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Metamorfose ambulante: Professor deve se reinventar para ensinar

Desafios com ou sem pandemia devem ser driblados e atualização é necessária para formar bons profissionais

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Os professores devem ser, sim, considerados mestres na formação de uma pessoa. É por meio do conhecimento desse profissional, bem como a forma com que ele repassa tudo o que sabe, que nos formamos e nos capacitamos (no caso das graduações) para a profissão que escolhermos.

Este profissional deve ser respeitado e também pode ser fonte inspiradora para nossa própria vida. Prova disso é a história do professor Adjunto do Curso de Medicina Veterinária e coordenador da Clínica Veterinária e Jardim Zoológico da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Leandro do Monte Ribas, cuja mãe é professora e o inspirou a seguir a carreira. “Ingressei como docente no ensino superior em 2008. Durante minha graduação, sempre me dediquei a ter experiência profissional como médico-veterinário e em atividades que me aproximassem da docência”, conta.

Já com o coordenador e docente do curso de Medicina Veterinária, da Escola Superior São Francisco de Assis (ESFA), (Santa Teresa-ES), Gabriel Nunes de Sales Correa, a motivação veio de sua educadora da infância, “Tia Margarida”, como a chama carinhosamente. “Foi ela quem me ensinou a ler e escrever. E essa vontade de também ensinar, que existe desde os meus cinco anos de idade, foi só crescendo, já que, aos sete, já brincava de dar aulas”, relembra.

Ele conta que, quando entrou na faculdade, em 2003, e teve contato com seus professores, decidiu, naquele ano, que, um dia, daria aula. “Leciono desde 2017, onde iniciei em um curso de auxiliar veterinário. Conseguintemente, em 2019, entrei na ESFA pleiteando uma vaga para docência e fui convidado para assumir a coordenação do curso (além da docência). Mesmo que desafiador, aceitei. E não me arrependo, já que, quando o desafio é bom, faz com que o sangue corra em nossas veias”, destaca.

Trabalhar com alunos de diferentes idades e diferentes
objetivos pode ser desafiador, como foi para um de nossos
entrevistados (Foto: reprodução)

Se desafiar para ensinar. Considerando, de modo geral, a questão do ensino, o que Correa observou como percalços que necessitavam de resolução foram: como não ser chato e extremamente conteudista aos alunos e como dinamizar o aprendizado com dinâmicas pedagógicas que não engessassem o aluno apenas a uma única metodologia de ensino. “Uma coisa é certa: lecionando, é crucial que o docente transpareça confiança e serenidade nas respostas, mesmo que, hora ou outra, surjam perguntas capciosas! Frente a isso, direcionado ao ensino da Medicina Veterinária, observei, também, alguns desafios pontuais”, aponta.

Entre eles, como descrito pelo profissional, como oferecer a vivência prática e associar um tema abordado em sala de aula: “Nem sempre isso é tão fácil, de acordo com o tema abordado. Por exemplo, durante as aulas de Inspeção de Produtos de Origem Animal, obtive certa dificuldade de acesso a indústrias de alimentos e frigoríficos-abatedouros, para que os alunos acompanhassem de perto, desde o processo de abate, até a aquisição do produto final. Logo, o que pensei: ‘Se pensarmos no churrasco (grande paixão nacional) como um exemplo de produto de origem animal, logo, meus alunos poderiam compreender melhor sobre melhoramento genético, padrão de qualidade, legislação vigente e normas sanitárias, caso conhecessem diferentes cortes de carne ou, até mesmo, diferentes tipos de carnes de outras espécies animais, que não apenas, bovinos’. Assim, fiz uma aula de churrasco onde eu cozinhei para meus alunos, explicando sobre maturação de carne, controle de frio, marmoreio (padronização de gordura entremeada a fibras musculares), maciez e inspeção sanitária de produtos inspecionados adequadamente. Resultado? Sucesso total! Conhecendo o sabor, aprende-se sobre qualidade de alimentos, logo, padrões sanitários e a importância do processo de inspeção. Fiz o mesmo com inspeção de leite e derivados, onde preparei uma aula de degustação de queijos finos com harmonizações de geleias e mel (ambos, produtos também de inspeção obrigatória)”, reforça.

