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Pesquisadores da USP buscam novas formas para tratar a raiva

Cientistas apostam em composto de proteínas para oferecer anticorpos

Uma forma inovadora para tratar a raiva foi proposta por um estudo da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), da Universidade de São Paulo (USP). A doença é negligenciada e, anualmente, mata mais de 60 mil pessoas no mundo, a maioria na África e na Asia. 

Os cientistas do Laboratório de Raiva da FMVZ utilizaram um composto de proteínas – espécie de “cavalo de Troia do bem” – para carregar os anticorpos contra o vírus da raiva até dentro das células cerebrais de camundongos infectados. Os anticorpos conseguiram inibir a ação do vírus de modo intracelular, impedindo a replicação e a infecção das outras células. 

Dos dez animais infectados que receberam o tratamento, sete sobreviveram sem nenhuma sequela neurológica e três morreram em decorrência da raiva. No grupo controle, a mortalidade foi de 90%. Esse grupo também recebeu anticorpos contra raiva, porém, sem o agente carreador. Isto sugere que os anticorpos precisam entrar na célula para inibir o vírus. 

De acordo com o biólogo autor da dissertação de mestrado que investigou o tema, Washington Carlos Agostinho, são resultados iniciais, ainda é preciso testar em outros modelos e ampliar o número de animais submetidos a tratamento para poder confirmar, efetivamente, que esse tratamento é promissor. A orientação do trabalho foi do professor Paulo Eduardo Brandão, coordenador do Laboratório de Raiva. 

Segundo Brandão e Washington, de todas as doenças negligenciadas que existem atualmente no mundo, a raiva é a que mais se destaca entre elas. A doença é fatal em praticamente 100% dos casos. Até hoje, foram relatados somente cinco casos de pessoas que conseguiram sobreviver após apresentarem os sintomas da doença: todas ficaram com sequelas, como paralisia e dificuldades de fala. 

Ultrapassando barreiras. A proposta da pesquisa de Agostinho, “Transfecção de anticorpos como terapia antiviral para a raiva”, foi desenvolver um tratamento para quando os sintomas da doença já estão instalados. Em relatos de casos humanos, há ocorrência de mal-estar, tontura, náuseas e vômitos, dores musculares e de cabeça, dificuldade em falar e engolir, espasmos musculares e confusão mental. Ocorre aumento da temperatura, hipersensibilidade a ruídos e à luz, além de hidrofobia – aversão à água e nome pelo qual a doença também é conhecida. 

Transmitido pela saliva de mamíferos infectados, o vírus da raiva, do gênero Lyssavirus, penetra na pele por meio de escoriações causadas pela mordedura ou arranhadura do animal. O vírus se move ao longo do sistema nervoso periférico, uma rede de neurônios que se ramificam desde as extremidades, como dedos e pés, em direção à medula espinhal. Assim que o vírus da raiva chega aos gânglios da raiz dorsal e medula espinhal, segue em direção ao sistema nervoso central e depois se espalha para o cérebro. Quando os sintomas ocorrem é porque o vírus já percorreu o sistema nervoso periférico e chegou ao sistema nervoso central. Neste estágio, há muito pouco a fazer. 

Um dos grandes problemas no tratamento da doença, segundo o pesquisador, é fazer os fármacos ultrapassarem a barreira hematoencefálica, uma proteção natural do corpo, espécie de cordão de isolamento que impede que vírus, fungos, bactérias e outros corpos estranhos – entre eles, os anticorpos contra o vírus da raiva – cheguem ao sistema nervoso central. Foi então que os pesquisadores decidiram agir, exatamente, neste local. 

Washington explica que o lado externo das células apresenta algumas proteínas aderidas que conferem a elas uma carga elétrica negativa. Já os anticorpos também apresentam carga elétrica negativa. Aqui vale lembrar das aulas de Física, em especial das que tratam de eletricidade: cargas elétricas de sinais iguais se repelem, cargas elétricas com sinais diferentes se atraem. 

E é aí que entra o “cavalo de Troia do bem”. Trata-se de um composto lipídico catiônico que apresenta carga positiva. Esse composto foi utilizado para englobar o anticorpo do vírus da raiva. É como se o composto fosse uma mochila, e o anticorpo, o conteúdo dentro dela. Dentro do composto, o anticorpo foi empacotado pela carga positiva. 

Como as células têm carga negativa e o anticorpo dentro do composto passou a ter carga positiva, quando os pesquisadores inocularam o “cavalo de Troia do bem” dentro do encéfalo dos camundongos infectados, célula e anticorpo se atraíram. O anticorpo entrou na célula (processo chamado de transfecção), onde conseguiu atacar o vírus da raiva, impedindo sua replicação e a infecção de outras células. 

Fonte: FMVZ-USP, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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