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Leishmaniose pode ser considerada fator que atrapalha a Saúde Única

Profissional aponta as fontes de desequilíbrio relacionadas à doença

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

com colaboração de Gabriela Salazar

No dicionário, saúde significa o estado do indivíduo cujas funções orgânicas, físicas e mentais se encontram em situação normal. No entanto, a definição, na prática, vai além. Não significa apenas a ausência de enfermidades, pelo menos, não mais. Há muito tempo trata-se, também, do bem-estar integrado entre a saúde humana, animal e meio ambiente para prevenção e controle de doenças.

A leishmaniose é uma das enfermidades que refletem este cenário, na visão do membro argentino representante do Grupo Brasileish (Belo Horizonte/MG), Octávio Estevez. Para ele, é preciso analisar as particularidades da doença que acometem os animais mais ligados ao homem, que são os cães e os gatos. “Precisamos compreender a situação particular em cada cenário e analisar, definitivamente, quais são as possibilidades e as limitações em cada caso, em cada região, em cada contexto específico. Essa enfermidade precisa ser, de fato, reconhecida para encontrarmos soluções que superem e que sejam úteis para a Saúde Única”, declara.

Como comentado pelo profissional, quando se fala de leishmaniose visceral humana, novas e antigas questões, vinculadas a seus riscos e à resistência dos medicamentos, são levantadas. “Até agora, existe a consideração da utilização das drogas em diferentes espécies e uma questão muito discutida é que precisa constante análise sobre ter ou não que limitar a utilização de certos medicamentos a determinadas espécies ou se podem ser administrados universalmente e, ainda, se a resistência depende ou não de todos os fatores”, avalia.

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Sistema integrado de informação sanitária deve entrar
em funcionamento neste ano, facilitando o controle
da zoonose (Foto: reprodução)

Estevez acredita que, no decorrer dos anos, o mundos sofreu inúmeras mudanças e isso interfere, de alguma forma, na proliferação de algumas enfermidades como a LV. “Mudaram a situação de muitas sociedades, juntamente com a vulnerabilidade da população. Também passou a ser fato a possibilidade do homem ser um ‘reservatório’, houve mudança climática, de desenvolvimento social, fatores ambientais e sociais, entre outras coisas”, pondera.

Na mira. O profissional aborda estudos que mostram que prevalece na região da Cecília, na Itália, diferentes fatores de risco da população vinculada com distintas práticas de controle, sociais e culturais. “Nesse estudo, temos coisas lógicas, que saltam à vista facilmente, como quando é mais alta a sorologia da população exposta que tem cães e não faz controle de vetores que os que têm uma posse responsável. Porém, também existem outros fatores como maior incidência de leishmaniose na população que tem o hábito de fumar e isso necessita de uma análise mais profunda, já que pode ser uma questão biológica, pois o fumante tem uma produção diferente do nível de carbono na pele e, assim, o mosquito é atraído, justamente, pela emissão dos níveis de carbono ou porque os fumantes estão mais vulneráveis. Ou seja, temos uma variedade de contextos que precisam ser melhor observados”, atesta.

A constante mudança ambiental citada por Estevez faz com que possíveis reservatórios potenciais mereçam mais atenção. “Recentemente, em Toledo, temos uma discussão sobre todas as novas alternativas de potenciais reservatórios da doença, como as lebres e os morcegos, e, inclusive, a situação da fauna silvestre na Europa, que apesar de ser um continente completamente civilizado, conta com a grande ameaça de reservatórios no meio ambiente”, cita. Segundo Estevez, foi suposto a presença cada vez maior do gato como potencial reservatório, levando em conta as limitações e utilização de repelentes e pela expansão da população felina como um animal de companhia. “Esses casos precisam de uma consideração particular também”, defende.

