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Adotar um animal deficiente é um ato de coragem e boa vontade

Todo empenho dedicado ao pet especial é retribuído com carinho e companheirismo

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

A qualidade de vida e os direitos dos deficientes físicos – sejam eles humanos e animais – devem ser preservados. Hoje, no Dia do Deficiente Físico, data que induz a conscientização sobre a inclusão de indivíduos com deficiência, conversamos com Simone Gatto, ativista que, por sua experiência com animais tetraplégicos, aprendeu a cuidar de pets especiais e repassa esse conhecimento a tutores que adotam cães e gatos em situações parecidas. Independentemente da deficiência de cada um, uma coisa é regra e gigante: a gratidão que eles demonstram por receber tantos cuidados.

Simone conta que, quando criou o grupo de auxílio a tutores, se baseou em sua própria história. “Quando adotei meu primeiro paraplégico, o Paçoca, descobri que esses cuidados não se encontravam em livros e este é um dos motivos que causam eutanásias e abandonos. Sabemos bem que a maldade impera em um ato desses, porém, durante minha trajetória, conheci muitas pessoas que quase perderam seus animais por puro desconhecimento de causa”, narra.

Segundo ela, no começo dos cuidados com seu pet especial, não teve orientação sobre o manejo adequado dentro de casa. “Perdi um tempo precioso por essa falta de informação, até encontrar uma veterinária fisioterapeuta, Dra. Larissa Toyofuku, que me ensinou tudo que sei hoje. A partir daí, foi ‘um pulo’ para perceber que poderia fazer diferença entre a vida ou a morte desses animais que atendo”, compartilha.

Apesar de ajuda, como a oferecida por Simone, o veterinário
é o único que pode receitar os medicamentos e acompanhar a
evolução do paciente (Foto: reprodução)

Simone já auxiliou centenas de animais, cujos tutores a contataram pelas redes sociais. Ela realiza atendimentos presencias ou a distância, até mesmo para pessoas de outros Estados. “Quando sou contatada, em geral, os animais estão muito doentes, alguns com infecção urinária, obstrução intestinal, feridas abertas nas patas, entre outros problemas. O cuidado com os tutores também é essencial, pois eles se sentem incapazes de cuidar de seus pets”, aponta.

Mas, com todo o auxílio prestado pela ativista, ela sabe quando o tutor já aprendeu tudo o que importa para cuidar bem de seus animais sozinho. “Quando alguém me manda um vídeo, mostrando que conseguiu tirar a urina e as fezes do pet sozinho, sei que meu trabalho foi feito”, comemora.

Apesar de prestar todo esse atendimento com base em suas experiências, Simone destaca que é essencial um acompanhamento do animal com um veterinário. “Esse profissional é o único que pode receitar os medicamentos e acompanhar a evolução do paciente. Ele estudou anos e, assim mesmo, precisa de exames para detectar as patologias. Meu trabalho é apenas ensinar os tutores os tratamentos caseiros que complementem os veterinários”, declara.

A ativista acredita que este universo de animais deficientes é pouco divulgado, mesmo com o fato de contarmos, hoje, com vários tratamentos disponíveis, tais como fisioterapia, microfisioterapia, acupuntura, quiropraxia, ozonioterapia, além dos tratamentos alopatas, também os homeopatas, entre outros itens, como equipamentos modernos. “No entanto, sabemos bem que muito disso foge do orçamento da maioria das pessoas, por isso, resolvi mostrar que podemos fazer a diferença nas vidas desses seres. Minha meta é conseguir chegar nessas pessoas e mostrar que existe um meio de fazer isso sem custo. Atualmente, tenho várias campanhas em prol de animais que podem ser vistas nas redes sociais. Uma delas é a ‘Diga não ao abandono de animais deficientes’, apoiada por centenas de artistas”, expõe.

Adoção especial. A pedagoga Alessandra Galeano é tutora do Xuxu Romeu, um gato SRD, de dois anos de idade. Ela relata à C&G VF que o animal chegou em sua casa com quase quatro meses, depois de, com apenas dois meses, cair do telhado, lesionando a coluna. “A pessoa que o encontrou cuidou muito bem dele, levando-o para fisioterapia e acupuntura. Mas não podia mais ficar com o ele e divulgou a adoção no Facebook. Foi paixão à primeira vista. Não apareceu ninguém e o adotei”, recorda.

Muitos animais morrem em abrigos por terem algum
tipo de deficiência física e, por isso, nunca serem adotados
(Foto: reprodução)

Ela afirma que ficou nervosa, no início, pois não sabia como cuidar de pets deficientes, já que eles requerem cuidados redobrados. “Foi aí que uma amiga me indicou a página do Paçoca Gatto e, de imediato, a Simone me atendeu e levei o Xuxu para que ela me ensinasse a tirar urina e fezes do meu bebê. Não foi uma tarefa fácil”, revela, mas garante que, agora, ele recebe – dela e com uma ajudinha de Simone – os melhores cuidados possíveis, estando sempre seco, sem infecções e cheiroso. “Xuxu é minha paixão”, adiciona.

Para Alessandra, adotar um animal deficiente, requer tempo, cuidado e muito amor. “Para aqueles que desejam adotar um animal, recomendo, sim, adotar um deficiente. Mas a pessoa tem que ter a certeza disso, já que ele requer toda atenção e cuidado diariamente e, assim como todos os animais, não é descartável”, salienta a pedagoga que ainda insere: “O Xuxu é imensamente grato, carinhoso e companheiro. Ele faz tudo que um gato ‘normal’ faz e ainda desenvolveu muita força nas patas dianteiras. Só não sobe em muro”, brinca.

Outra história de amor. Também conversamos com a proprietária de um pet shop, Iris Martins, que tem um cão da raça daschund, uma fêmea de 10 anos de idade, a Sofia. “Ela era da minha irmã, que cuidou dela por três anos. Um dia, o animal parou de andar de repente. Não se sabe se caiu do sofá ou da cama ou se foi alguma doença. Acabei adotando, porque minha irmã disse, na época, que não saberia cuidar bem de um pet assim”, declara.

Por sua vez, Iris conta que não enfrentou muitas dificuldades e aprendeu rapidamente a esvaziar a bexiga e o intestino de Sofia. “Hoje, faço isso três vezes por dia. Tive que pegar logo essa prática porque a Sofia sempre foi uma cachorra 24 horas dependente de mim: por ser gordinha e ter patas curtas, nem se arrastar conseguia”, lembra.

Para ela, a Sofia é tudo e garante que o animal sabe que depende dela, sendo muito grato. “Não existe diferença, para mim, em cuidar dela e dos meus outros 13 que correm e andam. Eles são todos iguais”, assegura. E para quem deseja ter esse mesmo sentimento e responsabilidades, Iris indica a adoção de um pet deficiente: “Cada animal especial precisa de um humano. Infelizmente, muitos morrem em abrigos por serem assim. Se uma pessoa cuidasse, apenas um dia, de um animal para ou tetraplégico saberia o quanto é importante para eles a nossa existência e assistência”, pondera.

Assim, ela espera que as pessoas abram o coração para adotar um animal deficiente. “Não é nada do outro mundo e pode ser muito mais simples do que cuidar de um que possui todos os movimentos, às vezes. Para adotar, basta ter coragem e boa vontade”, encerra.

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