto o cão, quanto o gato pode se infectar e não demonstrar a doença. 70% dos cães podem estar infectados, serem assintomáticos e ficarem assim por cerca de sete anos e, só futuramente, apresentar alterações clínicas. No gato isso ainda não é muito claro”, ressalta.

O que muito se fala por aí, mas Tabanez desvenda ser um mito é que é preciso estar com FIV ou FeLV para apresentar a leishmaniose em gato. “Isso é passado. Antigamente, se falava que a doença só se manifestava em animais que possuíam os vírus da Aids e da Leucemia felina e isso é errado. Qualquer gato pode ter”, atesta.

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O veterinário Paulo Tabanez é um dos fundadores
do Grupo Brasileish e dissemina, fortemente,
informações sobre a zoonose (Foto: C&G VF)

Ainda sobre o manual brasileiro sobre a zoonose, é defendido como diretriz que seres humanos devem ser tratados, vetores controlados e cães eutanasiados, como descreve o profissional. No entanto, o documento fala apenas sobre cães e não sobre gatos. “Matar pets por modelagem matemática não trata a evolução da doença na população, então a remoção canina não mostra impacto da doença nas pessoas, mas o uso de vacinas e inseticidas, pode auxiliar. Mas, outro problema para os felinos: as vacinas não podem ser aplicadas neles e, sobre os repelentes, só é possível utilizar um”.

Sintomas. O paciente com leishmaniose pode apresentar anemia e insuficiência renal, diagnosticadas em exames complementares. Ainda há os sinais sistêmicos como letargia, febre, secreção nasal, dermatose e, também, sinais oftalmológicos, como panoftalmites, uveítes e conjuntivite. “Gengivite e estomatite são extremamente comuns em leishmaniose felina”, completa.

Quando há um animal com esses sinais clínicos patológicos, o veterinário responsável deve tentar uma sorologia quantitativa e, sabendo da limitação deste teste, caso o título seja elevado, o diagnóstico deve ser fechado. “Mas, se esse título for baixo, que normalmente será, temos que partir para os testes parasitológicos, sempre sabendo que será possível encontrar ou não a leishmaniose. Se encontrar, eu fecho, senão, devo partir para os testes moleculares, que, na verdade, não deixam de ser uma aba dos testes parasitológicos”, explica. Caso esse teste sorológico apresente um reagente e o profissional suspeite da doença, deve manter a pesquisa ou reconsiderar o diagnóstico, como orienta Tabanez.

O tratamento para gatos é um pouco mais delicado ou, como ponderado pelo profissional, talvez seja um pouco mais fácil pela falta de opções. “A terapia a ser escolhida vai depender do estágio do paciente, uma vez que é necessário verificar a função renal, como está o hemograma, como estão as enzimas hepáticas e realizar todos os exames que temos para o cão, nos gatos, para tentar entender se, em algum momento, é possível estadiar a enfermidade”, explana e afirma ser válido lembrar que o objetivo da terapia, não é a cura parasitológica, mas, sim, reduzir a carga parasitária, restaurar a resposta imunitária, promover a cura clínica e prevenir recaídas.

Para prevenção, em gatos, como citado anteriormente, não há vacinas específicas e é proibida a utilização de repelentes a base de petróleo. “O único método que podemos utilizar, hoje, é o repelente a base de flumetrina”, finaliza.

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