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Medicamento que trata LVC completa um ano no mercado

Produto pode ser o pontapé para a regulamentação de outros fármacos

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Beirando o fim de 2017, muitos fazem uma retrospectiva do último ano a fim de resgatar os melhores acontecimentos. Dentro da Medicina Veterinária, estudos, pesquisas, novos produtos, entre outras coisas, foram apresentados ao mercado. Porém, algo que ganha destaque é o primeiro produto registrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF): o Milteforan, da Virbac (São Paulo/SP), para o tratamento de leishmaniose visceral canina (LVC).

O medicamento foi lançado em novembro de 2016, há exatamente um ano. Durante esse tempo, a empresa já pôde reunir informações e feedbacks do mercado, de veterinários e de tutores de animais de companhia. O médico-veterinário e coordenador Técnico da Virbac, Ricardo Rodrigues, conta que, após análises e pesquisas visando oferecer a solução, foi apresentado um estudo ao MAPA e, com base nisso, a empresa conseguiu a liberação.

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Profissional acredita que a doença ainda apresenta
muitos desafios para a classe veterinária e
para a população (Foto: C&G VF)

Uma das exigências do MAPA, segundo Rodrigues, foi a apresentação de alguma forma de monitorar os casos tratados, o que mostrou que a empresa teria um desafio logo nos primeiros passos em busca da aprovação. “A maneira que encontramos foi criando o aplicativo Virbac Club Pet, para Android e iOS, além da versão para desktop. O código que vem na caixa do Milteforan importado regularmente para o Brasil deve ser inserido no app junto com os dados do animal e do médico-veterinário que está realizando o tratamento. Esses dados ficam disponíveis em um relatório para nós e, com isso, conseguimos fazer o acompanhamento dos casos e informamos ao MAPA mensalmente”, expõe. Para o profissional, isso traz vantagens para todos os lados: “Para o Ministério por ter essa rastreabilidade, para a empresa por termos controle do produto e para o tutor, que é avisado por SMS ou e-mail a cada quatro meses, quando deve comparecer ao consultório para a reavaliação do animal”, adiciona.

Na visão de Rodrigues, a doença ainda apresenta muitos desafios para a classe veterinária e para a população. “A leishmaniose está se espalhando muito pelo País, surgindo em regiões onde, antes, não existia, principalmente na Região Sul do Brasil, além de estar migrando das áreas rurais para as áreas urbanas, nos levando a questionar se realmente as medidas empregadas até então, para controle e tratamento, estão 100% corretas”, avalia.

Os desafios, como enxerga o coordenador Técnico, estão para todos os lados: “Para os veterinários que ainda têm muita demanda por informação, aos tutores que também querem se informar e aos órgãos de fiscalização de todos os níveis, do MAPA aos municipais, como Secretarias de Vigilância Sanitária, Centros de Controle de Zoonoses (CCT’s), entre outros. É possível notar uma desuniformidade nas informações”, aponta.

Assistência. Neste um ano de disponibilidade do produto, Rodrigues conta que a Central de Atendimento à Saúde Animal (CASA), o SAC da Virbac, abriu uma linha exclusiva para o Milteforan. “Até outubro, tivemos 202 ocorrências relacionadas ao medicamento. Dessas, 53% eram de tutores para sanar dúvidas, 38% de veterinários, 5% de representantes e 3% outros (ONG’s, estudantes, etc) e 1% de lojistas”, revela.

milteforan
Medicamento se apresenta como uma
ferramenta importante para a diminuição da
transmissão da doença (Foto: divulgação)

As dúvidas mais frequentes dos veterinários, segundo ele, eram sobre informações gerais (20%), para esclarecer sobre casos que já estavam sendo tratados (13%), sobre cadastro no app (13%), saber onde adquirir o produto (8%), se informar sobre as reações adversas (7%), sobre diagnóstico (7%) e sobre a não eficácia (3%). “É importante destacar que todos os casos que apareceram de reações adversas ou eficácia foram investigados com muito critério por nossa equipe. Investigando todos os relatos, identificamos diagnósticos incorretos da doença. Muitas vezes, era porque o pet possuía uma doença autoimune e foi incorretamente diagnosticado como leishmaniose”, frisa. Já as informações solicitadas por tutores eram sobre onde comprar, se a venda é exclusiva do veterinário, como ocorre o tratamento e a monitoração, entre outras. “Tanto do profissional quanto para tutor, as ligações eram por falta de informação. Também apareceram reclamações sobre o preço do medicamento”, pontua.

