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Insegurança não deve deixar recém-formados temerem o mercado

Escolhendo da maneira correta, egresso alcançará a felicidade na profissão

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Caminhos em direções opostas. Diversas opções para serem escolhidas e o peso da dúvida se essa é, realmente, a que deve ser selecionada. É assim a realidade do estudante de Medicina Veterinária recém-formado que, quando lançado ao mercado de trabalho, não sabe por onde começar e, ao menos, se está fazendo a coisa certa.

Essas incertezas e indecisões são tão comuns que o tema “Me formei e agora?” foi debatido, no último mês, em uma mesa redonda durante a Semana Acadêmica Veterinária (Sacavet), da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP, São Paulo/SP).

Os componentes da mesa foram os veterinários Ricardo Henrique Miziara, Felipe Borges Soares, Mariana Yukari Hayasaki Porsani e Daniel de Marchi Furuya, que contaram como está sendo a experiência desde que se formaram até agora. Furuya revelou que saiu do protocolo na época de graduação, não sendo um bom aluno, mas que notas ruins não prejudicaram sua busca por conhecimento e sua capacidade de se tornar um bom profissional. “Minha caminhada teve muito a ver com medo, desde que estava no curso e via que, talvez, não me encaixasse tanto em certas áreas e, além disso, tive insegurança depois de me formar. Se vocês esperam que, quando receberem o diploma, as coisas vão melhorar, estão errados. É nesse momento que você, realmente, acredita saber de tudo, porém, percebe que não sabe de nada”, satirizou.

Ele também destacou o fato de que os recém-formados não irão, diretamente, para uma clínica particular, com horário fixo. “Quando se forma, o profissional entra em plantões noturnos e feriados. No meu caso, fui me destacando, percebendo nossos pontos fortes e fracos e me tornei coordenador. Mas, eu percebi que não aguentaria fazer aquilo por muito tempo, porque gerir pessoas não é muito fácil. Agora, trabalho fixo em uma clínica há 5 anos, em um bairro de periferia, e realizo atendimentos e cirurgias de odontologia na clínica onde os clientes estiverem”, expôs.

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Segundo profissionais, a primeira coisa que o
recém-formado percebe é não vai lidar com animais,
mas, sim, com pessoas (Foto: C&G VF)

Mariana Porsari também narrou sua história. Ela se formou em faculdade particular e achava que tinha certa defasagem na parte teórica dos conteúdos e que isso iria a prejudicar na hora da residência. “Comecei a fazer uma pós-graduação, para pegar um pouco da teoria, e isso me ajudou bastante, bem como o estágio supervisionado. Achei incrível a rotina e decidi fazer a residência”, lembrou.

A profissional também teve vontade de seguir a área acadêmica, porque notava que alguns professores não sentiam prazer em dar aula: “E aí pensei: ao invés de ser a melhor clínica do mundo, seria mais viável ser uma boa professora e formar vários clínicos bons”, confessou e assim fez, mas frisou que adora clinicar. “Amo me deparar com as coisas básicas, desde uma parvovirose a uma cinomose, intoxicação, entre outras situações mais rotineiras. Não vou parar nunca de clinicar”, atestou e se posicionou em relação a especialidades: Antes de ser especialista, você tem que ser um generalista”.

Atualmente ocupando o posto de Primeiro Tenente do Quadro Complementar de Oficiais, dentro do setor de Medicina Veterinária do Exército Brasileiro, o médico-veterinário Felipe Borges Soares engloba outra preocupação dos recém-formados: a residência. “Da minha turma, cerca de 40 pessoas queriam fazer e não teria vaga para todo mundo. Uma professora, percebendo essa disputa, falou que deveríamos pensar em um plano B e foi nessa época que recebi um e-mail do grupo do centro acadêmico falando que tinha aberto concurso para entrar no Exército”, recordou.

O profissional conta que prestou a prova e passou na primeira fase, ainda faltavam exame médico, teste físico e algumas outras etapas. “Acabei fazendo a prova para residência e também passei. Isso me fez entrar em um conflito gigante: vou pro Exército ou faço residência?”, compartilhou o veterinário que optou pelo Exército. “Naquela época, conversei com o dermatologista Carlos Eduardo Larsson e ele me disse que seu medo era eu me acomodar, por ter emprego garantido, sem a necessidade de me aprimorar. Por isso, tenho isso em minha mente até hoje”, afirmou.

