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A vez dela: maconha medicinal é terapia promissora para pets

Grupo de veterinários busca a regulamentação do uso da Cannabis para animais

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

No fim de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) divulgou uma informação que dividiu opiniões dentro da Medicina Humana: está consolidada a regulamentação do uso de produtos à base de Cannabis para tratamentos de saúde. Em meio aos pontos de vista de médicos e pacientes humanos, estão os médicos-veterinários em uma nova luta: regulamentar, também, substâncias da planta para a Medicina Veterinária.

Para o médico-veterinário, clínico endocanabinóide e diretor da Câmara Científica da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis (SBEC), Fábio Mercante de San Juan, a importância do acesso ao tratamento com a Cannabis medicinal passa pelo viés da qualidade de vida e direito à saúde dos pacientes, pois, em muitas patologias, as medicações convencionais não fazem efeito ou até pioram o quadro. “Sem mais opções, os pacientes e a família, já sem esperanças, recorrem à Cannabis, encontrando, nela, um alívio para diversos sintomas e doenças debilitantes e, muitas vezes, incuráveis”, evidencia.

Ele aponta que, assim como os humanos, os animais também se beneficiam em diversas patologias com o uso da Cannabis medicinal. “Até os invertebrados possuem sistema endocanabinóide. Mas não é a Anvisa que define sobre o uso de substâncias na Veterinária, mas, sim, o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA)”, indica o profissional que acredita que, para uma regulamentação coerente e plena, sejam necessários estudos clínicos em mais espécies. “Isso porque o uso é diferente em cada espécie. Sua utilização é mais conhecida em cães, gatos, equinos e bovinos. Mas já existem relatos em aves, incluindo no Brasil”, insere.

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Veterinários devem se capacitar para utilizar e prescrever
a Cannabis da forma correta a seus pacientes
(Foto: reprodução)

O médico-veterinário, ativista, pesquisador e instrutor membro da Equipe Dr. PetCannabis (SP), Pedro da Silva, cita que, internacionalmente, há quase uma década, tutores de pets começaram a se informar e buscar, por conta própria, a utilização medicinal de extrações canábicas para condições geriátricas e neoplásicas, em alguns países onde a regulamentação tornou-se mais flexível, sobretudo nos estados americanos pioneiros, como a Califórnia e o Colorado.

“Esse fenômeno pegou – e continua pegando – de surpresa muitos veterinários desprevenidos, que não têm interesse no assunto ou apenas conhecem sobre o potencial de intoxicação da planta e como tratá-la. Ou, ainda, simplesmente permanecem desinformados por não terem, em momento algum, ouvido falar de terapia com canabinoides e sobre a suma importância fisiológica do Sistema Endocanabinóide (SEC), seja durante a graduação ou em eventos profissionais”, considera.

O veterinário, pesquisador e professor de Endocanabinologia, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), membro da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama me) da SBEC, Erik Amazonas, considera estender o uso de canabinoides para a Medicina Veterinária tão imprescindível, que propôs uma ideia legislava na Câmara dos Deputados para a regulamentação do uso de canabinoides no setor.

Segundo ele, há benefícios nas mais diversas enfermidades e os tratamentos à base de Cannabis têm trazido qualidade de vida aos animais. “Geralmente, a primeira e mais imediata resposta que tenho recebido dos tutores é a de que o animal voltou a demonstrar os comportamentos que tinha antes do acometimento. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com o conceito de bem-estar compreende a importância da expressão natural do comportamento”, expõe.

San Juan explica que cada pet é tratado de uma maneira e as medicações são preparadas de acordo com a patologia que o paciente apresenta. “Existem enfermidades que necessitam de maior nível de CBD ou maior nível de THC. Vamos manipulando de acordo com a necessidade do animal. Então, há restrições para algumas doenças, entre usar uma concentração ou outra, diluição, dosagem, tipos de extração, etc.”, discorre.

Para ele, a restrição mais complicada é quando o paciente possui hipersensibilidade a canabinoides, necessitando cessar o tratamento ou entrar com micro doses, o que aumenta muito o tempo de resposta do organismo. “Assim, é preciso ter conhecimento de cada uma das substâncias para um resultado terapêutico satisfatório. Quando se fala de Cannabis medicinal, não se generaliza um tipo de medicação apenas. Existe uma gama de variedades de genéticas, concentrações e porcentagens de canabinoides, terpenos e flavonoides, pois não só os canabinoides possuem efeito terapêutico, como, também, as demais substâncias presentes na Cannabis”, explana.