Para diminuir essa desinformação, a Virbac firmou parcerias com ONG’s e realizou campanhas como “Existe vida após a leishmaniose” e “Não mate, trate”. “Junto aos veterinários, realizamos trabalho de educação continuada, entrevistas, vídeos e os encontros VirbacLeish, palestras ministradas pelas regiões endêmicas do Brasil. Já foram mais de sete edições, reunindo cerca de 200 profissionais em cada, para dois dias de imersão total sobre a doença com a nossa equipe”, narra.

Recomendações. Em setembro, a Miltefosina entrou para a lista de medicamentos controlados, por meio da Instrução Normativa (IN) 35. Ela mantém a necessidade do cadastro dos veterinários no programa Cipriagro para que possam prescrever o medicamento. Uma mudança, comparada à IN 25, é que, agora, os veterinários, até agosto de 2018, podem utilizar receituário normal em três vias e numerados para a prescrição, não havendo a necessidade do receituário impresso do Cipriagro. “A única exigência é que conste o número de cadastro do profissional no programa, a ordem da prescrição e os dois últimos dígitos do ano. Uma via fica com o profissional e as outras duas devem ser entregues ao tutor para que seja possível realizar a compra”, explica Rodrigues.

Rodrigues destaca a complexidade da doença e declara que ainda nota a resistência ao tratamento de muitos veterinários. “Isso pode resultar em casos como o que estou acompanhando: o veterinário de um CCT foi até um tutor que estava tratando o animal de maneira correta, de caso notificado, e exigiu que entregasse o animal ou assinasse um termo se responsabilizando por possíveis casos de leishmaniose que ocorresse em sua região. Por conta disso precisamos uniformizar as informações”, salienta.

O profissional também enfatiza que tratar ou não é uma decisão que cabe somente ao tutor e os veterinários apenas oferecem as opções. “Nosso papel é mostrar que existem dois caminhos, que a eutanásia não é o único. Também devemos informar sobre o compromisso que é tratar dessa doença, pois demanda muita atenção e tempo do tutor”, orienta.

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Fiscal Federal Agropecuário no MAPA
conta que, após análises, produto se
mostrou eficaz (Foto: C&G VF)

Do lado de lá. O fiscal Federal Agropecuário no MAPA, Égon da Silva, declara que todos os produtos registrados pelo Ministério têm critérios e normas estabelecidas. No caso de produtos para o tratamento de leishmaniose ainda há uma instrução normativa conjunta com o Ministério da Saúde (Brasília/DF), que define alguns itens, principalmente, sobre a eficácia do produto.

Silva menciona que o tratamento da leishmania no Brasil nunca foi proibido. “O problema que sempre tivemos era a falta de produtos registrados com essa indicação, porque não existia interesse das empresas, a não ser a vacina de prevenção. Assim, sempre foi permitido o tratamento, desde que tivesse a utilização de um medicamento registrado no MAPA”, desvenda. Empresas interessadas em desenvolver um produto contra a doença, conforme explica Silva, devem apresentar um protocolo ao MAPA que, junto com o Ministério da Saúde, faz os ajustes necessários e devolve para que a companhia dê andamento na produção ou importação. “O registro do produto é dado mediante a uma nota técnica assinado pelo MAPA e pelo Ministério. É realizado um trabalho conjunto para que, na hora da aprovação do produto, não nos deparemos com nenhum problema”, diz.

Após análise do estudo do Milteforan, Silva lembra que ele se mostrou eficaz. “É um leishmanicida, no entanto, não elimina 100%. Por isso, a bula possui várias regras a serem seguidas, entre elas, o animal deve ser acompanhado a cada quatro meses para avaliação de seu estado e possível definição de uma nova etapa de tratamento”, esclarece e, ainda completa: "O registro de produto para esse tipo de tratamento foi um marco importante para nós, porque, a partir do Milteforan, temos a oportunidade de registrar outros medicamentos a serem comercializados”, comemora. 

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