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Nomeação de veterinário ao Ministério da Saúde gera piadas on-line

Médicos-veterinários não cuidam só de pets: garantem a saúde, também, dos humanos e do ambiente

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

É sério que, em pleno ano de 2020, diante de uma pandemia de uma doença considerada zoonose, as pessoas ainda não reconheçam o valor do médico-veterinário? Essa é a pergunta que me faço, observando, nas redes sociais, as piadas após o médico-veterinário Lauricio Monteiro Cruz ser nomeado para dirigir o Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, do Ministério da Saúde (MS). Essa não é apenas uma indignação minha!

A médica-veterinária atuante na área de inspeção sanitária e controle de qualidade de alimentos, Camila Rosales Lopes de Souza, indica que esse tipo de reação das pessoas só demonstra como a sociedade tem pouco conhecimento em relação às atividades voltadas à Saúde Única, que o veterinário exerce. “Temos profissionais super capacitados atuando nos principais órgãos fiscalizadores e nas instituições que elaboram vacinas, medicamentos e cosméticos. Temos, ainda, uma grande quantidade de testes que são realizados em animais, antes mesmo de serem aplicados em seres humanos. As linhas de cosméticos estão conseguindo abrir mão destes testes, diferente das vacinas e medicações, que levam um processo mais complexo”, menciona.

Entre as atuações do veterinário, ele está nos órgãos
fiscalizadores e nas instituições que elaboram vacinas,
medicamentos (Foto: reprodução)

A profissional também aponta a seguinte situação: “Grande parte da população mundial realiza a alimentação por meio do consumo produtos de origem animal e, por isso, o médico-veterinário atua desde o gado, até o supermercado, para garantir que os alimentos sejam disponibilizados à população com o menor risco possível”.

Falamos, também com o médico-veterinário CEO VetGroup Holding AS, Fabiano de Granville Ponce, que acredita que as “brincadeiras de mau gosto” sejam reflexo de um processo, talvez, atemporal, agravado pela enorme quantidade de faculdades de Medicina Veterinária (em torno de 400. Como comparação, os Estados Unidos têm 20, segundo ele). “Esse processo resulta em uma classe bastante fragmentada, por vezes, pouco ética e desunida. Soma-se a isso um conceito arraigado em nossa sociedade de que o veterinário trabalha, exclusivamente, por carinho à profissão, como se não tivesse seus boletos para pagar. Em zonas urbanas, há a visão de que o veterinário é ‘apenas’ o médico de pets. Ele é muito mais que isso: responsável por liberar a carne para consumo humano, corresponsável pela produtividade do agronegócio, presente em pesquisas de ponta (de vacinas a projeto de genomas, passando por antibióticos e tantos outros fármacos), corresponsável pela manutenção do meio-ambiente (sustentabilidade), entre tantos outros”, cita.

Como reagir? Ponce considera que os veterinários não devem (como classe), passivamente, esperar respeito da sociedade. “Entendo que devemos ser proativos, mostrar quem somos, como estamos inseridos na sociedade, de que maneira contribuímos para produzir riquezas para o País e, sim, nossa importância como médicos dos pets, entes cada vez mais importantes, inclusive, para a saúde mental do ser humano”, pondera o profissional que aponta: “Todos nós, em algum momento, ouve a piadinha de ‘ah, mas o fulano, veterinário, pode cuidar de você’. No contexto que ‘você’ é uma pessoa ‘rústica’, pouco sensível”.

As pessoas devem buscar informações sobre as
possíveis atuações do veterinário antes de julgar
toda uma classe profissional (Foto: reprodução)

Para ele, cabe ao MS, como órgão do Estado, esclarecer a população. “Não é favor. É dever! Talvez, a melhor maneira seja enumerar as diferentes funções, conhecimentos e formação (as que supra citei, por exemplo) do médico-veterinário”, avalia. Por outro lado, ele também lembra que a classe tem seus órgãos competentes, destacando-se os Conselhos Regionais e o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). “Talvez, aqui, esteja o caminho mais assertivo. Individualmente, de forma pulverizada e pouco coordenada, acredito que o resultado não seja tão produtivo”, observa.

