Assine

Especialistas questionam: até quando a dieta crua será um tabu?

Com receitas personalizadas, pets recebem os mesmos nutrientes presentes na ração

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Na clínica, em uma roda de amigos, em publicações nas redes sociais. Seja onde for, acredito que já presenciou um debate sobre alimentação natural e, especificamente, sobre alimentos crus inseridos na dieta de animais de estimação. A equipe web da C&G VF conversou com especialistas que contradizem um estudo recém-publicado que alerta a população sobre os riscos da inclusão de carne crua nas refeições dos pets.

Como rebatido pela médica-veterinária Bruna Fernandes Ferreira Seabra, a pesquisa aponta para uma possibilidade real, que deve ser estudada e divulgada à sociedade pelo bem da Saúde Pública. “No entanto, ao ler o estudo, notei que não foram mencionados todos os fatores que, realmente, influenciam a eliminação de microrganismos nas fezes de cães adeptos à alimentação natural crua. Visto que, somente a ingestão da carne crua, não é fator determinante para tal”, comenta.

De forma resumida, ela explica que a procedência da carne, a higiene no preparo da refeição, o congelamento profilático correto e o estado de saúde do animal são os principais fatores que influenciam a eliminação de bactérias, como a Salmonella, a Escherichia coli e a Clostridium difficile, e, possivelmente, outros, microrganismos nas fezes. “Portanto, se estes quesitos não forem respeitados, não será surpresa a maior eliminação de microrganismos. Para afirmar que existe uma ligação direta entre o consumo da carne crua e a maior eliminação de bactérias por animais que consomem alimentação natural crua, é necessário investigar a fundo as principais variáveis associadas à utilização desta modalidade de dieta que tenham relação com a contaminação biológica, bem como se houve orientação profissional e, ainda, se os tutores a seguiam corretamente”, pondera.

alimentoscrus
Alguns benefícios da dieta: diminuição de alergias,
melhora na qualidade dos pelos e na imunidade
(Foto: reprodução)

Sobre o tópico, a zootecnista Sicília Avelar Gonçalves ainda menciona que ingerindo carne crua ou ração industrializada, bactérias são liberadas nas fezes, mas é, justamente, o congelamento profilático que se apresenta como uma medida efetiva para controle dessas bactérias. “E o fato de elas chegarem ao organismo humano vai depender mais da higiene do tutor do que da quantidade de bactérias nas fezes em si”, incrementa.

Atenção especial. Assim, como salienta Bruna, no momento de preparar as refeições do cão ou gato, todas as orientações passadas pelo profissional devem ser seguidas à risca e qualquer alteração deve ser revisada e aprovada pelo veterinário ou zootecnista responsável pelo caso. “De modo geral, as recomendações de cuidados de higiene no preparo da modalidade de alimentação natural crua com ossos são: comprar carnes limpas, sem excesso de gorduras e  em pedaços inteiros; após a compra das carnes e ossos frescos, os mesmos devem ser congelados assim que possível, para que não fiquem expostos à temperatura ambiente por muito tempo. Seu descongelamento deve ser realizado dentro da geladeira, monitorando o momento em que poderão ser manipuladas; vegetais, folhas e frutas devem ser bem lavados, podendo deixá-los de molho em solução com água sanitária para desinfecção. No preparo, remover as sementes; antes de preparar os alimentos, desinfetar bem toda a estação de trabalho e os utensílios que serão utilizados, podendo contar com uma solução de 1 parte de água sanitária e 22 partes de água; prender cabelos compridos e, de preferência, manter as unhas curtas, ou escovar vigorosamente embaixo das mesmas. Lavar bem as mãos e antebraços, antes e depois da manipulação de carnes. Não é obrigatório, mas podem ser utilizadas luvas”, enumera.

A profissional ainda menciona que outros cuidados devem ser tomados, entre eles, os utensílios devem ser utilizados exclusivamente para o preparo da refeição do pet, tábuas para corte de carne devem ser trocadas de tempos em tempos e o tutor deve preferir talheres lisos, com cabos de aço inox. “A cada uma hora, lavar todas as superfícies e utensílios utilizados com solução para desinfecção (1 parte água sanitária + 22 partes água) ou detergente neutro e não lavar carnes, vísceras e ossos. Após a quebra dos ovos, descartar, imediatamente, as cascas e lavar as mãos em seguida para manusear outros alimentos; assim que as porções de alimento estiverem prontas e pesadas, as mesmas devem ser congeladas; não deixar o alimento exposto ao ar livre no pote do animal por mais de 30 minutos. Se, neste meio tempo, o animal não o consumir todo, guardar o restante em pote com tampa na geladeira, para oferecer, novamente, em até 24h; fornecer e utilizar água filtrada para a alimentação do animal”, insere.

crus19
Cada espécie possui suas necessidades específicas,
não sendo possível ofertar a mesma dieta para ambas
(Foto: reprodução)

Como explicado por Bruna, o congelamento profilático é um método de prevenção de proliferação de microrganismos, comensais e patogênicos que possam estar presentes na carne in natura. “Para tal, submete-se a carne crua a temperaturas baixas, em congelador ou freezer, por volta de -18°C ou inferior, por um período de tempo determinado para cada tipo de carne, sendo: 24h para carne de frango e outras aves; três dias no freezer ou cinco dias no congelador para carne bovina, caprina, de cordeiro e coelho; sete dias para peixes e 21 dias para carne suína”, discorre e afirma que o efeito esperado é a inativação de bactérias que possam estar presentes e a eliminação de parasitos.

