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Por que Cardiologia? Veterinários comentam a escolha da especialidade

Pesquisas e medicamentos são grandes aliados para um bom atendimento

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Não resta dúvidas de que o coração é o órgão mais importante do corpo de todos os animais. Tão essencial quanto ele, é o profissional que o mantém em bom funcionamento, evita que doenças se instalem, garantindo, assim, bem-estar e qualidade de vida ao indivíduo. Neste Dia Nacional do Cardiologista (14 de agosto), focamos na questão “Por que cardiologia?” direcionada a veterinários atuantes da especialidade.

O médico-veterinário que possui atuação em Cardiologia, no Setor de Cardiologia Veterinária, da Unesp Jaboticabal, e no Laboratório de Cardiologia Comparada, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Matheus Folgearini Silveira, narra que, no decorrer da graduação, em especial nas disciplinas do ciclo básico, começou a se interessar sobre a morfofisiologia cardiovascular e, desde então, não parou os estudos. “Por meio de estágios em clínicas e hospitais veterinários, pude acompanhar casos clínicos e me interessar continuamente. Quando defini que pretendia ser Cardiologista Veterinário, muitos colegas me olhavam com estranheza na época, mas me espelhava nos grandes professores que desbravaram a especialidade para nortear minha carreira”, compartilha.

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Especialidade tornou-se importante para a saúde dos
pets quando a expectativa de vida dos mesmos
aumentou (Foto: reprodução)

Por sua vez, o interesse do veterinário sócio proprietário da Naya Cardiologia Veterinária e coordenador e professor dos Cursos de Cardiologia da Naya Cardiologia Veterinária e da Especialização em Cardiologia Veterinária, da Faculdade Anclivepa-SP, Ronaldo Jun Yamato, surgiu no quarto ano da faculdade, quando foi convidado a desenvolver um projeto de iniciação científica pela Professora Maria Helena Matiko Akao Larsson, no qual o tema envolvia nutrição em cães cardiopatas. “Desde então, a Cardiologia Veterinária faz parte de minha vida profissional, sendo que os temas de meu mestrado e doutorado foram, também, na área da Cardiologia e sempre sob a orientação de minha querida professora Maria Helena”, destaca carinhosamente.

Já atuando na área, Silveira percebeu que os desafios que os cardiologistas veterinários enfrentam são inúmeros. “A especialidade está em constante atualização e manter-se a par dos consensos veterinários é uma das dificuldades. Desde 2017, foram divulgados quatro consensos e isso tende a ser mais frequente com o passar dos anos”, comenta. Outra questão levantada pelo profissional é que ainda existem problemas na realização de exames pré-operatórios, pois muitos cardiologistas continuam indicando apenas o exame eletrocardiográfico, sendo que, aliado ao exame ecocardiográfico, é possível traduzir informações mais concretas no sistema cardiovascular do paciente para um controle anestésico adequado. “Muitos pacientes não apresentam disfunção no sistema de condução, mas podem apresentar déficit de contratilidade e alterações estruturais significativas que devem ser averiguadas com a devida atenção”, aponta.

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O veterinário Ronaldo Jun Yamato é sócio-proprietário
da Naya Cardiologia Veterinária (Foto: divulgação)

Para Yamato, a especialidade tornou-se de grande importância para a saúde dos pets a partir do momento em que a expectativa de vida dos mesmos aumentou, nos últimos anos. “O desenvolvimento da Medicina Veterinária, principalmente a clínica médica e cirúrgica de cães em gatos, permitiu aos tutores destes animais o acesso a muitas possibilidades de diagnóstico e tratamento de doenças que acometem os animais, incluindo as cardiopatias”, comenta. Este desenvolvimento, segundo ele, também permitiu o aprimoramento de terapias de doenças que, anteriormente, não eram tratadas ou tinham limitações em seu tratamento por conta da espera de resultados de pesquisas científicas. “Com o aumento da expectativa de vida destes pets, houve maior incidência de doenças cardíacas, que, em sua maioria, acometem os cães e gatos em idades mais avançadas. A Cardiologia Veterinária, então, tornou-se de grande importância e indispensável para a saúde dos pets”, considera.

Se aprofundar no tema. Além de bons métodos de diagnóstico, Silveira destaca o quão importante é o surgimento de pesquisas e medicamentos focados em cardiologia de pequenos animais: “Quando comecei a atuar, logo depois da minha graduação, o acesso aos fármacos voltados para cardiopatas de uso veterinário era restrito, sendo que apenas um medicamento de uso específico para tais pacientes era comercializado. Hoje, temos acesso a uma gama ampla de medicamentos com fármacos estudados por grupos de pesquisa estadunidenses e europeus, norteando a prática clínica baseada em evidências com o intuito de uma terapia eficaz”, avalia. 

Sobre isso, Yamato ilustra a importância de estudos sobre a temática apontando a descoberta de um fármaco inodilatador, que está revolucionando o tratamento da insuficiência cardíaca nos cães e gatos. “Este fármaco tem efeitos benéficos e significativos em melhorar a qualidade de vida e aumentar a sobrevida nos cães e gatos cardiopatas”, assegura. 

