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Inovação no mercado: veterinária realiza atendimento itinerante

Mesmo com adversidades, Amélia Oliveira não desistiu e honra a profissão

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

“Acho que já nasci médica-veterinária! Desde pequena sempre tive contato com animais e sempre fui apaixonada por todos eles”. Essa é a declaração de mais uma de nossas homenageadas neste Dia Internacional da Mulher: Amélia Margarida de Oliveira.

No entanto, Amélia narra que o sonho foi postergado quando, aos 19 anos, se casou, deixando o desejo de cursar uma faculdade adormecido. “Depois de 10 anos de casamento, filhos pequenos, muitas conversas, desentendimentos e decepções, em 1994, veio a escolha: casamento ou faculdade e, então, me formei em 2001”, conta.

A profissional compartilha que o período em que se dedicou à faculdade e ao trabalho para ter condições de se manter foi árduo e intenso. Inúmeros foram os empecilhos para que ela continuasse trilhando a estrada que a levaria à formação. “Falta de dinheiro e dificuldade em encontrar moradia foram alguns obstáculos desta fase. Não tive colação de grau, não tive festa de formatura, acho que nem tenho meu nome na placa da turma de 1995, da Universidade de Marília (Unimar). Não tenho anel de esmeralda com brilhantes, pedra da Medicina Veterinária (meu sonho), mas tenho meu diploma, que conquistei com meu esforço. Tenho a dedicação e profissionalismo que Deus me concedeu e isso é o mais importante”, garante.

Já formada, apesar das labutas, essa grande profissional desempenha, atualmente, um trabalho honroso: o projeto “Veterinários na Estrada”. “Ele funciona sem apoio de verbas públicas ou de políticos. As ONG’s ou associações que necessitam de controle ético de natalidade de cães e gatos nos contratam, sendo que nosso deslocamento, alimentação e hospedagem são cobrados e também cobramos um valor social, que quita os gastos com materiais, anestésicos, insumos e com um pouco de sobra, afinal, também temos gastos com água, energia, telefone, aluguel, IPVA etc.”, expõe.

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"Seria muito egoísmo da minha parte ficar no aconchego
de uma clínica”, diz Amélia Oliveira sobre o trabalho
itinerante (Foto: divulgação)

O grupo que realiza esse trabalho é composta por quatro integrantes veterinários. “Eu e minha equipe, muitas vezes, abrimos mão do conforto de casa, porém, vale a pena. Sempre temos o auxílio de novos amigos, somos bem recebidos e sempre executamos nosso serviço com profissionalismo”, atesta. As cidades, ONG’s ou associações, hoje, entram em contato devido às mídias sociais, que amplamente divulgam o trabalho executado por eles. “Graças a Deus, nossa agenda está sempre com muitas atividades”, adiciona.

Mudança de ares. Durante algum tempo, Amélia tinha uma clínica particular em São Paulo (SP), onde realizava atendimentos, vacinas, consultas, internação e cirurgias. “Eu estava confortável, tinha meu negócio, uma casa, onde tudo era muito cômodo, até que percebi a necessidade de sair da minha zona de conforto. Havia muito trabalho fora daquelas paredes”, recorda.

A veterinária ainda menciona que, quando foi à Amazônia pela primeira vez, em 2007, foi que sentiu a real necessidade de fazer a diferença. “Eu tinha que fazer algo diante das situações que presenciei. Muitos lugares, cidades, vilas, aldeias e vilarejos sem assistência e eu com tanto conhecimento. Seria muito egoísmo da minha parte ficar no aconchego de uma clínica”, insere.

De acordo com ela, fazer parte do Veterinários na Estrada é abdicar, por algum tempo, de muitas coisas, principalmente da família. “Em nossa equipe, apenas uma veterinária é casada, porém isso nunca interferiu em seu trabalho. Eu e as outras profissionais não temos compromisso. Quando nos perguntam onde moramos, sempre dizemos que moramos por aí, mas passamos um tempo em uma casa na nossa cidade”, brinca.

O projeto, guiado por Amélia, já esteve em vários Estados brasileiros, como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Amazonas, Acre e, também, em locais fora do Brasil, como quando participou de um programa de controle de natalidade no México, mais precisamente, no Estado de Yukatan, junto a veterinários das Filipinas, Estados Unidos, México e Portugal. “Pude perceber, com essa experiência, que eu e profissionais de outros países temos um pensamento em comum e que deve mover todo médico-veterinário: Fazer o bem não importa a quem”, pondera.

Mulher de pulso firme. Em sua atuação como médica-veterinária em clínica e com o projeto Veterinários na Estrada, Amélia revela que nunca passou por situações de preconceito ou discriminação. “Também acredito que nunca abri mão de nada em minha vida por conta da profissão. Sempre tive que fazer escolhas que, consequentemente, anulariam outras, mas sempre estive certa de minhas decisões e segui em frente. Sempre soube que, se eu quisesse algo, tinha que batalhar e conseguir por mérito e com trabalho honesto”, declara.

Exemplo deste empenho profissional foi o ocorrido em Brumadinho (MG), onde Amélia e sua equipe auxiliaram no resgate e tratamento dos animais. “O fato foi importantíssimo em meu crescimento profissional. Nessas ocorrências, percebemos o quanto a Medicina Veterinária é importante tanto em saúde pública, quanto na saúde emocional das pessoas afetadas diretamente nessas tragédias. Muitas pessoas se dirigiam a nós, veterinários, a procura de seus animais, como se procurassem o último suspiro de esperança, em recuperar um pouco de sua dignidade e de sua história”, descreve.

Quando questionada se está realizada dentro do papel que desempenha dentro da Medicina Veterinária e da sociedade, Amélia responde que se realiza um pouco mais a cada trabalho: “Sempre que pego estrada, rumo a novos horizontes, levo comigo a esperança de despertar em outros colegas de profissão esse espírito de liberdade, igualdade e humanidade. Nós podemos fazer muito, utilizando nosso conhecimento. Não podemos ser mais um, temos que ser os melhores! Nossa responsabilidade enquanto veterinários vai além dos limites. Um dos momentos mais difíceis é decidir se desiste ou tenta mais uma vez. Se não começar, não vai saber se dará certo”, considera.

O fato de ser mulher atuante como veterinária e coordenadora de um projeto de visibilidade como este, às vezes, surpreende as pessoas, segundo Amélia. “Mas nunca foi motivo para desabonar meu profissionalismo. O que mais espanta é o fato de, muitas vezes, eu chegar sozinha em alguns lugares ou com minha equipe, composta por mulheres. Nunca foi fácil, mas ninguém falou que seria”, conclui.

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