Ricardo Miziara, por sua vez, contou que desde que entrou para a graduação tinha vontade de trabalhar com pequenos animais, porém, iniciou o curso com a proposta de não se fechar para outras áreas. “Me envolvi em diversos segmentos, inclusive com animais de produção, fiz estágio em reprodução de cães, mas não era algo que me preenchia totalmente. O grande problema é que eu gostava de tudo, dermatologia, cardiologia, cirurgia e, acabando a graduação eu tinha que me decidir e aí tive a certeza de que queria fazer residência”, disse o profissional que está fora da universidade a apenas dois meses.

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Mais que currículo, a busca constante por aprimoramento
é essencial aos egressos (Foto: reprodução)

Mergulhando de cabeça. Sobre os principais desafios que o recém-formado encontra ao se inserir no mercado, Daniel Furuya revelou que a primeira coisa que o profissional irá perceber é não vai lidar com animais, mas, sim, com pessoas. “O principal desafio é falta de experiência, como qualquer recém-formado de qualquer profissão, mas o veterinário é inserido no ambiente mais estressante que existe: o plantão, socorrendo emergências, animais morrendo, problemas que já acontecem há muito tempo e os tutores decidem levar apenas naquele momento”, descreveu. Nesse cenário, segundo ele, é preciso e ter atitude: “Podemos estar desesperados, como o tutor, gritando por dentro, mas a postura tem que ser de quem tem o controle da situação”, aconselhou.

A grande missão pós formação, na visão de Ricardo Miziara, são as relações sociais, tanto com o proprietário do cão e do gato, quanto com outros veterinários. “O que estou sentindo bastante é a necessidade de alguns profissionais buscarem meios para se promover e aparecer. Eu, particularmente, estou em um momento de aprendizado. Para mim, o importante é ter humildade para aprender, porque, mesmo fazendo 15 anos de residência, estaremos inseguros”, declarou. Essa falta de segurança é, totalmente, desnecessária, segundo ele, já que cada lugar tem uma forma de conduzir a situação. “Sair na zona de conforto é dolorido, mas muito importante. Devemos enfrentar essa dor, porém, sempre lembrando até onde pode ir, já que trabalhamos com vidas animais e humanas”, orientou.

Ter empatia com os proprietários dos pets é algo importante, conforme discorreu Mariana, no entanto, não se aprende na graduação, o que se torna uma dificuldade, também. “É complicado ter segurança em uma coisa que você, muitas vezes, não sabe fazer. Mas culpo a falta de interesse em aprender a fazer as coisas. Nós erramos muito, é parte do ser humano, mas se não praticarmos, vamos errar cada vez mais”, destacou. Sobre aceitar qualquer emprego após se formar, a veterinária acha interessante, porém perigoso: “Isso pode gerar um trauma na sua vida. Quando eu me formei, fazia de tudo e, hoje, sou uma péssima cirurgiã por conta disso. Talvez se eu não tivesse cometido erros daquela forma e recém-formada, eu seria melhor hoje”, ponderou.

Para Mariana, é importante ganhar dinheiro, ter currículo e trabalho, mas o mais importante é estar bem com você mesmo. “Se você não tiver segurança, em nada que fizer na vida vai fazer direito. Dificuldade os médicos-veterinários terão com um ano de formado, 10 ou 20, por isso, é importante não ter medo, não fazer o que não sabe, mas, ao mesmo tempo, não se acomodar”, recomendou.

A busca constante por aprimoramento também foi enfatizada por Felipe Soares, que, ainda, tentou tranquilizar os estudantes presentes sobre falhas cometidas: “Se passarem a encarar o erro como uma oportunidade de aprendizado, terão uma visão mais construtiva desse deslize. Eles acontecem mais com os recém-formados, obviamente, porque é tudo muito novo, mas estar tranquilo, com a consciência limpa e saber que fez o melhor, mesmo em perdas de pacientes, é essencial”, acentuou.

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