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Imunização é a palavra-chave para o combate à raiva nos animais

Doença pode ser repassada aos humanos por meio de arranhaduras e mordeduras

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Doença viral, de caráter agudo, responsável por causar quadros neurológicos gravíssimos, resultando no óbito do indivíduo. Essa é a descrição que o médico-veterinário, pós-graduado em atenção primária em saúde e mestre em doenças infecciosas, Gabriel Nunes de Sales Correa, confere para a raiva. Hoje (28), no Dia Mundial Contra a doença, o profissional elucida que esta, que é uma zoonose, acomete apenas mamíferos, que transmitem, quando infectados, o vírus por meio de mordeduras, arranhaduras ou lambeduras (saliva).

Correa aponta que o ciclo de transmissão envolve tanto animais de companhia, quanto os de produção e silvestres. “Chama atenção, para a manutenção dos ciclos, o morcego: mesmo aqueles que não se alimentam de sangue (hematófagos), como, por exemplo, morcegos que se alimentem de frutas ou insetos, podem transmitir raiva. Quando consideramos o risco para cães e gatos, vale a pena reforçarmos a atenção aos felinos já que, devido ao hábito de caça, o contato com morcegos (principalmente quando caem no chão) é maior”, destaca.

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Gatos devem receber atenção redobrada, já que, devido
ao hábito de caça, o contato com morcegos é maior
(Foto: reprodução)

Como considerado pelo veterinário, é importante citar que cerca de dois a cinco dias antes da manifestação dos sinais clínicos, o animal infectado já estará eliminando o vírus pela saliva. “Isto significa que não haverá percepção de sintomas no pet, mas, caso ocorra uma agressão (arranhadura, mordedura), o risco de infectar outros animais e, até mesmo, o ser humano, é alto”, salienta.

Sintomatologia. De acordo com Correa, os sinais clínicos mais comuns observados tanto no cão quanto no gato são: isolamento do ambiente familiar (os cães são animais sociáveis e não gostam de solidão. Estando doente, o animal prefere locais escuros e sem barulho); latido rouco; hábitos alimentares estranhos; tendência a autoflagelação (o animal poderá morder-se. Geralmente, no local onde ocorreu a mordedura ocorre dormência e coceira); inquietação e nervosismo (pode haver tendência ao ataque. Daí o nome raiva); dificuldade em deglutição (o animal não conseguirá engolir alimentos, tampouco ingerir água. Consequentemente, a salivação aumentará); paralisia ascendente, começando dos membros pélvicos e estendendo-se para os membros torácicos. “Como desfecho, há incoordenação dos movimentos cardiorrespiratórios e o animal vem a óbito. Este ocorre dentro de quatro a cinco dias após o início da manifestação dos sinais clínicos”, insere.

Correa menciona que após o animal ser exposto, a doença não possui tratamento. “Curiosamente, o genoma viral (a partir do momento em que o vírus infecta um animal) desloca-se cerca de 25 a 50mm por dia nos nervos, até chegar ao sistema nervoso central/cérebro. Daí iniciam as manifestações neurológicas”, explica.

Prevenção. A vacinação, segundo Correa, é a principal ferramenta utilizada na profilaxia da raiva animal, principalmente, quando atrelada à educação em saúde. “Estamos falando de uma doença que possui 100% de letalidade (independente da espécie de mamífero acometida). Mesmo que seja um animal que viva em um apartamento e que, raramente, tenha acesso à rua, sob acompanhamento do tutor, necessita ter a vacinação em dia. Construamos o seguinte exemplo: um paciente felino, que resida em apartamento no sexto andar e que não seja vacinado contra raiva. Digamos que a residência tenha proximidade com uma área de mata ou com um parque com árvores frutíferas. Ou seja, haverá, hora ou outra, presença de morcegos. Caso este animal tenha contato com o apartamento e esteja infectado, o felino, possivelmente, terá contato com esse morcego”, relata.

O profissional também declara que, para viagens com cães e gatos, sejam nacionais ou internacionais, a atualização da carteira de vacina é crucial, chamando atenção para vacina antirrábica. “Caso esta esteja desatualizada e não conste a imunização contra a doença, não será permitida a viagem do animal. Quando consideramos viagens a outros países, além da vacina, é necessário que o animal apresente quantidade de anticorpos suficiente para proteção contra a raiva. Todas as solicitações de exames ou constatações de carteiras de vacina são realizadas pelo médico-veterinário durante a emissão do Guia de Trânsito Animal (GTA), possibilitando, assim, que a viagem possa transcorrer dentro das normas de segurança sanitária”, informa.

