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Contratação de veterinários pode não ser uma das tarefas mais fáceis

Proprietários de clínicas narram as dificuldades na hora de preencher vagas

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Você, médico-veterinário, já deve ter participado de alguma discussão, em uma roda de amigos, sobre o número de profissionais que a Medicina Veterinária ganha a cada ano aqui no Brasil. Apesar dessa quantidade exacerbada de recém-formados chegando a todo o tempo para o mercado de trabalho, na hora de contratar um profissional para sua clínica, você encontra mais uma tarefa difícil para fazer parte do seu dia?

Segundo o veterinário Bruno Monteiro da Silva, que é proprietário de uma clínica veterinária, realmente, não é tão fácil preencher vagas destinadas a clínicos e isso ocorre por diversos motivos. “Dentre eles, muitos preferem sair da faculdade e abrir seu próprio negócio, o que deixa as cidades repletas de pequenas clínicas e petshops; em segundo lugar, o número alto de graduações oferecidas acaba ofertando profissionais pouco preparados ao final do curso; e em terceiro lugar, a legislação trabalhista que cerca os médicos-veterinários: ou são muito antigas e ultrapassadas ou definidas por sindicatos de grandes centros, que apresentam uma realidade diferente do interior ou da grande parte das clínicas veterinárias”, analisa.

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Falta de técnica prática, muitas vezes, deixam o
profissional inseguro e acaba atrapalhando sua
contratação (Foto: reprodução)

A médica-veterinária sócia proprietária da Clínica Veterinária Felinos da Granja - Medicina Felina Especializada, Rosemeire Barbosa Yoshida, também encontra objeções na contratação, principalmente por cuidar de um local que oferece atendimento apenas para uma espécie. “Em uma clínica onde o serviço oferecido é especializado, é necessário garantir  que o profissional contratado tenha, no mínimo, intimidade com a espécie a ser tratada, ou seja, é primordial ter o conhecimento técnico, mas também se faz de suma importância conhecer  o comportamento da espécie, o manejo, as  diferenças e conhecer o perfil do tutor de gatos, para que, realmente, o atendimento seja diferenciado, qualificado e especializado”, assegura.

O profissional Bruno Silva menciona que os recém-formados chegam a se candidatar para as vagas, levam seus currículos, porém, muitos ainda procuram por estágios ou vagas que necessitem qualificação menor, como a de enfermeiros, para ganhar um pouco de experiência. “Isso porque, com o tempo, a grade curricular das faculdades de Medicina Veterinária diminuiu, muitas sendo de meio período ou apenas noturna e eles não têm tempo para estágios e acompanhamento dentro da própria faculdade”, cita.

No entanto, com raras exceções, como dito por Silva, é possível inserir um recém-formado substituindo um profissional mais experiente. “Normalmente, precisamos deixá-lo em um período de adaptação, ganhando experiência, que acredito que deveria ter sido ganha, boa parte, já durante o curso”, avalia. Rosemeire também aposta nessa troca de experiência, onde o veterano mais habilitado colabore com o desenvolvimento do novato. “Acredito que essa convivência profissional traga suas experiências e novidades para a Medicina Veterinária, é o que torna possível um manejo clínico mais rico e positivo ao paciente”, considera.

O veterinário e sócio proprietário do Hospital Veterinário Santana, Hannan Eduardo Bacelar, declara que conhece um número grande de colegas que não tiveram a oportunidade de buscar estágios durante a graduação e, por não ter essa experiência, não se julgam capazes, apenas com a teoria, de tentar corresponder a determinadas ofertas de trabalho. “Por outro lado, também conheço muitos que não aceitam trabalhar mais que seis horas por dia, preferindo um salário fixo e longe de ‘grandes’ cargos”, complementa.

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Os proprietários de clínica acreditam que a atuação conjunta de profissionais
mais experientes e de novatos somam com a profissão (Foto: reprodução)

Esforços x contratação. Silva relata que a vida de veterinário é muito sacrificante, não tendo horários fixos e exigindo, muitas vezes, trabalho em horários incomuns diante da maioria das profissões. “É preciso estender horas de trabalho de forma imprevista e, principalmente, os recém-formados acabam se deparando com essas vagas (plantões). A remuneração é outro ponto que os deixa mais receosos em se candidatar para o trabalho, pois a profissão, socialmente, é desvalorizada. Todos querem, cada vez mais, cuidar de seus animais, mas poucos estão dispostos a pagar por um tratamento adequado e, como na Medicina Humana, os custos são altos e, então, não conseguimos contratá-los por salários que julgam como adequados”, declara.

Na clínica de Silva, é realizada uma análise de currículos, bem como a indicação de outros colegas de profissão e, em seguida, os candidatos são chamados para trabalhos pontuais. “Assim, observamos a forma de trabalhar para que um seja contratado”, expõe e afirma que o profissional precisa ter, acima de tudo, conhecimento da vaga em que está se candidatando. “Chegam muitos que se candidatam, mas desejam atuar em outra área da Veterinária ou nem sabem o que querem. Além disso, é essencial mostrar confiança naquilo que estão falando e estar disposto a trabalhar muito, pois a profissão exige isso inicialmente e nem todos estão dispostos”, insere.