Casuística. Para mensurar essas suspeitas e coletar dados, Estevez explica que pode ser por meio da mesoescala, que é quando há a necessidade de interpretar um espaço maior, as mudanças ambientais, por exemplo, em uma cidade com diferentes níveis de serviços reconhecidos, com diversos cursos de água nas cidades, problemas de infraestrutura, como esgotos, onde se podem estabelecer o mapa de presença referencial da população de insetos com distintos níveis de risco e necessidades de estratégias de manejo. Pode ser realizada, também, a macroescala, que permite implantar, nos mapas de risco, um critério de seleção de políticas específicas de determinadas regiões. “É necessário considerar diferenças de comportamento, situações epidemiológicas em distintas partes do mundo e esses são uns dos grandes problemas, pois, quando se fala de leishmaniose, quase 90 países estão envolvidos, mas a realidade é muito diferente: temos cinco ou seis países que possuem 90% dos casos de leishmaniose, por conta de divergências sociais, biológicas e de classes”, aponta profissional que revela o número de casos de leishmaniose humana por ano, na Índia: aproximadamente 450 mil. A realidade do Brasil, segundo ele, é de, aproximadamente, 3.500 casos por ano. “A região Mediterrânea tem uma estimativa de 800 mil casos por ano e, na Argentina, de 180 casos em dez anos”, compara.

Ele afirma que os dados sobre leishmaniose canina são difíceis de identificar, mas os levantamentos mais relevantes estimam que, no Sul da Europa, tem, aproximadamente, de 2,5 a 3 milhões de cães atingidos pela doença por ano e, possivelmente, isso dá, ainda, uma ideia da diferença da vulnerabilidade das diferentes espécies. O desenvolvimento de investigação genética para traçar semelhanças ou não em processos biológicos é apontado por Estevez como uma das estratégias que ajudariam a superar essas barreiras impostas pela disseminação de zoonoses. “Por exemplo, a análise de fibra genética evoluída de diferentes enfermidades que permite encontrar divergências que são respostas biológicas mais profundas das que inicialmente se pode ter”, discorre.

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Octávio Estevez falou sobre o tema no XVIII Simpósio Internacional de
Leishmaniose Visceral Canina, em novembro (Foto: C&G VF)

Outro item que apresenta boa perspectiva é a contribuição de soluções informáticas, ou seja, ferramentas para agilizar a comunicação. “Temos uma expectativa, na Argentina, que ainda neste ano, pode entrar em funcionamento um sistema integrado de informação sanitária que permite o acesso dos veterinários, dos médicos e toda a comunidade científica em tempo real. Isso seria de grande utilidade para muitos países”, opina o profissional que enxerga a transferência de conhecimento como um grande desafio para a implementação de políticas concretas e eficazes. “Quando temos toda a informação e a análise científica, a meta é que tudo influencie em políticas efetivas e que possam ser úteis para toda a população. Para encontrar esse caminho, o trabalho é multidisciplinar e forma uma integração nos fatores de decisão política, porque o não conhecimento deixa o conhecimento científico sem base crível para a sociedade”, interpreta.

Consciência. Na visão de Estevez, o número de animais de rua se multiplica por conta de ações dos próprios seres humanos, como o abandono, que ocasiona superpopulação de cães e gatos sem cuidados veterinários. Ele também lembra que a relação da Saúde Única com o veterinário de clínicas particulares está sendo discriminada por funcionários da saúde pública, como os de Centro de Zoonoses. “Nós, profissionais particulares, trabalhamos sobre indivíduos que não têm consciência social, que não têm um compromisso sobre a população. Por outro lado, também temos grande responsabilidade sobre uma comunidade, o que prova que não estamos realizando um trabalho simplesmente por um animal individualmente”, assegura.

Ele ainda declara que essa classe de veterinários privados trabalha sobre um sistema, uma família, um bairro, uma comunidade e o ambiente do atendimento é o local ideal para educar, transmitir informação e destacar a responsabilidade da sociedade como um todo. “Nós mesmos, enquanto veterinários, temos a obrigação de buscar essa mentalidade em nossa prática cotidiana para tomar consciência de nosso papel social”, frisa.

Escolha arcaica. Estevez menciona que, na tentativa de acabar com a problemática, ainda hoje, muitos profissionais optam pela eutanásia dos animais infectados. “No entanto, para outros em outras situações, essa possibilidade oferece sofrimento tanto para os veterinários como para os tutores. Um aspecto que também deve ser considerado é sobre os profissionais que cometem o ato todos os dias. Eles vão acumulando estresse físico e psicológico, já que possui o compromisso com os animais e, nesses casos, presenciar os animais sendo levados para este fim, escolhido pelos proprietários, pode ser um choque, a longo prazo”, avalia.

Assim, o tratamento da doença surge como uma alternativa, que, segundo Estevez, serve para pensar no direito dos humanos e dos animais de viver em um ambiente saudável, tornando não somente os pets como os responsáveis pelo contágio da zoonose.

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