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Humanização é causa de obesidade e ações inadequadas

Especialista comportamental analisa atual relação entre tutores e pets

Wellington Torres, da redação

wellington@ciasullieditores.com.br

A relação de companheirismo entre o homem e os animais, desenvolvida durante centenas de anos, se encontra em um novo cenário. O termo humanização, recorrente no trato entre os médicos-veterinários e os tutores, levanta questões extremamente importantes para a saúde do animal, como alimentação e comportamento.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, Rio de Janeiro/RJ), em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet, São Paulo/SP), o Brasil se encontra na segunda posição no mundo em número de animais de companhia, com 22,1 milhões de gatos e 52,2 milhões de cães.

Números que, de acordo com a especialista em comportamento animal, Daniela Ramos, da PsicoVet, auxilia ao redesenhar o papel dos cães, por exemplo, na sociedade atual. “Esses animais saíram dos quintais, não comem mais restos, pelo contrário, comem da nossa comida e dormem na nossa cama, eles se tornaram um membro da família”, explica.

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A humanização afeta negativamente os procedimentos
de treinamento do animal (foto: Reprodução)

No entanto, essa nova estrutura apresenta dois lados. A humanização, de acordo com a especialista, da mesma forma que possibilita situações benéficas, como a entrada de cães como acompanhantes em hospitais, terapia assistida por animais e, até mesmo, maior cuidado humano com a espécie, também passou a ocasionar nos companheiros de quatro patas péssimos comportamentos, condicionados pelos próprios tutores.

Segundo Daniela, na educação do pet, a humanização afeta diretamente os procedimentos de treinamento do animal a partir do momento em que os cuidadores passam a interpretar as ações do cão de maneira humanizada.         “O dono chegou em casa, o cão fez xixi fora do lugar e está com cara de pânico, provavelmente porque o humano já está ali encarando ele. Mas esse animal não está assim por quê ‘sabe’ que fez uma coisa errada, na verdade, esse animal sofreu, ele ficou sozinho, tentou chamar o tutor e está longe de querer demonstrar culpa ou arrependimento, mas a humanização faz com que os tutores pensem isso”, exemplificou.

Outro cenário levantado é referente alimentação humanizada, que é quando o tutor passa a oferecer ao cão alimentos da própria dieta.  “Considerando a alimentação humana da atualidade, que, muitas vezes, é excessiva, bagunçada, desiquilibrada e que não entra em uma rotina, isso tudo vai prejudicar o bem-estar do cão”, ressalta.

Segundo a especialista, este comportamento do tutor para com o animal favorece dois grandes problemas: o aumento contínuo da obesidade canina e a promoção de comportamentos inadequados e repetitivos, como os latidos.  

“Os hábitos repetitivos, latir, pular, arranhar e gritar, são um ensinamento que foi condicionado e reforçado pelo tutor que interpretou qualquer agitação como fome e ofereceu alimento”, explica. Ainda de acordo com ela, para os profissionais de comportamento animal é preocupante, já que, em termos de bem-estar, os donos não conseguem entender a raiz do problema.

“A hora que o cão começa a latir o dia inteiro e a família não aguenta mais, ela busca a ajuda de um especialista, mas ela não faz a ligação de que esse comportamento foi criado por ela.  Muitas vezes, as pessoas chegam ao ponto de intolerância e dizem que não viverão mais com o animal, por um comportamento que elas treinam”, enfatiza, ressaltando a importância do suporte realizado pelo especialista que atenderá o caso.

Em relação à obesidade canina, Daniela explica que a frequência dos casos de sobrepeso segue em contínua ascensão, no entanto, o Brasil necessita de atualização de dados quantitativos.

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A obesidade, gerada pelo compartilhamento da dieta humana,
 interfere na mobilidade do cão (foto: Reprodução)

O problema impossibilita que o comportamento natural da espécie seja manifestado, comprometendo o bem-estar do cachorro. “Um cão obeso tem a mobilidade diminuída, se ele não se move bem, ele não explora bem o movimento, o ambiente, ele não brinca, não anda bem, não pula no sofá, no colo, e todo esses são comportamentos naturais, reforçadores e prazerosos para os cães. Dentro do quadro da obesidade, ele já está impossibilitado de fazer tudo isso”, afirma.

No entanto, assim como os problemas respiratórios, o desconforto e dores crônicas também são ocasionados pela obesidade, estes animais não conseguem manifestar comportamentos comunicativos e de apaziguamento, como por exemplo, os calm signals (Sinais de Desconforto).

Daniela explica que existem, no mínimo, 30 desses sinais que envolvem a postura corporal, eles são involuntários e exibidos o tempo inteiro, seja na frente dos tutores ou na presença de outros cães. Como levantar uma das patas, quando o cão está com medo; coçar-se, chacoalhar o corpo, lamber-se, cheirar o chão, encolher-se e o play pall (um convite para a brincadeira), são sinais claros de desconforto.

Ao abordar a humanização, alimentação e bem-estar sob várias vertentes, a especialista em comportamento indica cinco dicas sobre como é possível adequar a alimentação pensando mais em oferta de alimentação. Como a hora de dar, como dar e a quantidade, em prol de melhorar, prevenir a obesidade e comportamentos inapropriados.

São elas: ficar atento ao alimento que será oferecido; utilizar alimentos no treinamento do cão; não alimentar o animal à mesa;  dar amor de outras formas, sem o uso excesso de alimentos, principalmente de dieta humana e promover o enriquecimento ambiental alimentar, que pode ser realizado por meio de brinquedos que possibilitem introduzir petiscos ou ração.

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