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Funções do médico-veterinário estão além de cuidar de pets

Profissional faz parte do NASF, do Ministério da Saúde, por conta de suas competências em Saúde Pública

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Embora algumas pessoas não acreditem e, até mesmo, façam piada, o médico-veterinário é, sim, um profissional da saúde. Este profissional está inserido em diversas vertentes que impactam a vida – não somente dos animais – mas, também, dos humanos e do meio ambiente. Prova disso é a participação da profissão entre as escolhidas para compor o Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB), nosso foco neste Dia do Médico-Veterinário.

Conforme lembra a médica-veterinária, presidente da Comissão de Saúde Pública Veterinária, do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), Adriana Maria Lopes Vieira, o NASF foi criado pelo Ministério da Saúde em 2008 e tem como objetivo apoiar a consolidação da Atenção Básica no Brasil, ampliando as ofertas de saúde na rede de serviços, assim como a resolubilidade, a abrangência e o alvo das ações.

Atualmente regulamentados pela Portaria de Consolidação nº 2, os núcleos configuram-se como equipes multiprofissionais que atuam de forma integrada com as equipes de Saúde da Família (eSF), as equipes de Atenção Básica para populações específicas (consultórios na rua, equipes ribeirinhas e fluviais) e com o Programa Academia da Saúde.

Muitas pessoas não sabem que os veterinários
podem fazer parte do NASF. A desinformação
pode gerar piadas com a classe (Foto: reprodução)

“Segundo a Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária do CFMV são ações que podem ser desenvolvidas pelo médico-veterinário nos territórios atendidos pelo NASF: avaliação de fatores de risco à saúde, relativos à interação entre os humanos, animais e o meio ambiente; prevenção, controle e diagnóstico situacional de riscos de doenças transmissíveis; educação em saúde com foco na promoção da saúde e na prevenção e controle de doenças de caráter antropozoonótico e demais riscos ambientais; ações educativas e de mobilização contínua da comunidade, relativas ao controle das doenças/agravos na área de abrangência, no uso e manejo adequado do território com vistas à relação saúde/ambiente”, lista.

Os veterinários também realizam estudos e pesquisas em saúde pública que favoreçam a territorialidade e a qualificação da atenção; orientações quanto à qualificação no manejo de resíduos; prevenção e controle de doenças veiculadas por alimentos; orientação nas respostas às emergências de saúde pública e eventos de potencial risco sanitário nacional de forma articulada com os setores responsáveis; identificação e orientações quanto a riscos de contaminação por substâncias tóxicas. Além de ações conjuntas elaboradas e executadas de forma interdisciplinar do campo de atuação comum de todos os profissionais em apoio às equipes de saúde cobertas pelo NASF.

De acordo com Adriana, o médico-veterinário, levando em conta sua formação, possui conhecimento específico de saúde e bem-estar animal, assim como sobre os problemas e benefícios advindos da interação entre animais, seres humanos e ambiente. “Desta forma, pode contribuir de maneira muito significativa no desenvolvimento de ações para promoção e preservação da Saúde Única”, defende.

Adriana afirma que é possível citar, dentre muitas contribuições, a prevenção de violência doméstica, por exemplo. “Estudos apontam a existência de conexão entre crueldade com animais de companhia e violência contra seres humanos, conhecida como a “Teoria do Elo”, ou seja, maus-tratos aos animais podem ser um alerta para a prevenção de violência doméstica. O médico-veterinário, por ter acesso ao ambiente domiciliar, pode reconhecer esses agravos e avaliar, com os demais profissionais, se há riscos às pessoas mais vulneráveis na família em questão. Outra contribuição seria auxiliar os demais profissionais a reconhecerem pessoas em situação de acumulação, com base na relação dessas com seus animais de estimação”, revela.

Os médicos-veterinários também realizam estudos
e pesquisas em saúde pública (Foto: reprodução)

Equipe diversificada. Adriana defende que uma atuação integrada, como ocorre no NASF produz responsabilidade mútua pelo cuidado. “Ela deve ampliar o escopo de ações e contribuir para o aumento da resolubilidade da atenção básica (AB) e da capacidade de análise e de intervenção sobre problemas e necessidades de saúde, tanto em termos clínicos, sanitários e técnico-pedagógicos. O modo de organizar o processo de trabalho do NASF-AB é norteado, principalmente, pela lógica do apoio matricial, clínica ampliada, cogestão e por ferramentas que subsidiem o trabalho como, por exemplo, o Projeto de Saúde no Território e o Projeto Terapêutico Singular”, expõe.

