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Homeopatia ainda é um dilema no âmbito de tratamento e ensino

Profissionais dividem opiniões quando o assunto é o tratamento terapêutico

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

A homeopatia é, legalmente, uma especialidade médica veterinária, reconhecida e devidamente regulada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV, Brasília/DF). Porém, a legitimidade conferida à especialidade é outra questão.

Uma pesquisa que visava descobrir qual o nível da presença da homeopatia nos cursos de graduação de faculdades e universidades brasileiras, comandada pela médica-veterinária Clarice Vaz, aponta que a fragilidade da institucionalização do tema, somada à resistência por parte da comunidade científica, cria um cenário pouco favorável para o desenvolvimento deste conhecimento. “Gostaria de salientar que, mesmo sendo considerada uma especialidade, a homeopatia é um sistema médico completamente distinto das medicinas humana e veterinária hegemônicas. Ainda que haja já, durante ou ao fim da graduação, uma orientação em relação ao assunto, a especialização ocorre posteriormente, tomando como base os conhecimentos construídos durante a graduação”, sinaliza.

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Profissional afirma que é possível sentir certa
omissão nos currículos de Medicina Veterinária em relação
à homeopatia (Foto: reprodução)

No caso da especialização em homeopatia, verifica-se um hiato, de acordo com a médica-veterinária, que afirma ser a grade curricular, constituída em função de outro modo de conhecimento, desajustada face à perspectiva de formação homeopática. “Isso cria um dilema para aqueles que, eventualmente, ponderem especializar-se em homeopatia: existe a disposição de estudar, novamente, todo um sistema médico, suas bases teóricas, concepções filosóficas e todas as suas particularidades? É a perspectiva de uma longa jornada antecedida de um caminho que se pensava estar mais perto do fim do que do início”, opina.

Clarice diz que aqueles que entram em contato com a homeopatia ou mesmo ingressam na área sentem a sua omissão nos currículos de Medicina Veterinária, sobretudo após se depararem com o percurso que têm pela frente. “Dentre aqueles que não defendem a inserção da especialidade no currículo acadêmico, diferentes justificativas são alegadas, sendo a mais comum associada àa não cientificidade da homeopatia”, expõe.

Para a profissional, tanto as barreiras burocráticas quanto a resistência por parte dos protagonistas do cenário acadêmico concorrem para a gradativa institucionalização da homeopatia. “Na realidade, ambas estão diretamente relacionadas e se retroalimentam. Enquanto a homeopatia – ou outra área de conhecimento não hegemônico – não se encontrar institucionalizada, não obterá aceitação condizente e vice-versa”, frisa.

Tratamento positivo. A discussão sobre a credibilidade ou legitimidade da homeopatia não é, de todo, nova. Clarice lembra que os pares envolvidos neste conflito parecem, no entanto, esquecer que a ciência não é neutra, nem imparcial e, muito menos, desinteressada. “Assim, e vendo a discussão de outro prisma, é possível delinear um novo roteiro para os personagens em causa”, considera.

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Especialistas defendem a presença da homeopatia na
graduação de Medicina Veterinária (Foto: divulgação)

A homeopatia, segundo a profissional, vem sendo percebida como um instrumento potencial no âmbito da produção animal ou da clínica médica. “Sobressai-se o seu efeito de aumentar a produtividade e, assim, o lucro da exploração. Já na clínica médica, devido aos seus efeitos terapêuticos e, também, às potencialidades na criação de mais um nicho de mercado. A meu ver, o trabalho do médico-veterinário deverá ser pautado não pela busca de soluções para o mercado, mas pela definição desse mesmo setor, questionando-se sobre a finalidade de seu trabalho e não se deixando afastar da sua função, primordial: a de cuidador”, posiciona.

Homeopatia enquanto disciplina. O envolvimento dos alunos em relação à especialidade é fantástica, de acordo com o Coordenador de curso de Medicina Veterinária, da Universidade de Marília (Unimar, Marília/SP), e Presidente da Comissão de Homeopatia, do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP, São Paulo/SP), Prof. Dr. Fábio Manhoso. “Temos aquele grupo que é curioso, que possui uma expectativa grande em relação ao assunto, e aqueles, como que na sociedade e até no mundo acadêmico e científico, olham de forma ‘o que será isso?’ ou, até mesmo, de forma preconceituosa. Mas nada que não faça da informação a quebra desse paradigma”, destaca.

O reconhecimento de médicos-veterinários pela homeopatia também é um fator levantado por Manhoso, que acredita ser de grande valia alopatas e homeopatas trabalharem em conjunto. “Assim como com colegas que trabalham com acupuntura ou outras formas alternativas como, por exemplo, florais de bach, aromaterapia, musicoterapia, são todas ferramentas de soma para um bom tratamento ao paciente”, compara.

O profissional acredita que os homeopatas conduzem um trânsito positivo com os alopatas. “Muitas vezes, somos procurados para resolver problemas que, por um período muito grande, eles não conseguem solucionar e aí nos procuram para somar. Associar o tratamento homeopático ao alopático vai da circunstância da patologia citada e da visão do veterinário. É possível sim, em alguns casos, associar as duas terapêuticas, em benefício do paciente”, defende.

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Beny Spira se declara contra à opção terapêutica e
seu ensinamento enquanto ciência (Foto: divulgação)

Tratamento incerto. O Professor Associado (Livre Docente), do Departamento de Microbiologia, do Instituto de Ciências Biomédicas, da Universidade de São Paulo (USP, São Paulo/SP), Beny Spira, menciona que “países que levam a ciência a sério”, como os EUA, Reino Unido, Suíça e Austrália tomaram medidas para banir ou minimizar o uso da homeopatia, que vinha se alastrando, pelo fato de ela ser considerada uma pseudociência. “A definição de uma pseudociência é um conjunto de ideias ou crenças que se apresentam como ciência, quando, na verdade, não são. Exemplos: astrologia, quiromancia, grafologia, percepção extrassensorial, parapsicologia, medicinas alternativas das mais diversas, homeopatia, quiropraxia, naturopatia e muitas outras”, enumera. Para ele, a homeopatia poderia ser estudada em aulas de história da Medicina Humana e Veterinária, mas não de forma confessional. “Universidades de respeito não ensinam pseudociências”, assinala.

Quando questionado sobre prejuízos que a homeopatia pode causar na saúde de humanos e animais de companhia, Spira afirma que, se a doença for grave, pode ser fatal tratar com homeopatia, como recentemente aconteceu com um garoto que morreu de encefalia na Itália. “Para o animal, a mesma lógica persiste, mas pode ser ainda pior, porque o pet não tem como comunicar efetivamente, por exemplo, que sente dor. Um analgésico poderia ajudá-lo, mas, se o tratador decidir em dar-lhe um remédio homeopático, estará causando um sofrimento desnecessário”, opina.

Leia a reportagem completa na edição de agosto da C&G VF.

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