O docente viu que, com essas experimentações, o aluno vivencia algo que foge ao teórico, tendo experiências onde é possível entender e compreender e não apenas gravar. “Com isso, objetivo que cada um de meus alunos saibam fazer e façam. Ou seja, há o desenvolvimento de habilidades frente ao aprendizado e compreensão acerca de competências específicas”, argumenta,

No caso de Ribas, desde que ingressou neste trabalho, ele revela que encontrou algumas dificuldades pelo caminho, tais como ministrar aula graduado como bacharel. “Os cursos de Medicina Veterinária são de bacharelado o que se opõe à licenciatura. Assim, a vivência durante a graduação para a carreira docente é mínima e faz falta, especialmente, no início do trabalho como docente”, explica.

Além disso, também foi um desafio para ele aprender a trabalhar com alunos de diferentes idades, com diferentes objetivos dentro de uma ciência tão complexa como a Medicina Veterinária. “Junto a isso, encontrar a melhor forma de desenvolver o conteúdo clínico, que exige muito conhecimento básico e raciocínio. Ao longo dos 12 anos como professor, tenho aprimorado a forma de trabalhar habilidades clínicas com os alunos”, menciona.

Conduzir as aulas teóricas por plataformas digitais
exigiram grandes aprendizados durante o período
de distanciamento social (Foto: reprodução)

As adversidades não param por aí, segundo a vivência de Ribas: Ele ainda cita que, com a Medicina Veterinária moderna, surgiu um grande desafio: ter o equilíbrio entre o uso de animais no ensino e o bem-estar animal. “O uso de métodos alternativos é um avanço na nossa ciência, mas precisamos lembrar que a vivência com animais vivos é de extrema importância para o nosso egresso”, pondera o professor que também analisa a atualização das tecnologias digitais e as novas gerações: “Noto a diferença de 2008 para 2020, em especial em tempos de pandemia”, adiciona.

Aulas a distância. Este é um momento delicado no ensino, na visão de Ribas, em todos os cenários da educação. “A formação em Medicina Veterinária exige o desenvolvimento de habilidades que só são alcançadas pela prática. Desta forma, o que estamos buscando, neste momento de incertezas, é minimizar os danos à formação do nosso egresso”, salienta.

Para tanto, com todas essas mudanças, Ribas revela que foi preciso aprender algumas coisas para ensinar neste 2020 caótico. “Inicialmente, a ter serenidade mental. Ter a calma para enfrentar este momento que coloca não só nossos familiares em risco, mas a humanidade. Quanto ao exercício de professor, foi imprescindível se reinventar nas metodologias de ensino, em especial na forma digital. Conduzir as aulas teóricas por plataformas digitais e as aulas práticas presencias exigiram grandes aprendizados e paciência”, garante.

Correa, por sua vez, concorda que 2020 foi bem impactante para todos. “Tanto nós, professores, quanto os alunos, fomos surpreendidos repentinamente na modificação imperativa no que tangia ao ensino. Se outrora estávamos sempre perto, agora, encontrávamo-nos distantes, diante de uma fria tela de computador, reféns de um sinal de internet que, por muitas vezes, travava e não conseguíamos nos comunicar direito. Foi um momento reflexivo e de grande aprendizado”, avalia.

Por alguns instantes, na visão de Correa, o professor, mesmo que diariamente tenha empenho em dar o seu melhor, encontra-se em fases de estagnação, onde mantém as aulas dentro de um molde. “Desta vez, isso não foi possível. Aulas tiveram de ser reinventadas e metodologias tiveram de ser revistas. O que antes era suficiente, agora tornou-se insuficiente para um ensino remoto, o que demandou um esforço hercúleo de remodelagem de aulas e adequações pedagógicas. Até porque, como manter, agora, um aluno entretido durante quase três horas na modalidade on-line, sem que houvesse a perda de foco ou defasagem de ensino? Como não ser conteudista, já que, caso isso ocorresse, nem sempre a explicação chegaria em tempo real para todos (considerando as disparidades do sinal de internet)? Confesso ter sido desafiador”, compartilha.

Mas algo que se tornou padrão nesse momento para o docente foi, antes de qualquer aplicação de conteúdo, perguntar a todos os alunos como eles estavam e ouvi-los. “Sempre, oos 10 a 15 minutos iniciais de aula, era para saber como estavam. Até porque, se o foco das aulas eram os estudantes, não adiantaria nada entupir a cabeça de cada um com matéria, sem saber se a cabeça estava saudável para aprender (e sabemos: nem sempre estava)”, indica.