Além do médico-veterinário, podem compor o NASF as seguintes profissões: médico acupunturista; assistente social; profissional/professor de educação física; farmacêutico; fisioterapeuta; fonoaudiólogo; médico ginecologista/obstetra; médico homeopata; nutricionista; médico pediatra; psicólogo; médico psiquiatra; terapeuta ocupacional; médico geriatra; médico internista (clínica médica), médico do trabalho, profissional com formação em arte e educação (arte educador) e profissional de saúde sanitarista, ou seja, profissional graduado na área de saúde com pós-graduação em saúde pública ou coletiva ou graduado diretamente em uma dessas áreas.

Para a médica-veterinária, principalmente neste atual cenário pandêmico, o papel dos profissionais que compõem os NASF torna-se ainda mais relevante. “Devem ser desenvolvidas ações para bloquear e reduzir o risco de expansão da epidemia, coordenando no território ações de prevenção da doença, educação em saúde, notificação e acompanhamento à distância dos casos em cuidado domiciliar, propor estratégias para suporte aos grupos de maior vulnerabilidade, dentre outras”, enumera.

Ela está lá! A médica-veterinária Eukira Enilde Monzani atua no NASF desde 2012 e, quando questionada o que a motivou a desempenhar esse trabalho, ela responde sem pestanejar: “A motivação vem todos os dias”. Como frisado pela profissional, trata-se de uma área nova na Medicina Veterinária com muitos desafios. “Mas, só de saber que posso colaborar com meu conhecimento para melhorar a qualidade de vida da população já é um avanço muito grande. E, trabalhando em equipe, conseguimos sempre progredir e crescer cada vez mais”, comemora.

Ela relata que chegou no NASF por meio de um processo seletivo realizado pela Associação de Médicos-Veterinários e Zootecnistas de Descalvado, onde foi selecionada. “No início, comecei a atuar da maneira que achava o correto, pois não encontrava informações em nenhum local. Ao decorrer do tempo, foram sendo ofertados cursos direcionados ao NASF em algumas universidades. Participei de três destes cursos, os quais puderam me auxiliar, além disso, o cotidiano foi me ensinando e ensinando em minha atuação”, compartilha.

Cada profissional que compõe o NASF tem sua
especificidade e seu ponto de vista em cada situação
(Foto: reprodução)

Sobre as várias formações em uma mesma equipe, Eukira declara que há momentos em que cada profissional tem funções relacionadas diretamente à sua profissão. “Então, há diferenças entre os trabalhos desempenhado: cada um com sua especificidade. Mas também há momentos em que a atuação é como um todo, em equipe, sempre prevalecendo o conhecimento de cada profissional”, informa.

Para a veterinária, a possibilidade de reunir tantos profissionais em prol de um único bem oferece à população uma visão mais ampliada das situações. “Além disso, a multidisciplinaridade traz melhoria do atendimento e da qualidade de vida. Cada profissional tem sua especificidade e seu ponto de vista em cada situação, enriquecendo o trabalho e proporcionando visão mais ampliada e qualificada, o que traz melhores resultados para cada caso”, pondera.

Com a pandemia do coronavírus, alguns itens foram inseridos no dia a dia de trabalho do NASF, como descrito pela profissional: “Ações como grupos, palestras e tudo que reúne um número maior de pessoas não pode ser realizado; as visitas são realizadas com menor frequência e maior necessidade; as atividades foram redirecionadas para melhoria no trabalho das equipes e para atender às demandas que aparecem neste momento. Acredito que, após esta pandemia, teremos uma visão diferente das situações. Será mais um momento vivido e que trouxe aprendizados para melhorar a qualidade dos atendimentos em geral”, avalia.

Em busca do reconhecimento. Eukira revela que quando conta a alguém que é médica-veterinária e trabalha no NASF, muitos dão risada e perguntam se tem fila de cachorro para atender. “Por outro lado, outras pessoas se assustam e perguntam o que um veterinário faz no NASF, querendo saber sobre meu trabalho. São reações de todos os tipos”, aponta.

