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Câncer de pele em gatos pode ser confundido com simples feridas

Avanços dentro da oncologia veterinária aprimoram diagnósticos e terapias

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

As especialidades dentro da Medicina Veterinária vêm avançando com o passar dos anos e, com isso, surgem novas descobertas sobre a saúde dos animais e sobre as enfermidades que os acometem. Dentro da oncologia, hoje, o câncer de pele é visto com mais frequência. Mas, será que isso significa que a doença se tornou mais recorrente?

O médico-veterinário oncologista, Eduardo Alexandre Brocoletti, que comenta a ocorrência da doença nos gatos, explica que, na verdade, a recorrência da enfermidade não aumentou. “O que se ampliou foi a longevidade dos animais e, com isso, estamos relatando e tratando mais casos”, desvenda e revela que os tipos de câncer de pele mais comuns encontrados nos felinos são o Carcinoma Basocelular, em casos mais raros, e o Carcinoma de Células Escamosas (CCE), mais encontrado na rotina oncológica.

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O gato que é branco e/ou tem pouco pelo pode
apresentar maior predisposição em contrair
a doença (Foto: reprodução)

Segundo ele, a principal causa de ambos é a exposição prolongada aos raios UV e, em menor escala, queimaduras, doenças de cunho inflamatório crônico, papilomas vírus oncogênicos e lesões primárias não malignas. “Quando o animal possui a pele muito clara ou tem uma predisposição genética ao câncer, toda exposição é maléfica. O melhor mesmo seria deixar esse animal pouco tempo ao sol e sempre com bloqueadores solares que encontramos nos petshops”, destaca.

Mas pra quem pensa que apenas os dias de verão oferecem este risco aos felinos, Brocoletti faz um alerta: “Apesar do frio no inverno, em nosso País, temos a presença do sol brilhando, até mesmo, com a ausência de nuvens. Portanto, o ideal é que se o gato é branco, tem pouco pelo na região de cabeça, focinho e pinas das orelhas ou possui pelagem clara, o ideal é minimizar a exposição ao sol e sempre utilizar bloqueador solar”, recomenda.

Como identificar? O veterinário expõe que este tipo de tumor é mais observado em gatos após os 9 anos e não apresenta predisposição sexual ou de raça. “As características principais são: lesões que aparecem mais comumente na face, focinho e pinas das orelhas dos gatos, podendo encontrar, como sinais característicos, eritemas (vermelhidão intensa da pele), descamação, alopecia (ausência de pelos), feridas erosivas ou ulceradas e hemorragia local das áreas afetadas”, enumera. As feridas que não cicatrizam e são destrutivas localmente devem receber mais atenção também. “Nos casos de câncer de pele, essas feridas podem, inclusive, deformar a anatomia do animal acometido. Além disso, podem ser observadas, mais raramente em animais escuros, feridas se apresentando em forma nodular ou em formato de placa”, menciona.

Inicialmente, é muito difícil diferenciar um tumor de outro tipo de ferida, de acordo com Brocoletti. “Dependendo do formato e da localização, é muito parecido com qualquer outra ferida de pele. Porém, o que pode ser levado em conta nos gatos é, primeiramente, a localização, como citei anteriormente. O tutor deve estar atento em relação à quantidade de tempo que o animal fica exposto aos raios UV e às feridas anteriormente tratadas como ferimentos que tendem a não cicatrizar após uma, duas ou três tentativas de tratamento. Quando esse grupo de situações ocorrerem, o animal deve ser levado o mais rápido possível ao veterinário para um exame histopatológico (biopsia) e, em caso de positivo, encaminhado a um oncologista para que esse inicie o tratamento”, orienta.

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Plano cirúrgico é extremamente mutilador, mas
jamais deve ser omitido do tutor, na visão
do veterinário (Foto: divulgação)

Opções terapêuticas. As opções de tratamento vêm crescendo ao longo dos anos para essa enfermidade, como comentado pelo veterinário. “Há a quimioterapia intralesional, que é a aplicação de um quimioterápico específico diretamente na lesão; a terapia fotodinâmica, que é o uso de corantes e tipos diferentes de laser; a criocirurgia, onde se congela o tumor na tentativa de matar as células tumorais; a eletroquimioterapia, que é o uso de quimioterápicos específicos conjugados com a abertura dos poros celulares por meio de impulsos elétricos; e, a mais eficaz, em minha opinião, até hoje, é o procedimento cirúrgico, onde é retirado o tumor com as margens correspondentes. A quimioterapia sistêmica não tem obtido muito sucesso no tratamento desse tipo de tumor”, compartilha.

Ele frisa que, apesar de, na oncologia, não se falar em cura, mas, sim, no maior tempo possível do animal livre da doença, em casos deste tipo de tumor, é possível alcançar um certo êxito. “Isso quando implementamos as terapias corretas, pois, assim, o sucesso aumenta mais ainda, bem como quando o tutor faz tudo o que recomendamos corretamente. Este, como todo câncer, quanto mais cedo for descoberto, mais promissor será o tratamento”, garante.

O grande problema, na visão de Brocoletti, é que muitos clínicos pensam em outras moléstias, mas nunca em câncer e, quando percebem que não há mais saída, optam pelo exame histopatológico e aí vem a bomba. “Às vezes, por teimosia, outras por acharem se tratar de outras doenças, acabamos recebendo o animal já em um estado extremamente avançado e temos que optar por procedimentos extremamente radicais, que assustam o tutor, que já vem em uma condição fragilizada em virtude da palavra câncer”, relata.

Mas, apesar de, muitas vezes, o plano cirúrgico ter que ser extremamente mutilador, jamais deve ser omitido do tutor, como considerado pelo especialista: “Isso porque o mesmo deve saber em que situações ele vai encontrar seu animal. Quando temos uma lesão, seja ela nodular ou erosiva, não podemos descartar câncer, coisa que, infelizmente, ainda nos dias de hoje, muitos colegas deixam como a última das opções. Acredito que esse seja o maior erro por parte de nós, veterinários, e por parte do tutor, que se equivoca por acreditar que o câncer é o fim da linha. Nós, oncologistas, temos que, dia após dia, provar aos colegas que um diagnóstico precoce ajuda muito para a sobrevida do paciente e devemos provar ao tutor que, sim, é possível o animal ter qualidade de vida sem a necessidade de abreviá-la”, salienta.

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Após tratamento, o gato Manhoso ficou 2 anos
livre do câncer, mas morreu por um
problema renal (Foto: divulgalção)

Caso clínico. O profissional narra que cuidou de um paciente felino de nome Manhoso, 11 anos, cuja mãe havia falecido em virtude de um tumor de pele. “Quando ele chegou à clínica que atendo em Ribeirão Pires (SP), foi diagnosticado na clínica geral com CCE. Realizei a primeira intervenção cirúrgica e, após curto tempo, a lesão voltou”, relembra.

Então, a partir disso, o profissional, juntamente com sua equipe, realizou uma segunda intervenção bem mais agressiva que a primeira. “Ele ficou por volta de 2 anos livre do câncer, porém, infelizmente, veio a falecer por conta de uma situação que nada teve a ver com o tumor em questão: um problema renal. Ele, em minha opinião, seria um paciente em que conseguiríamos a tão almejada cura”, presume.

Outros gatos também podem contar com uma expectativa de cura, assim como ele imaginava para Manhoso. Mas, para isso, ao perceber qualquer vermelhidão intensa, o tutor deve levar o animal a um veterinário de sua confiança para que sejam tomadas as medidas corretas. “Jamais é indicado medicar o pet de acordo com receitas milagrosas publicadas na internet”, arremata.

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