A zootecnista Sicília ainda chama atenção para o local onde as carnes utilizadas são compradas: “Devem ser adquiridas em açougues de confiança, ou seja, o mesmo estabelecimento em que o tutor compra sua carne para consumo”. Tomando todos estes cuidados, a profissional acredita que a carne crua não possui potencial para causar danos à saúde dos pets. “Em animais saudáveis não! Naturalmente, eles já possuem bactérias no organismo, inclusive a Salmonella. Considero risco somente para aqueles com a imunidade bastante comprometida, porém a modalidade de dieta crua, na maioria das vezes, é utilizada somente para os animais saudáveis e com acompanhamento de um profissional”, expõe.

Particularidades. Além da contaminação pela falta de cuidados específicos no congelamento e manuseio dos alimentos, Bruna menciona que existem, ainda, sérios riscos de oferecer uma dieta desbalanceada ao animal. “A ingestão de quantidades insuficientes (ou mesmo a não ingestão) de nutrientes acarretará mau funcionamento orgânico e até degeneração de determinados sistemas. O excesso de nutrientes pode ser tão perigoso quanto a falta, pois, pode resultar em intoxicação e danos aos sistemas e órgãos do animal. Em ambos os casos, o não tratamento destas condições coloca o animal em real risco de vida. Daí a importância da presença de um médico-veterinário ou zootecnista capacitado na área, elaborando a dieta que evitará estes problemas”, alerta.

Como defendido por Bruna, este é um tipo de dieta personalizada para cada indivíduo, com maior teor de água, com controle e conhecimento de cada ingrediente que será utilizado e sem a presença de aditivos sem fins nutricionais, como conservantes, corantes, palatabilizantes, estabilizantes e etc. “Pode, também, ser utilizada como adjuvante em tratamentos de enfermidades e como método de diagnóstico de alergias alimentares”, adiciona.

preparocru
Utensílios devem ser utilizados exclusivamente para o
preparo da refeição do pet (Foto: reprodução)

Mas o veterinário do tutor que possui cão e gato dentro de casa e deseja oferecer essa alimentação a seus pets deve reforçar que, além de cada alimentação ser personalizada para cada animal, cada espécie possui suas necessidades específicas, não sendo possível ofertar a mesma dieta para ambos. “Na composição da alimentação natural crua para um gato, geralmente, há 65% de carnes desossadas, 10% de coração, 10% de vísceras e 15% de vegetais, além de complementos obrigatórios e opcionais. Já na de um cão, a composição se baseia em 30% de carnes desossadas, 5% de vísceras, 30% de vegetais e 35% de carboidratos. Dependendo do profissional e das precisões do animal, a composição pode variar, no entanto, mantêm-se essa proporção de maior quantidade de proteína animal na dieta dos gatos, exatamente por sua classificação de carnívoro obrigatório, enquanto os cães são considerados carnívoros facultativos.

Sobre isso, Sicília, por sua vez, declara que cães precisam de carnes na dieta porque são elas que vão fornecer os aminoácidos necessários ao seu organismo. “Mas o fato de ser crua ou cozida vai depender da opção do tutor. Muitos nutricionistas consideram a modalidade de dieta crua como a mais bioapropriada para a espécie. Porém, o que é, realmente, importante é que ela seja balanceada por um profissional”, reforça.

Ou seja: tutores, passem longe de dietas disponibilizadas na internet e de receitas formuladas para o pet de um conhecido, como insiste a zootecnista. “As dietas alheias não são específicas para o seu cão. O profissional, seja ele zootecnista ou veterinário com pós-graduação em nutrição animal, irá formular uma dieta devidamente balanceada para atender todas as exigências do animal. Uma alimentação mal formulada, sem suplementação, trará grandes danos a longo prazo”, avisa.

Por que indicar essa dieta? Bruna revela que tem como visão pessoal e profissional que a alimentação natural crua não é apenas um modismo, como tantas vezes é referida, mas, sim, o próximo passo na evolução da nutrição animal. “Isso porque, assim como no desenvolvimento da ração, a busca por maior qualidade de vida aos animais nos levou a encontrar esta modalidade de dieta. Isso não significa que a ração deva ser extinta, mas, apenas que a alimentação natural deva deixar de ser um tabu e ser, enfim, reconhecida como uma forma válida de nutrir cães e gatos pela comunidade veterinária. Ao mesmo tempo, tutores e profissionais devem ser melhor informados sobre a alimentação natural, de forma imparcial, esclarecendo todos os aspectos positivos e negativos, para que, então, possam decidir, com conhecimento completo, o que é melhor para o animal”, opina.

Para finalizar, Sicília lista alguns dos benefícios que a dieta caseira crua pode apresentar aos animais que a consomem: diminuição de alergias, melhora na qualidade dos pelos, melhora na imunidade, no caso de dieta cetogênica, que é crua, grande melhora em casos de animais com câncer. “Mas é interessante frisar que, caso o tutor não tenha condições de fornecer uma dieta caseira balanceada para seu animal, o ideal é que permaneça na ração”, aconselha.

A veterinária Bruna também salienta que a prática de adicionar carne crua à ração seca ou úmida é, geralmente, desencorajada por profissionais, pois, como a ração já é balanceada, ao adicionar outros ingredientes de certa densidade nutricional, como a proteína, corre-se o risco de haver desbalanceamento do alimento a ser ingerido.

Seja o primeiro a comentar
Seu comentário foi enviado. Aguarde aprovação.
Erro ao enviar o comentário. Por favor, preencha o captcha e tente novamente.