Na visão de Ponce, as movimentações nas redes sociais, transformando em piada a nomeação do veterinário, são apenas mais um episódio que alimenta o preconceito com a classe, gerando mais discriminação. “Não dá para ‘virar a chavinha’, mas são necessárias atitudes por parte dos órgãos de classe (incluído aí o MS, sobretudo quando falamos em Saúde Única), que questionem e orientem, ou seja, posicionem-se sempre que algo semelhante ocorrer. É o início de uma caminhada longa, mas temos que dar o primeiro passo”, argumenta o profissional que ainda defende: “Independentemente de ser militar ou civil, veterinário ou não, o importante é mostrar competência e entregar resultados. Laurício, como médico-veterinário, tem uma formação que possibilita sucesso nesse desafio”.

Camila defende que, primeiramente, as pessoas devem se interessar em buscar informações antes de julgar toda uma classe profissional. “Na área da saúde, temos diversos profissionais que sofrem preconceito por simples falta de conhecimento da sociedade. Outro ponto é o interesse dos meios de comunicação em passar informações fundamentadas em fatos ao invés de informações que possam prejudicar toda uma classe profissional, simplesmente para receber algumas curtidas”, explana.

Como atuante na área de inspeção sanitária e controle de qualidade de alimentos, a maioria das pessoas demonstra espanto em saber que Camila é veterinária. “O questionamento mais frequente que recebo é: ‘Mas você não pensa em atuar na sua área?’. Logo, explico sobre a inspeção dos produtos de origem animal e que é uma das nossas áreas de estudo. Referente ao preconceito camuflado de piadas, ele sempre vem das pessoas que não tem noção da nossa atuação”, compartilha.

As piadas recentes são mais um episódio que alimenta
o preconceito com a classe, gerando mais
discriminação (Foto: reprodução)

Para a veterinária, partindo da premissa de que os profissionais estão tentando expandir a compreensão da sociedade referente às suas áreas de atuação, essa discriminação incentiva o público a pensar que estes não são capacitados. “Nossa área de estudos é extensa e não deve ser resumida somente à clínica. Zoonoses, Epidemiologia, Legislação, Microbiologia, Farmacologia, Análises Clínicas, Tecnologia de Produtos de Origem Animal, são algumas das várias disciplinas que estudamos e nos mostram as diversas possibilidades que temos ao nosso alcance”, enumera.

Apesar de toda a negatividade que essas piadas podem trazer à profissão, para Camila, é preciso seguir firme em busca da expansão da consciência e do conhecimento da sociedade, independentemente dos comentários daqueles que não buscam o mínimo de informação. “Um médico-veterinário assumindo este cargo é um exemplo da nossa capacidade e o preconceito é um exemplo de como a população necessita conhecer mais sobre nós. Que cada vida que protegemos seja o maior incentivo para continuarmos firmes, independente dos preconceitos provindos da ignorância. Mesmo que eles não saibam (tanto os animais, quanto os seres humanos), vamos continuar protegendo-os”, assegura.

Complementando a ideia de Camila e como também estamos condicionados a ver o lado bom de todas as coisas, Ponce acredita que essa repercussão pode ser positiva, no sentido de dar o primeiro passo para que a classe comece a ser mais reconhecida e, portanto, mais respeitada pela sociedade.

Bem-vindo ao cargo! Lauricio Monteiro, nomeado ao Ministério da Saúde, é médico-veterinário formado, pelo Centro Universitário de Desenvolvimento do Centro Oeste (UNIDESC), possui mestrado pela Universidade de Brasília (UNB). Sempre atuou pela Saúde Pública e tem experiência na área de Saúde Coletiva e Vigilância Ambiental em Saúde, Vigilância Epidemiológica, Vigilância Sanitária e Vigilância do Trabalhador com ênfase em Zoonoses e Doenças transmissíveis.

Sobre o novo desafio a ser enfrentado, ele garante se dedicar para desempenhar seu trabalho da melhor forma. “A sociedade poderá ter certeza que irei me empenhar para oferecer à população tudo o que aprendi ao longo de 31 anos dedicados à Secretaria de Saúde do Distrito Federal”, salienta e reitera que substitui o também médico-veterinário Marcelo Wada, que ocupava o cargo interinamente.

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