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Dia da Mulher: data importante para conversar sobre assédio na clínica

Indiretas, perseguição e ameaças fazem parte dos relatos de nossas entrevistadas

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

“Se proteja de todas as formas, peça ajuda e exponha toda a sua dor diante do assédio”. Essa é a dica que a médica-veterinária Maria Paula Ferrari Oliveira dá para as médicas-veterinárias que já sofreram ou estão lutando contra o assédio sexual em suas clínicas. Sim, ele existe e precisamos falar sobre! E é nesse Dia Internacional da Mulher que destacamos: este comportamento pode vir tanto de clientes quanto de colegas de trabalho e como é importante a mulher se resguardar.

Maria Paula não foi entrevistada por acaso: ela sofreu na pele a angústia do assédio sexual. A profissional atendeu um cliente e, inicialmente, segundo ela, ele demonstrou um comportamento normal. “Embora a forma como me olhava já fosse um pouco desconfortante, mas mantivemos pouco contato após a consulta, como resultados de exames etc.”, relembra.

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Veterinárias relatam que sempre se preocupam com
a forma que abordam um cliente para ele não ter
outras intenções (Foto: reprodução)

Mas ela nem imaginava todo o transtorno que passaria com este homem: dois anos depois, ele encontrou o perfil de Maria nas redes sociais. “Começou a me mandar mensagem com certa frequência e, inicialmente, eram assuntos profissionais, mas, depois, partiu para o pessoal. Ao todo, me perturbou durante um ano e meio. Foram períodos bem difíceis”, descreve.

De acordo com a veterinária, o homem não tinha cautela, mandava várias mensagens no mesmo dia, o que já estava desagradável. “Foi aí que ele passou a me perseguir: mesmo com a medida protetiva que eu solicitei, me mandava flores, chocolates, passeava com o cachorro dele na porta da minha casa e já chegou a passar a noite me observando. Era desesperador”, narra.

Maria afirma que não conseguia se concentrar no trabalho, não podia ir a nenhum lugar sozinha, tinha muita insônia e sempre pensava que o pior poderia acontecer a qualquer momento. “Em uma madrugada, ele me mandou um áudio com ameaças e fazendo alusões a questões sexuais”, revela.

Na clínica. De acordo com Maria, a perseguição do antigo cliente virou um problema, também, para toda sua equipe. “Além disso, investi financeiramente para colocar câmera em todos os lugares, alarmes, saídas de emergência e segurança. Foi aterrorizante”, conta a profissional que alega não ter obtido muito apoio da polícia no início. "Precisei me expor e aí as coisas começaram a andar: ele, finalmente, foi preso, justamente por também já enfrentar outros processos legais”, adiciona.

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O assédio também pode vir de colegas de profissão,
por isso é preciso ficar atenta (Foto: reprodução)

No entanto, apesar de ter “vencido” essa luta, Maria ainda sente certo desamparo pelo fato de ser mulher. “Percebo, às vezes, que a sociedade ainda julga um pouco pelo que somos, acham que poderíamos ter feito algo para evitar, como se, de alguma forma, fôssemos culpadas por ser mulher. Meu trabalho também acaba me expondo muito, então, querendo ou não, por já ter vivido isso, acredito que acabo, sim, me preocupando mais que as pessoas de uma forma geral”, compartilha.

Para Maria, ser mulher não é fácil e, como veterinária, ela diz que precisa sempre se preocupar com a forma que aborda um cliente, sobre como ligar para falar sobre algo relacionado ao paciente. “Para tudo penso ‘será que ele vai interpretar mal?’. Já tive clientes exigindo meu telefone particular para minha secretária por não entender a diferença de uma questão pessoal e profissional. Espero mesmo que, cada vez mais, possamos trabalhar em paz e sermos respeitadas profissionalmente”, aspira.

Outra experiência. A médica-veterinária Regiane Rosa Fogaça, embora nunca tenha precisado de apoio policial diante das situações, também foi surpreendida negativamente por clientes e, também, por colegas de profissão na clínica. “Alguns clientes inconvenientes fazem muitas insinuações, pedem o telefone pessoal e, inclusive, chegam muito próximo do meu corpo, muitas vezes, encostando. E os veterinários, dentro da minha vivência, são bem mais explícitos, falando ou agindo diretamente”, denota.

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Veterinárias desejam trabalhar em paz e ser
respeitadas profissionalmente (Foto: reprodução)

Regiane afirma que, como trabalha com muitas pessoas, não chegou a ter medo, pois poderia chamar alguém se algo acontecesse. “Mas tive receios, pois é ‘uma invasão’ quando algo acontece sem o seu consentimento”, avalia a profissional que sugere uma dica a outras veterinárias que passam por isso: “Sempre atenda com alguém te acompanhando (uma secretária ou enfermeira), assim, tentamos evitar esse tipo de problema”.

Para a profissional, é importante debater temas como este no universo de clínicas e hospitais veterinários e em todas as profissões para manter a autoestima e a segurança da mulher. “A médica-veterinária deve ter postura dentro do ambiente de trabalho e, a fim de esquivar-se de situações como estas, cortar diretamente e com educação qualquer insinuação ou ‘cantada’, para não ocorrer a segunda vez. E, como já dito anteriormente, sempre ter um funcionário acompanhando os atendimentos”, orienta.

Dados do CFMV? Consultada sobre o tema, a assessoria de imprensa do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CMFV) explicou que denúncias de assédio profissional/cliente ou profissional/profissional, podem gerar processo ético disciplinar devido ao desvio de conduta, se realizado durante o exercício da profissão. Porém, a entidade não possui classificação específica para esse tipo de infração.

Além disso, foi esclarecido que o universo de processos do CFMV ocorre apenas quando alguma das partes recorre. “Somos um órgão de julgamento em segunda instância. Empiricamente, poderíamos informar que os números são inexpressivos, correndo o sério risco de não representar a realidade, pois a apuração seria apenas dos casos em que a vítima decide formalizar denúncia e recorrer da decisão ao CFMV. Por não termos nenhum estudo aprofundado sobre o tema, não temos como auxiliar na matéria”, consta em nota.

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