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Especialista em felinos lista principais regras de manejo na clínica

Veterinário não deve demonstrar nem ser abalado pelo sentimento de medo

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

O passo a passo que envolve levar o gato para uma consulta com o veterinário faz com que muitos tutores desistam ou nem cogitem a ideia. Para se ter uma noção, em 2006, nos Estados Unidos, os proprietários de cães estavam levando duas vezes mais seus animais à clínica do que os tutores de gatos. Naquele ano, só 64% dos felinos foram consultados, enquanto o número de cães chegava a 92%.

Esses dados começaram a assustar os veterinários da Associação Americana de Hospitais Veterinários e da Associação Americana de Veterinários de Felinos, que se uniram para descobrir o motivo e alterar essa discrepância. Em parceria, realizaram uma pesquisa que mostra que se a pessoa leva seu gato, anualmente, durante dez anos, em consultas, gasta menos do que se ficar dez anos sem levar o animal ao veterinário e só o levar quando estiver em estado crítico, o que força o tutor a gastar mais com atendimento emergencial e internação.

Entendendo os problemas da falta de gato na clínica, as associações começaram a estabelecer metas para melhorar, entender o mercado e trazer os gatos e, com isso, foram criados os primeiros desenvolvimentos do conceito de Cat Friendly. Quem nos conta tudo isso é o médico-veterinário proprietário da Clínica Gattos (São Paulo/SP), especializada em Medicina Felina, Alexandre Daniel. “As entidades avaliaram que todos os segmentos eram prejudicados: os proprietários, porque, se o gato não estiver bem, consequentemente, eles também não estão; o veterinário sofre e, especialmente, os gatos não gostam da situação”, menciona.

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Lidar bem com os gatos é uma questão de estrutura e, acima de tudo, de atitude (Foto: reprodução)

Perspectivas. Entre os inúmeros motivos pelos quais os tutores de felinos citaram como sendo complicadores para levar o pet ao consultório, Daniel cita alguns: “É difícil colocar o gato na caixa; eles têm medo de magoar o gato; medo do comportamento do animal na clínica; do pet machucar o veterinário; dele quebrar algo na clínica; medo da interação e atitude do gato na clínica, por traumas passados de contenção exagerada e de coletas inadvertidas; medo da mudança de comportamento do gato, pois acreditam que, quando ele voltar, irá açoitar os outros. Tudo isso faz com que o cliente não vá até a clínica”, acentua.

Mas as preocupações não se limitam apenas aos proprietários. Segundo o especialista, o veterinário também tem medo do paciente que está por vir: “Receio de receber gatos de difícil manuseio, de se machucar e, principalmente, o clínico tem aversão ao dono do gato, porque ele é um cliente diferenciado”, declara e lembra que o veterinário não sabe até que limite o gato tolera. “Ele nem sabe direito qual a influência que o estresse causado no atendimento vai gerar nos parâmetros clínicos e laboratoriais que ele coleta”, insere.

Daniel ainda revela que os próprios gatos também temem algumas coisas: ele estressa, nauseia, urina, defeca, porque sair de casa, para o gato, já é uma experiência estressante. “Temos que olhar tudo junto e, com isso, tentar tornar a experiência o menos estressante possível para o proprietário, para o veterinário e para o animal”, aconselha.

Manejo. Todos os cuidados ainda não são suficientes para lidar com felinos na clínica. Portanto, Daniel frisa que o profissional deve estar atento a qualquer ação que possa abalar a confiança do animal. “O veterinário nunca deve tirar os membros de apoio do pet da mesa e deve estar sempre analisando a postura dos olhos, orelhas, expressões faciais e corporais do paciente”, ensina.

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Na consulta, veterinário deve abrir a caixa de transporte
e deixá-lo solto para sair apenas quando – e se –
ele quiser (Foto: reprodução)

O especialista ainda pontua que os gatos são extremamente sensíveis aos odores, tendo dez vezes mais superfícies olfatórias destinadas aos odores do que o ser humano. “Ou seja, algo que você não sente o cheiro, mesmo que esteja do seu lado, ele já está sentindo há muito tempo e aí entra a questão de não utilizar perfumes nem desodorantes ambientais que ficam ‘soltando cheirinho’ a cada 15 minutos, pois tudo isso não é bom para o gato”, orienta.

Além disso, os gatos possuem uma série de demonstrações táteis, visuais e vocais para mostrar que não estão gostando de determinada situação, como conta Daniel: “Eles modificam postura da calda, de orelha e dos olhos. Quando ele vocaliza, normalmente, está querendo te isolar”, explica. Os gatos também mostram as presas como sinal de medo. “Ele tenta utilizar as posturas porque não quer atrito, não quer confronto direto”, adiciona.

O veterinário ainda deve se atentar ao seu tom de voz, que deve ser moderado e adequado à espécie, além da movimentação corporal, que deve ser diminuída. “Felinos não gostam de movimentos súbitos e explosivos e podem mudar de comportamento muito rápido, em questão de minutos. Então, o profissional deve se atentar, não só no começo, mas durante todo o tempo da consulta”, salienta.

Experiências agradáveis. Quando o veterinário minimiza o medo do paciente, tem menos chances de ser atacado, de acordo com Daniel, que defende que, por isso, é fundamental que todo mundo entenda que o medo é principal causador da agressividade felina. “Essa atenção deve começar na recepção da clínica. Ela deve ter porta, que não pode ser de vidro, tem que ser um lugar calmo, silencioso e arquitetado para o gato. É preciso orientar os atendentes para evitar contato visual com o animal e, preferencialmente, ter uma sala de espera só para a espécie, com feromônios sintéticos para minimizar estresse e ansiedade”, recomenda.

Saindo da espera e partindo para o momento em que o animal adentra a sala, o veterinário deve abrir a caixa de transporte e deixá-lo solto para sair apenas quando – e se – ele quiser. “Isso vai permitir que ele tenha senso de controle”, discorre. A sala deve ser projetada pensando no ponto de vista do gato, como diz Daniel. “Todo e qualquer possível local de fuga tem que ser evitado e não adianta montar a sala de gatos do lado do canil. Tudo ou a maior parte do que você precisa para o atendimento diário, já deve estar na sala, porque toda movimentação excessiva estressa o gato”, reforça.

Todos esses tópicos são abordados dentro do Cat Friendly, segundo Daniel. “Precisamos utilizar coisas que eles gostam a favor deles. Esse é um conceito que devemos incorporar em nossa rotina, para melhorar os atendimentos, além de procurar cursos e materiais e, o mais importante: lembrar que tudo pelo ponto de vista do gato fica melhor para entendermos e exercermos”, finaliza.

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