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Profissional acredita que, para uma regulamentação
coerente e plena, sejam necessários estudos clínicos
em mais espécies (Foto: reprodução)

Como ela age e como as pessoas reagem? Quanto às opções terapêuticas, Amazonas costuma apresentar uma resposta rápida e direta aos colegas veterinários, estudantes e outros profissionais da área da saúde: “Se na sua receita médica houver a prescrição de qualquer neuroléptico, algum anti-inflamatório de qualquer natureza, um medicamento contra dor (como opioides) ou um quimioterápico, a enfermidade em questão é ‘canabinável’ (passível de tratamento canabinoide). A eficácia, a segurança e a amplitude de indicações são os principais benefícios, a meu ver. Eu, particularmente, sempre opto pela Cannabis antes de quaisquer outros desses medicamentos”, revela.

San Juan acredita que ainda há certa persistência negativa sobre o tema por conta da carência de estudos brasileiros comprovando seus benefícios. “Hoje, temos vários relatos de casos de veterinários e tutores. Existem alguns estudos, mas não em todas as espécies e, por isso, a falta de crença e de interesse dos veterinários brasileiros no estudo do sistema endocanabinóide e suas funções, assim como em desvendar o papel dos fitoterápicos no organismo desses animais. Essa é a grande falha na Medicina Veterinária brasileira, a meu ver. Frisando que os membros dos nossos Conselhos de Veterinária, atualmente, costumam ter pouco conhecimento sobre o tema”, indica.

Já Silva crê que certa resistência sobre o tema persiste porque a maior parte das pessoas, sobretudo os governantes, ainda conserva e, por vezes, propaga visões deturpadas, temerosas e anticientíficas sobre o que realmente é a Cannabis, quais seus verdadeiros riscos e potenciais e qual seu papel histórico/medicinal. “Ademais, tanto o sistema, como a indústria farmacêutica parecem conspirar para que as possibilidades benéficas da maconha não renasçam plenamente na sociedade contemporânea, visto que estão em jogo muitos interesses culturais, políticos e econômicos, que, certamente, seriam afetados caso a planta voltasse a ser explorada como antigamente”, observa.

Em sua visão, é preciso que Medicina Veterinária Canabinoide possa avançar academica e clinicamente para que se consolide como especialidade, que tenha seu papel reconhecido e que as pesquisas clínicas possuam subsídios e respaldo legal para prosseguirem investigando os efeitos de curto e longo prazo da Cannabis nos diferentes contextos da profissão.

Para Amazonas, é difícil tirar décadas de propaganda negativa da cabeça das pessoas. “Tanto é, que eu mesmo não citei o termo ‘maconha’ até o momento. O uso medicinal da maconha tem sido tratado quase que exclusivamente como “Cannabis medicinal”, justamente pelo preconceito que a palavra tem na consciência popular. Poucos são os casos em que utilizamos os nomes científicos das plantas fora do meio acadêmico-científico, mas no caso da maconha, essa tem sido, praticamente, a única forma. Dentro do meu próprio departamento na Universidade, quando ocorreu a aprovação do projeto de pesquisa em endocanabinologia e uso medicinal da Cannabis, houve anedoticamente um comentário de que ‘o professor Erik quer deixar os animais doidões’. Isso foi dito por um colega esclarecido, que sabe não ser verdade o que disse, mas que traduz a percepção geral da maconha perante a sociedade”, expressa.

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Para Erik Amazonas, o profissional que desconhecer o SEC
e suas possibilidades de modulação estará fora do
mercado em 20 anos (Foto: reprodução)

Mudanças são sempre bem-vindas. Se houver a regulamentação para o uso em animais, todos os entrevistados resumem o feito em uma palavra: revolução. San Juan só espera que os profissionais que farão uso da medicação tenham um profundo conhecimento sobre a nova terapia e sobre o sistema que ela afeta como um todo. “Os veterinários terão que estudar bastante. Ninguém sai da faculdade sabendo o que é ou, até mesmo, se existe sistema endocanabinóide, funções, interações medicamentosas e efeitos indesejados que podem surgir no decorrer do tratamento. O meio acadêmico ainda fala da Cannabis como droga ilegal, que causa intoxicação e morte em pets, e nada é falado sobre a parte terapêutica. Cabe, também, aos estudantes o papel de buscar conhecimento. Os profissionais devem se capacitar para utilizar e prescrever a Cannabis de forma correta”, opina.

