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Cães e gatos podem ser assintomáticos em quadros de hipertensão

Alimentação não balanceada, entre outros fatores, pode causar a doença

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Assim como na Medicina Humana, dentro do âmbito da Medicina Veterinária, a hipertensão arterial em animais de companhia é considerada uma doença silenciosa e assintomática e representa uma realidade na clínica médica de pequenos animais. No Dia Nacional da Prevenção e Combate à Hipertensão, a C&G VF entrevista o professor do curso de Medicina Veterinária, da Anhanguera de Niterói (RJ), Aluízio Santos.

Ele explica que, na maioria dos casos, a problemática está associada a uma doença de base se apresentando como coadjuvante dos sinais clínicos. “A pressão arterial de um paciente dito normotenso é de pressão arterial sistólica (PAS) entre 110 e 120 mmHg e pressão arterial diastólica (PAD) entre 70 e 80 mmHg”, descreve. Portanto, o paciente canino ou felino pode ser considerado hipertenso quando estes valores se apresentarem discretamente elevados: PAS entre 120 e 170 mmHg e PAD entre 80 e 100 mmHg; moderadamente elevados PAS: entre 170 e 200 mmHg e PAD entre 100 e 120 mmHg; e, ainda, acentuadamente elevados: PAS acima de 200 mmHg e PAD acima de 120 mmHg”, aponta.

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O tratamento do paciente veterinário hipertenso, seja ele felino
ou canino, não difere muito entre estas espécies (Foto: reprodução)

Assim, identificar este inimigo silencioso é relativamente fácil, segundo Santos, por meio de profissionais qualificados para tanto. “Os cardiologistas conseguem identificar os rastros deixados por meio de exames específicos. Porém, avaliar as lesões nos órgãos-alvo, como coração, cérebro, rins e vasos, se tornou uma grande preocupação para estes profissionais, bem como para os clínicos”, revela.

Invisível para leigos. Os tutores pouco podem ajudar na anamnese, pois seus animais esboçam poucos sintomas detectáveis por eles, conforme explana o veterinário. “Alguns animais apresentam poliúria e polidipsia relatados por seus proprietários, onde a suspeita clínica é de diabetes sendo a doença de base. Outros relatos, como dores na base da nuca, que podem ser identificadas por meio de mudanças comportamentais sem uma razão específica e que se dissipam ao longo do dia, uma vez que a avaliação da dor em animais de companhia é extremamente subjetiva, as alterações de comportamento em animais domésticos, geralmente, podem estar associadas a quadros álgicos”, discorre.

Dando sequência, outros relatos comuns são dispneia, que pode ter como doença de base uma série de broncopatias; intolerância ao exercício, que também pode ser causada por cardiopatias; diminuição da visão, onde as retinopatias são decorrentes da hiperglicemia em pacientes diabéticos; e sangramento nasal, que pode ocorrer, também, em pacientes portadores de hemoparasitoses. “A sintomatologia da hipertensão arterial cursa como doença secundária e o envelhecimento está associado a maior incidência da hipertensão ao passo que, quanto mais jovem for o animal, maior é a sua propensão a ter hipertensão associada a uma doença de base reversível”, menciona.

Motivos e avaliações. Santos conta que alguns fatores podem ser considerados como agravantes para o desenvolvimento da hipertensão arterial, como alimentação não balanceada, viver em ambientes onde os tutores são tabagistas, sal em excesso, estresse e causas medicamentosas. “Isso porque alguns fármacos alteram os níveis da pressão da artéria, fatore este que deve ser identificado pelo histórico recente do animal. Outro ponto determinante para a identificação deste inimigo silencioso é o tempo: o tutor deve ser questionado acerca do tempo em que o animal vem apresentando estes sintomas. O tempo de curso dos sintomas é uma ferramenta de extrema valia, pois ajuda o profissional a avaliar a existência de lesões dos órgãos alvo”, indica.

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Viver em ambientes onde os tutores são tabagistas, sal em
excesso e estresse podem ocasionar a doença (Foto: reprodução)

O veterinário ressalta que é importante avaliar o escore corporal do animal, identificando os possíveis obesos, e a palpação das artérias femorais para avaliar a circulação periférica. “Exames cardiológicos acurados proporcionam boa avaliação do sistema cardiovascular, como ausculta cardíaca, eletrocardiograma e Doppler cardíaco, que devem ser considerados em casos específicos. O exame oftálmico fornece informações pertinentes às retinopatias, bem como a integridade de seus vasos, os retinianos”, cita.

De acordo com ele, outro exame de suporte ao diagnóstico é o de imagem ultrassonográfica, onde a parte renal pode ser avaliada, assim como suas glândulas anexas, as suprarrenais. “Os órgãos-alvo da hipertensão, como os rins por exemplo, podem ser avaliados por exames laboratoriais como EAS, ureia e creatinina, glicose, colesterol, triglicerídeos, ácido úrico, sódio e potássio. Todos estes são úteis para avaliar o grau de lesão”, reforça

Há uma classificação? A origem da hipertensão arterial, segundo Santos, pode ser dividida em duas fases: a primeira se dá por meio da identificação do animal como hipertenso. “Ela é considerada hipertensão arterial essencial ou primária de causas desconhecidas e acomete de 90 a 95% dos pacientes humanos e temos como exemplo para ilustrar este panorama a hipertensão familiar comum nos seres humanos. Sabemos que ela também ocorre em pacientes veterinários, porém a cifra é desconhecida, dada a falta de rotina prática no que diz respeito à mensuração da pressão arterial quando da consulta veterinária”, expõe.

Já a segunda hipertensão arterial, denominada secundária, pode ser revertida ou, até mesmo, curada, caso o diagnóstico seja precoce, evitando, assim, a lesão ou a cronificação desta lesão aos órgãos-alvo. “Infelizmente, também não possuímos dados estatísticos sobre este gênero de hipertensão em pacientes veterinários, mas é sabido que os pacientes deste grupo representam a minoria e os animais que apresentam doenças renais são os protagonistas deste grupo”, compartilha.

O tratamento do paciente veterinário hipertenso, seja ele felino ou canino, não difere muito entre estas espécies, como mencionado pelo veterinário. “Geralmente, os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), como benazepril e enalapril, apresentam boa eficácia no tratamento, assim como boa tolerabilidade para ambas as espécies. Os fármacos da classe dos beta-bloqueadores, como propranolol e atenolol, também se mostram benéficos quando utilizados no manejo da hipertensão arterial mormente na espécie felina. A amlodipina pode ser utilizada para ambas as espécies, no entanto, doses mais altas podem ser requeridas para a espécie canina a fim de promover o efeito clínico desejado. A associação de diuréticos também pode se fazer necessária, dependendo do caso em questão”, conclui.

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