Em sua visão, certas pessoas não sabem e não querem entender a importância do veterinário na Saúde Pública: “Já ouvi, quando comecei, ‘não sei o que um veterinário vai fazer aqui’ e ‘veterinário cuida de animal, não de gente’. Também já enfrentei o preconceito em reuniões por acharem que o veterinário não faz parte do NASF pelo fato de o Ministério da Saúde não colocar opções no sistema para digitar as ações realizadas”, lamenta. Para ela, é preciso avaliar inicialmente as doenças de notificação compulsória. “Assim, é possível observar que a maioria está relacionada a algum animal ou vetor. Sem contar a relação entre homem x animal x ambiente e a maior proximidade dos animais com os seres humanos que demonstram a importância do médico-veterinário”, argumenta.

Como dito pela veterinária Adriana, lamentavelmente, ainda há muito desconhecimento por parte da sociedade sobre as áreas de atuação do médico-veterinário. Desta forma, em sua visão, tem sido de fundamental importância o incessante trabalho desenvolvido pelo sistema CFMV/CRMVs no esclarecimento, tanto da população em geral, como dos gestores dos órgãos públicos, dentre outros. “No entanto, cabe, também, a todos os médicos-veterinários atuarem ativamente na difusão dessas informações e na orientação e esclarecimento das pessoas”, opina.

A pandemia trouxe aprendizados para melhorar a
qualidade dos atendimentos do NASF em geral
(Foto: reprodução)

A presidente da Comissão de Saúde Pública Veterinária reforça que o conceito de Saúde Única traduz a união indissociável entre a saúde animal, humana e ambiental e ela acredita que ser médico-veterinário é ter uma visão holística e ser agente indispensável tanto na Saúde Única como no bem-estar único. “O médico-veterinário é um profissional indispensável para assegurar a saúde pública. Por meio de ações de promoção e a preservação da saúde dos animais, esse profissional garante a redução de risco de transmissão de doenças de caráter zoonótico aos seres humanos, auxilia na prevenção de agravos causados pelos animais, assegura alimentos de melhor qualidade, dentre outras”, explana.

Eukira acredita que, para que a sociedade enxergue todas as possíveis funções do médico-veterinário, o início deve ser pela classe veterinária a fim de desmistificar isso de que veterinário é médico de animal. “Temos que divulgar e defender sobre nossas funções, que, aliás, é um leque enorme. Precisamos nos empoderar de todos os nossos conhecimentos e defender com garra e determinação tudo o que é designado à classe de médicos-veterinários”, aconselha.

Para ela, ser médica-veterinária é enxergar o mundo de um modo diferente: “Entendo as relações entre ambiente, animal e humano; as diversas situações que podem desencadear bem-estar, prevenção ou desastres. Além do mais, ser veterinária preocupada com a Saúde Pública é sempre pensar em coletivo, em melhorias para a população, pensar o que um desequilíbrio pode causar, o que ações pensadas no meio ambiente podem trazer de benefícios. É pensar na Saúde Única”, descreve.

A profissional ainda deixa registrada sua imensa gratidão à Associação de Médicos Veterinários e Zootecnistas de Descalvado e todos os seus membros, assim como a população de Descalvado, às equipes de Saúde e todos os setores que participam de seu cotidiano. “Eles me fazem crescer e aprender todos os dias com novas experiências e desafios. O primordial para que esse serviço dê certo é sempre trabalhar em equipe, porque, juntos, podemos ir mais longe e ter melhores resultados”, destaca.

Como uma profissional que faz parte de tudo isso, Eukira afirma que o NASF é um desafio diário: “Mas é gratificante ver que, com nosso conhecimento, podemos melhorar a vida de alguém, levar mais informações para a população, representar o município em diferentes esfera e mostrar que somos mais importantes do que imaginam, que não cuidamos apenas de animais, mas temos a oportunidade de cuidar da humanidade”, finaliza.

(Sugestão de pauta foi enviada pela nossa seguidora Amanda Medina. Se você tem um tema para sugerir pra gente, entre em contato por nossas redes sociais e ainda tenha a chance de ganhar uma assinatura impressa da C&G VF pela pauta acatada, assim como Amanda. Saiba mais)

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