Além da avaliação de currículos, no hospital de Hannan Bacelar, também é aplicado um questionário médico para o candidato responder. “Ainda pergunto suas principais qualidades e defeitos, uma vez que vamos lidar com o ser humano em primeiro lugar e, para isso, preciso ter uma ideia de como ele reage a determinadas situações. Já tive muitos colegas com currículos excelentes, mas, quando entrevistados, foram decepcionantes”, revela.

Para Bacelar, ser proativo, ter determinação em resolver o quadro clínico do paciente, possuir vontade de dar o chamado ‘começo, meio e fim’ é essencial. “Digo muito aos colegas que eles são ‘resolvedores’ de problemas”, compartilha.

Já Rosemeire prefere avaliar o carisma e simpatia do profissional a ser contratado, bem como suas habilidades em solucionar as adversidades do dia a dia da rotina clínica e cirúrgica e, por último, analisar o currículo. “Temos plena certeza de que o conhecimento técnico foi desenvolvido ao longo da graduação, mas se não estiver associado aos dois primeiros pré-requisitos, não alcançaremos o sucesso desejado com o profissional”, supõe.

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Nem todos os veterinários formados aceitam trabalhar
sem horários fixos e em plantões, segundo os
entrevistados (Foto: reprodução)

E a persistência? O veterinário Silva revela que há profissionais que se interessam pela vaga, mas desistem quando iniciam o trabalho: “Pelo serviço que é preciso desempenhar, outros pela insegurança, outros porque preferem desistir e continuar no emprego que já tem, ou recebem outra proposta. Isso é ruim tanto para o funcionário, que deixa uma imagem ruim, quanto para o empregador, que fica na mão, tendo que iniciar o processo seletivo novamente”, destaca e, por este motivo, ainda adiciona: “Muitos acabam nem exercendo a profissão na qual se formam”. Rosemeire também comenta que a maior parte dos profissionais busca salários altos, mas não querem o assumir o comprometimento de horário, fins de semana, estudos contínuos e aprimoramento com cursos, entre outros compromissos que a carreira exige.

Ela ainda compartilha que viu muitos profissionais desistirem por conta de insegurança, que aumentava à medida em que trabalhavam com profissionais mais experientes e competitivos. “Próximo passo? Buscar um novo profissional que esteja melhor preparado nesse sentido. Insegurança, por exemplo, é algo que cada indivíduo tem seu tempo para resolver consigo mesmo”, sublinha.

Mas, nem tudo está perdido na visão dela, que acredita que há mercado e espaço para todos. “Nunca entenderei a expressão ‘concorrência’! Procuro trabalhar sempre com a somatória: quanto mais profissionais trabalhando juntos em uma causa, melhor será o resultado ao paciente, já que ele é nosso bem comum. Acho um retrocesso as diversas clínicas, hospitais e colegas se encararem e até se enfrentarem como concorrentes. Para mim, concorrência é sinônimo de insegurança por parte dos profissionais que assim se encaram”, opina. Outro que considera que há opções de trabalho para todos é Bacelar: “Sem dúvida alguma, as oportunidades em nossa área surgem. Basta criá-las e não apenas esperar por elas”, argumenta.

Outros ares. Quando questionado sobre o que diria aos profissionais que vão atuar fora do Brasil, o veterinário brinca: “Boa sorte. Na verdade, depende da dedicação que a pessoa tem. Lá fora podem encontrar dificuldades maiores que as daqui, até porque é preciso estudar para validar o diploma antes, enquanto muitos acreditam que é só chegar e já trabalhar”.

Sobre investir na carreira fora do Brasil, Silva acredita que somente o País perde: “Pois, simplesmente validar o diploma e trabalhar em outro País mais desenvolvido não é fácil e quem consegue é porque tem boa capacidade e procura locais onde sejam mais valorizados, ou seja, perdemos bons profissionais”, lamenta, mas ainda observa que o Brasil não costuma valorizar a prestação de serviço: “O brasileiro enaltece aquilo que ele pode tocar (produtos, de maneira geral). Então, ele gasta com banho e tosa, caminhas e roupinhas e acaba por não vacinar ou levar o pet ao veterinário quando precisa, porque acha caro o serviço”.

Na visão de Rosemeire, atuar como veterinário em outro País não é tão simples. “Primeiro porque a validação de nossa licença depende de muitas provas, cursos técnicos, de idioma local, investimento financeiro alto, além de visto, quando se trata, principalmente, em residir em países como os Estados Unidos. Na minha opinião, conseguir trabalho no Brasil não é difícil. O que torna a conquista complicada é a falta de vontade do profissional para se encontrar consigo mesmo e enxergar as diversas oportunidades que pode aproveitar”, conclui.

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