Silva também menciona que, além de um mercado promissor, com geração de empregos, parcerias e arrecadação de impostos, a regulamentação apropriada da Cannabis sativa L. trará, sobretudo, alternativas terapêuticas e anestésicas. “A Cannabis deve voltar a ter seus potenciais explorados, como no passado, ainda mais em se tratando dos problemas de saúde humana e animal que ela poderá auxiliar a tratar, das despesas médicas que deve ajudar a diminuir e da qualidade de vida que poderá proporcionar a milhares de indivíduos enfermos. É preciso que os vieses históricos sejam desconstruídos com base no que as ciências vêm descobrindo sobre a planta e não por meio de um senso comum preconceituoso, dissimulado e estigmatizante”, compartilha.

Mas, para o uso ser aprovado em animais, na visão de Amazonas, primeiramente, é preciso falar sobre o tema. “Por isso, esse espaço é muito importante. Essa não é uma terapêutica com uma substância completamente desconhecida da população, como é no caso da maioria dos fármacos. A maconha é uma planta de uso amplo na nossa sociedade e com um preconceito imenso”, avalia.

Assim, de acordo com ele, o que falta é levar essa discussão para dentro das instâncias competentes, como o MAPA e os Conselhos Federal e Regional de Medicina Veterinária (CFMV/CRMVs). “Levar informação aos canais de comunicação da ciência médica veterinária, como a Revista Cães&Gatos VET FOOD, pesquisarmos e publicarmos os resultados positivos e negativos que encontrarmos pelo caminho. O difícil está sendo, justamente, termos a liberdade para a pesquisa, já que a ANVISA negou nosso pedido, mas estamos recorrendo”, reitera.

Legalize já! Como lembrado por San Juan, assim como os humanos, animais também possuem um sistema que regula e protege todo o organismo (o sistema endocanabinóide) e, em seu ponto de vista, não se pode mais ignorar os benefícios indiscutíveis que são alcançados com os pacientes que recebem a terapia canábica. “Precisamos ter o direito à pesquisa e acesso à medicação, como, também, acesso a conhecimento para que os veterinários saibam utilizar”, frisa.

O profissional também enfatiza que a utilização da cannabis isolada seria um enorme erro: “O uso do full spectrum (extrato completo da planta) possui benefícios terapêuticos mais assertivos, controlados e duradouros que apenas um canabinoide isolado (CBD, por exemplo). Todos os canabinoides juntos funcionam como uma orquestra regida por um maestro (efeito comitiva; Entourage Effect), provendo homeostase e harmonia ao organismo. Hoje, possuímos mais de 2500 genéticas de Cannabis e cada uma delas possui determinado potencial em patologias específicas. Cabe aos veterinários saberem como funciona o SEC, as funções deste sistema, escolher a genética para cada patologia e a dosagem mais correta. Essa é a diferença entre o sucesso e o fracasso na terapia canábica”, garante.

Outro ponto positivo da Medicina Veterinária Canabinoide levantado por Amazonas é a devolução do controle da saúde do animal ao tutor. “Ao contrário do status recorrente em que o clínico é o único responsável pela saúde do pet (medicalização da saúde), a terapêutica canabinoide leva, invariavelmente, o controle da situação para as mãos do tutor. Em pouco tempo, o proprietário se adapta às reações dos seus pets e conseguem, inclusive, fazer ajustes de dose por conta própria, apenas observando o animal. O contato e a intimidade da relação tutor-pet também são, costumeiramente, beneficiados e amplificados”, evidencia.

Para ele, a Medicina Veterinária Canabinoide já é realidade mundial e, então, só resta uma saída aos veterinários brasileiros: estudar. “Dentro dos próximos 20 anos (sendo muito conservador), o profissional que desconhecer o sistema endocanabinóide e suas possibilidades de modulação, estará, certamente, fora do mercado. As universidades precisam adequar seus currículos de fisiologia ou dedicar uma disciplina específica para isso, urgentemente. Estudemos o SEC para sermos veterinários de espectro completo”, finaliza.

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