A principal aliada. O fato é que, na visão de Correa, não realizando a vacinação, tanto o animal quanto o tutor estarão sob o risco de contato com a raiva. “Trata-se de uma doença que, como descrito, não possui cura, é fatal e a única alternativa é a vacinação. Vacinas comerciais, vendidas e aplicadas por veterinários em consultórios e clínicas, são de excelente qualidade, tais quais, vacinas fornecidas gratuitamente pelo Ministério da Saúde (MS).

Neste ano, a campanha nacional de imunização contra a raiva, oferecida pelo MS, atrasou. Segundo o veterinário, ao que tudo indica, o ajuste quanto ao estoque de vacinas para a realização de campanhas vacinais foi postergado devido à renovação do estoque e aumento da produção de vacinas por meio do laboratório responsável. “Por isso, houve modificação no calendário para o ano de 2019. Contudo, Estados prioritários, como alguns da região Nordeste (Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco) e os fronteiriços à Bolívia (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Roraima e Acre), devido ao histórico epidemiológico, receberam as doses em dia”, argumenta. As demais localidades devem receber as vacinas até novembro, segundo o MS.

Rabisin
A Rabisin – I é recomendada para a prevenção da
raiva em pets a partir dos quatro meses de vida
(Foto: divulgação)

Mas, apesar da falta das vacinas doadas pelo governo, Correa defende a importância de buscar as doses comerciais para imunizar os animais de companhia. “Manter a carteira de vacinação anual do pet em dia é fundamental, mesmo com imprevistos, como o que ocorreu na campanha deste ano”, assegura.

Opção no mercado. A vacina Rabisin – I, da Boehringer Ingelheim, é recomendada para a prevenção da raiva em cães e gatos a partir dos quatro meses de vida. A aplicação em dose única deve ocorrer anualmente para manter o pet sempre protegido. A fração líquida deve ser conservada em temperatura entre 2°C a 8°C, sem a necessidade de congelar, e pode ser aplicada por via subcutânea ou intramuscular.

Algumas precauções são necessárias para a administração da vacina: aplicar somente em animais em perfeito estado de saúde e corretamente desparasitados, no mínimo, 10 dias antes da vacinação. Também é orientado não submeter os pets a esforços físicos ou estressantes durante o período da resposta imunoprotetora. Além disso, é preciso tomar as precauções habituais para manipulação de fêmeas em gestação.

O veterinário Correa comenta que o ideal é recorrer a um consultório ou clínica onde o veterinário possa avaliar o paciente, realizando a vacina de forma segura. “É importante salientar que a cada vacinação, ocorre estimulação do sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo, em produzir anticorpos. Entretanto, passado determinado tempo (neste caso, anualmente), a titulação de anticorpos reduz naturalmente, justificando o reforço vacinal. Friso, contudo, que é contraindicado (e até mesmo, proibida) a compra de quaisquer vacinas, por pessoas não capacitadas, para administração por conta própria”, sinaliza.

Sobre isso, o profissional explana que, mesmo que as vacinas sejam crucias para estimulação à produção de anticorpos, quando administradas de maneira inadequada e por pessoas não capacitadas, podem causar problemas. “Por isso, o animal precisa estar saudável para receber a vacina e o único profissional capaz de diagnosticar isso é o veterinário. Mesmo que exista o dispêndio financeiro em realizar a vacina em clínicas, o custo-benefício sempre será favorável tanto para o tutor, quanto para o animal”, assegura.

Experiência profissional. Correa, como profissional atuante na saúde pública há 11 anos, conta que já vivenciou uma série de situações, inclusive, de acompanhar doenças transmitidas por animais com desfecho fatal tanto para as pessoas, quanto para os pets. “Já auxiliei no treinamento de outros profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, dentistas, farmacêuticos e veterinários e confesso: vejo, a cada dia, a importância do médico-veterinário na promoção da saúde dita única, onde a saúde animal, humana e ambiental estão intrinsecamente relacionadas”, observa.

Cerca de 70% das doenças infecciosas são zoonoses, ou seja, são transmitidas dos animais para os seres humanos, de acordo com a Organização Internacional de Epizootias (OIE). “E este fato não deve ser interpretado para que não convivamos com os animais: muito pelo contrário! Deixa clara a importância de compreendê-los para que possamos promover saúde, tendo uma convivência harmônica com seres que nos ensinam, diariamente, o quanto precisamos evoluir para sermos seres humanos melhores”, conclui o profissional que aposta na associação da educação sanitária com informações reais e profilaxia vacinal para o combate à doença. “Essa é a chave para que evitemos maiores problemas”.

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