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Cães diabéticos necessitam de acompanhamento constante

Ação insulínica pode ser bloqueada por outro problema apresentado pelo pet

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Entre tantas doenças persistentes na Medicina Veterinária, o Diabetes Mellitus (DM) canino se destaca como uma doença cada vez mais frequente nas rotinas de clínicas e hospitais. Em um trabalho de 2016, realizado na região sul do Brasil, foi demonstrado que a patologia ficou em segundo lugar como uma das endocrinopatias mais frequentes, perdendo somente para a Síndrome de Cushing.

No Dia Mundial da Diabetes, a médica-veterinária endocrinologista, Tatiane Schirmer Linden lembra que, em cães, pode-se classificar o diabetes em tipo I autoimune, onde ocorre exaustão das células beta pancreáticas que secretam insulina e é irreversível. “Esta necessita de terapia insulínica para o resto da vida, na maioria dos casos. Outro tipo pode ser classificado como diabetes transitória. As fêmeas não castradas estão mais predispostas a esse tipo de DM no diestro devido à maior exposição à progesterona ou progestágenos sintéticos, induzindo a uma maior resistência à ação da insulina”, explica. Além disso, o DM secundário à pancreatite e a outras doenças endócrinas, como o hiperadrenocorticismo, também podem ocorrer, segundo a profissional. “O DM juvenil é bastante incomum e pode ocorrer em pacientes com menos de um ano de idade”, insere.

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Proprietário deve estar atento aos horários de
alimentação e aplicação de insulina diariamente
(Foto: reprodução)

Para conseguir tratá-la da melhor maneira, sem se esquecer de outros pontos importantes, a veterinária endocrinologista Alessandra Vargas frisa que é preciso entender qual a origem da doença. “Em cães, há um grande debate em relação à etiologia do Diabetes, assunto abordado em estudos multicêntricos em todo o mundo. Mas, por hora, sabemos que o cão possui diabetes tipo 1, que veio de uma doença autoimune que destruiu as células produtoras de insulina”, menciona.

No entanto, a profissional ainda cita que o animal também pode ter diabetes tipo 2, que ocorre após resistência à ação da insulina, tendo como principal causa a obesidade. “Raramente os cães fazem esse tipo de diabetes. Há outros tipos de ocorrências: paciente que tem hiperadrenocorticismo e desenvolveu diabetes; animal que teve pancreatite e lesão do pâncreas e ficou diabético, entre outros possíveis casos”, sinaliza.

Sintomas. Os sinais clínicos clássicos e principais dessa doença, de acordo com Tatiane, incluem aumento da produção de urina (poliúria), aumento da quantidade de ingestão de água (polidipsia), aumento da quantidade de ingestão de alimento (polifagia) e perda de peso. “Ocasionalmente, o motivo da consulta pode ser a formação de catarata com consequente cegueira abrupta”, comenta e Alessandra adiciona: “Essa é uma das principais preocupações dos tutores. Eu converso com eles sobre a catarata na primeira consulta, porque, caso o animal ainda não esteja acometido pela catarata, no primeiro ano de diabetes, possui 20% de chance de desenvolver e, no terceiro ano, 70%, mas é importante lembrar que o desenvolvimento da catarata não necessariamente está relacionada ao controle glicêmico”, afirma.

O diagnóstico, segundo Alessandra, vem a partir da anamnese e dos exames laboratoriais. “Feito o diagnóstico, solicitamos outros exames: hemograma, perfil renal e hepático, exame de urina e ultrassonografia. Preciso deste combo, porque, se o paciente diabético possuir outra doença associada, não terei bom resultado com a aplicação da insulina”, destaca e informa que os principais objetivos do tratamento são: redução das manifestações clínicas, manutenção ou ganho de peso, minimizar complicações, evitar a hipoglicemia e satisfazer o cliente. “O bom controle glicêmico não aparece mais na literatura como objetivo de tratamento”, adiciona.

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Profissionais falam sobre etiologia e manejo do Diabetes Mellitus (Foto: divulgação)

Manejo do diabético. Inicialmente, são realizados acompanhamentos semanais, já que os cães diabéticos requerem alguns dias até que se atinja o equilíbrio, antes que se indique alteração na dose ou no tipo de insulina. “A cada revisão, deve-se coletar informações do tutor referentes à ingestão de água e quantidade de urina, bem como ao estado geral do paciente”, expõe Tatiane.

O proprietário, segundo ela, deve estar atento aos horários de alimentação e aplicação de insulina diariamente e petiscos e/ou alimentos entre as duas refeições diárias não podem ser oferecidos, a fim de evitar flutuações na concentração de glicose sanguínea. “Com certeza, ocorrerão mudanças na dose de insulina ao longo do tratamento, entretanto, estas só poderão ser realizadas pelo veterinário responsável, após observação do paciente. Ele levará em conta a avaliação dos sintomas e de exames complementares, quando indicados, além de avaliação da curva glicêmica realizada pelo tutor, em casa, preferencialmente”, declara.

Dados relevantes. As fêmeas estão duas vezes mais predispostas que os machos e os machos castrados apresentam risco maior de desenvolver a doença, como apontado pela endocrinologista Tatiane. “A castração das fêmeas pode prevenir, em parte, o surgimento da doença por menor exposição a altos níveis de progesterona, porém, outros fatores, como os descritos anteriormente, podem fazer com que a patologia se desenvolva da mesma forma. A castração das fêmeas, quando realizada logo após o diagnóstico do DM, pode levar à remissão diabética, sem necessidade de insulinoterapia”, revela.

Como forma de prevenção, o mais indicado, segundo a profissional, é oferecer uma dieta adequada para cada pet, sem carboidratos e/ou gorduras em excesso, além de estimular a prática de exercícios como formas de prevenção da obesidade e de outras doenças. “A realização de exames de sangue e de imagem periódicos pode ajudar, em grande parte, a identificar fatores predisponentes e diagnosticar a doença ainda em estágios iniciais”, reforça.

Mas, caso o pet adquira a endocrinopatia, Tatiane sublinha que o tutor deve estar ciente sobre o manejo adequado da insulina: “Deve ficar sob refrigeração e ser trocada a cada 30 dias, mesmo que ainda haja insulina no frasco; o mesmo não deve ser rigorosamente agitado, mas, sim, cuidadosamente homogeneizado. Além disso, a seringa deve ser própria para insulina e o proprietário deve se atentar para os locais de aplicação, conforme orientação do veterinário, alternando os mesmos. Normalmente, é aplicada na região do dorso, do pescoço até o final da coluna lombar”, ensina.

Alessandra Vargas ainda deixa um recado para os veterinários e tutores:

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