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Disparidade social dificulta contenção da leishmaniose canina

Segundo médicos-veterinários, se atentar aos animais de periferia pode ser a chave para contornar o problema

Wellington Torres, em casa

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Com alto poder endêmico e fatal, a leishmaniose visceral (LV) é uma doença que tira o sono dos tutores de pets. Em agosto, a LV foi lembrada no dia e durante a semana de combate à doença. No entanto, é importante lembrar que ela está lá fora, fazendo novas vítimas em todos os dias do calendário. Transmitida por meio da picada do mosquito palha infectado com o protozoário Leishmania infantum chagasi, o número de casos, assim como a taxa de mortalidade, tem aumentado anualmente, por isso, proporcionar um tratamento adequado ao animal é imprescindível.

Contudo, num País que se encontra em meio a uma crise financeira – antes mesmo da chegada da pandemia – e com custo elevado no que tange às tratativas médicas, muitas vezes, torna-se inviável para os cuidadores ofertarem alguma qualidade de vida aos pets acometidos pela doença. Neste cenário, o mais recente levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que metade dos brasileiros sobrevive com apenas R$ 438 mensais, medida que configura cerca de 105 milhões de pessoas, o que pode justificar a situação.

“Sempre tive uma preocupação existencial muito grande, pois existe um número que bate na minha cabeça e me deixa muito triste: somente 20% da população brasileira ganha mais que dois salários mínimos, sendo assim, temos mais de 80% dos nossos irmãos brasileiros ganhando até dois mil reais”, explica médico-veterinário e advogado André Fonseca, complementando que, com essa quantia, é inviável realizar “um tratamento digno de leishmaniose”.

Aquecimento global afeta o mundo das zoonoses,
aumentando a incidência de todas as doenças vetoriais,
como a leishmaniose (Foto: reprodução)

Para o profissional, que também é socio-fundador do Grupo Brasileish, tal informação deve servir para redirecionar o olhar dos órgãos públicos às regiões mais carentes. “Quando você vai na periferia tratar um cachorro com a doença, a primeira coisa que escuta é sobre o prejuízo que aquela família vai ter com o tratamento”, conta o médico-veterinário.

Para ele, com o desenvolvimento do aquecimento global, a atual situação do planeta tende a piorar ainda mais nesse quadro. “Gosto sempre de chamar atenção para o período contemporâneo: estamos vivendo durante o aquecimento global e o que isso quer dizer em termo de zoonoses? Vai chover menos, mas em maior intensidade, o que causará uma alteração de comportamento, afetando o mundo das zoonoses, aumentando a incidência de todas as doenças vetoriais, como a leishmaniose, por exemplo”, afirma o profissional.

Na patologia em destaque, o mesmo pontua que há uma particularidade importante e que, muitas vezes, os profissionais do setor não prestam a devida atenção.  “A leishmaniose é uma doença sexualmente transmissível (DST), seja no cão, no gato ou no humano, e o impacto da doença é muito grande, porque uma cadela com leishmaniose pode parir oito filhotes com leishmania; agora, uma cadela da periferia, que dá a luz três vezes por ano, sozinha produz 24 animais infectados. Isso começa a amplificar a situação”, contextualiza Fonseca.

Ainda de acordo com ele, a presença do vetor mantém a doença humana, mas a reprodução canina aumenta a leishmaniose entre a espécie. "Por isso que não há uma correlação muito lógica entre doença humana e doença veterinária, fazendo com que a castração tenha que ser encarada como uma medida de saúde pública e que seja feita de forma pontual”, avalia.

Ao focar nas regiões periféricas, onde o poder aquisitivo é diminuto e os animais podem passar mais tempo na rua, o veterinário é enfático em como a situação deve ser tratada: “Não adianta apenas oferecer castração de graça, se essas pessoas não têm nem como levar o animal até o consultório, o serviço deve ser feito por completo. Nós temos que ir lá, pegar o animal, castrar e devolver”, indica.

Um obstáculo chamado internet. Muitas vezes, no desespero em ajudar os animais e pela condição financeira, alguns tutores recorrem às informações disponíveis na internet, o que pode agravar - e muito - a saúde nos pets. Segundo o também médico-veterinário e membro fundador do Brasileish, Fábio Nogueira, atualmente, nessa situação, “tenho pego uma casuística alta, da qual noto uma perda muito grande de animais com doença renal”, explica o mestre e doutor em Clínica de Pequenos Animais e pesquisador na área clínica em tratamento da leishmaniose canina.

Segundo ele, antes de mais nada, o tutor deve pensar que cada caso deverá ser devidamente averiguado por um profissional, pois é nessa ação que um medicamento e tratamento adequado será indicado. “Me parece que com a ideia de ‘está liberado o tratamento’, todas as pessoas estão recorrendo ao alopurinol, o que pode estar causando esse aumento das doenças renais”, conclui.

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