Também neste sentido, no Brasil, Matheus Silveira acredita que o ramo está avançando a largos passos. “Procedimentos antes sonhados, hoje são realidade clínica e cirúrgica dentro da especialidade. Existem centros especializados que realizam a implementação de marcapassos em pets com bradiarritmias (ritmo cardíaco abaixo do fisiológico e potencialmente letal), assim como a correção cirúrgica de defeitos congênitos por meio de procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos”, cita. Segundo ele, em outros tempos, esses pacientes teriam uma expectativa de vida reduzida ou não seriam propriamente diagnosticados. 

Além disso, Silveira indica que nosso País é referência na América Latina quando falamos dessa ocupação, onde diversos profissionais buscam atualização nos centros de referência brasileiros. “As ferramentas de diagnóstico empregados na rotina pelos colegas cardiologistas não diferem dos demais países referência na Medicina Veterinária, sendo assim, os cães e gatos recebem a atenção merecida com tecnologia médica de ponta”, adiciona.

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Matheus Silveira é doutorando em Clínica Médica de
Pequenos Animais, com ênfase em Cardiologia Veterinária,
na Unesp (Foto: divulgação)

Para ser um especialista. Na visão de Silveira, o veterinário que deseja caminhar pela estrada da cardiologia deve ter muita resiliência. “Pelo próprio significado do termo, devemos ter uma reação positiva frente às adversidades inerentes ao processo de tornar-se um especialista. A curva de aprendizado perpassa desde conhecimentos anatômicos e fisiológicos bem fundamentados até formas de diagnóstico avançadas, similares aos que temos na Medicina. Para podermos compreender e aplicar a cardiologia, é necessário compreender física e matemática, muitas vezes, conteúdos não tão bem quistos pelos colegas”, opina.

Indo além, de acordo com Silveira, o profissional deve lembrar constantemente de que está prestando atendimento médico a um animal e não a um sistema em si. “A compreensão da totalidade do nosso paciente, proporcionando um bem-estar por meio de uma abordagem consolidada, baseada em evidências, tende a ser bem-sucedida. Todavia, percalços fazem parte da construção profissional e a resiliência é uma virtude a ser exercida por qualquer proponente à cardiologista veterinário, buscando, constantemente, a saída da zona de conforto e se tornndo mais aberto a novos conceitos e quebras de paradigmas, essenciais no pensamento crítico tão necessário no cotidiano. A verdade absoluta de hoje pode ser refutada amanhã e isso faz parte da evolução natural da ciência, devendo ser abraçada por qualquer profissional que vislumbre a atuação”, discorre.

Em busca de conhecimento. Assim, como dica aos graduandos de Medicina Veterinária que já desejam ser cardiologistas, Silveira deixa um recado: “Durante a graduação não é possível abordamos a especialidade com toda a ênfase necessária, tendo em vista a ampla gama de especialidades dentro da área de Medicina Interna de pequenos animais. Mesmo que em algumas instituições de ensino tenham especialistas atuando na prática clínica e por meio de disciplinas optativas, o discente não deve esperar que todas as informações sejam repassadas minuciosamente, mas, sim, procurar vivenciar a especialidade por meio de estágios com profissionais qualificados e acompanhar os periódicos de referência na área”.

Yamato ainda adiciona que, como a especialidade vem se desenvolvendo e crescendo rapidamente, a quantidade de informações e os novos estudos são enormes. “Portanto, o quanto antes os estudantes interessados iniciarem suas atividades relacionadas à cardiologia veterinária, melhor estarão preparados para atuar no mercado de trabalho que está cada vez mais exigente”, aconselha.

Segundo o profissional, o veterinário cardiologista encontrará satisfação em realizar seu trabalho. “O fato de poder proporcionar o bem-estar aos nossos pacientes, que, por sua vez, não conseguem expressar sofrimento por meio de palavras e, sim, por um olhar ou um gesto marcante, é um momento de muita satisfação e felicidade. Poder testemunhar a recuperação de um pet e este lhe agradecer da sua forma, com latidos, lambidas ou até mesmo uma mordida, é uma sensação indescritível. Isto nos motiva a buscar novos conhecimentos e ensinamentos de forma contínua”, sublinha.

A área ainda não possui um Título de Especialista, como lembra Silveira, mas a Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV) está em processo de validação do mesmo, referendado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). “Os cardiologistas, usualmente, atuam na especialidade depois de realizarem cursos de pós-graduação, mas, diferentemente da Medicina, por enquanto não temos uma prova de título”, menciona. No entanto, como inserido por Yamato, o exame para a obtenção do Título de Cardiologista Veterinário, está previsto para 2020. “Este exame será um grande avanço para a atuação, pois será a certificação oficial, garantindo, assim, que profissionais possam exercer esta especialidade e atuar de forma competente no mercado de trabalho”, conclui.

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