Para ser um professor capacitado para ensinar
os graduandos, é preciso realizar cursos de
atualização em sua área (Foto: reprodução)

Métodos de ensino em 2020. Na opinião de Correa, substantivos (mesmo que abstratos) necessários nesse período de aulas a distância foram: compreensão, razoabilidade e paciência. “Por meio da compreensão, eu me colocava no lugar de cada aluno e pensava: ‘Se eu fosse aluno, o que eu não gostaria de ouvir de um professor, por horas a fio?; Se eu fosse um aluno o que, para mim, seria difícil de compreender e, até mesmo, chato caso fosse abordado?; Se eu fosse aluno e não tivesse acesso à internet, o que eu esperaria/gostaria que meu professor fizesse?’”, narra.

Para Correa, por exemplo, se fosse aplicada uma atividade avaliativa, ele não poderia exigir o mesmo que seria exigido em uma sala de aula. “Logo, pensei: liberdade criativa! Propunha criação de vídeos, cartilhas, podcasts, folders, apresentações em Power Point; ou seja, dava liberdade aos alunos em criarem e/ou recriarem situações discutidas em sala de aula. Resultado? Aproximação e compromisso. Sucesso, já que o dinamismo ao produzir fazia com que os alunos desenvolvessem habilidades que, por muitas situações, eles mesmos não tinham conhecimento acerca de seu potencial. E, como cereja desse complexo bolo, a paciência. Essa, sempre necessária, para que fosse criada uma coesão de todo o processo pedagógico e reforço ao elo aluno-professor”, comemora.

No geral, para ser um professor capacitado para ensinar os graduandos, Ribas acredita que é preciso realizar cursos de atualização em sua área de formação profissional. “Na área da docência, é necessário estar atento e atualizado por meio de capacitações em atividades pedagógicas, em formatos modernos que facilitem o processo de ensino e aprendizagem”, opina o docente que acredita que os professores de ensino superior são mais valorizados, de certa forma, pela sociedade e pelos próprios estudantes: “Talvez essa valorização ocorra pelo fato de finalizarmos a formação de um profissional. Sou da opinião de que os professores do ensino fundamental e médio deveriam ser melhor valorizados, tanto na profissão quanto na remuneração. O egresso do ensino superior inicia sua formação do ensino fundamental, estes professores são a base de tudo”.

Correa destaca, também, a atualização constante de professores para que alunos estejam preparados para o mercado de trabalho, com pontos voltados para a vivência profissional, como por exemplo: realidade de mercado; desafios reais enfrentados por profissionais recém-formados; concursos públicos x funcionalismo público; áreas de atuação x leque de possibilidades. “Por meio de observações alheias, vi que muitos graduandos se formam sem ter noção do que (e como) cobrar frente a um serviço realizado ou, então, com uma falsa ilusão de que tudo será perfeito – e isso, para qualquer profissão, sabemos que é irreal”, salienta.

Assim, em sua visão, é necessária perseverança dos alunos, junto à perspicácia e sapiência na utilização dos conhecimentos adquiridos no transcorrer do curso. “Uma das coisas que falo, hora ou outra, com os alunos é: nem sempre, uma nota alta possibilitará uma abertura de vaga de emprego. Inteligência não é sinônimo de sabedoria. É necessária sabedoria para utilizar suas habilidades (ou seja, a inteligência) e isso, associado com a atualização profissional, faz com que o aluno recém-formado, realmente, esteja preparado para o mercado profissional. Por isso, sempre prezo para que minha equipe docente esteja preparada para trazer, às salas de aula, desafios reais do dia a dia, para que os alunos tentem dar soluções reais. Ou seja, associo a atualização profissional com o desenvolvimento de habilidades”, expõe.

E, sobre o empenho e a valorização do professor de ensino superior, Correa é taxativo: “Alguns profissionais caem de paraquedas no ensino, como uma possibilidade de emprego. O que é bom, considerando o trabalho dentro da área. Contudo, nem sempre o empenho acaba sendo reflexivo com o cargo ocupado. O que eu quero dizer com isso: educar não deve ser enxergado como ‘mais um bico’, mas, sim, como uma profissão digna e de importância magna perante à sociedade”.

O docente ainda deixa um recado a todos os seus colegas professores: “Sigamos fortes e confiantes em nosso trabalho. O caminho é árduo, mas a recompensa é divina! Sinto-me muito feliz por ser um profissional da educação e por levar a luz da sabedoria, em meio às trevas da ignorância. E se eu pudesse dar um conselho aos meus amigos professores, seria: ouça sempre os seus alunos. Quando eles chegarem até você, pare o que estiver fazendo e ouça, mesmo que seja rápido. Não será tempo gasto, mas, sim, investido. É como sempre digo: tudo isso, é por vocês e para vocês, meus alunos, 24 horas por dia”, encerra.

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