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Profissionais apontam pontos fortes e fracos de métodos alternativos

A presença de animais vivos para ensino e pesquisa ainda gera debates

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Em uma face da moeda, a busca por conhecimento; na outra, a garantia de bem-estar aos animais. Essas são as visões defendidas quando o assunto é a utilização de pets vivos para ensino e pesquisa ser substituída por métodos alternativos de aprendizagem, que, hora ou outra, ganham novos modelos.

Como aluna, a discente do 6º semestre de Medicina Veterinária, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT, Cuiabá/MT), e estagiária da Clínica Cirúrgica de Animais de Companhia, no Hospital Veterinário (HOVET) da instituição, Brunna Luísa Peres, já se viu diante de algumas aulas práticas onde não se sentia confortável em realizar o que era proposto devido aos eventuais prejuízos que o animal, ou seja, o objeto de estudo da aula, pudesse sofrer. “A ausência de modelos alternativos interfere no aprendizado. Muitos alunos, como eu, se negam a utilizar os pets em aula, visando o bem-estar deles”, compartilha.

A graduanda ainda exemplifica situações que, em sua visão, são desagradáveis: “Não me sinto confortável para tentar fazer um acesso venoso, por exemplo. Imagina o estresse de ser furado mais de uma vez, porque eu errei diversas tentativas. Em termos de pesquisa, creio que o uso de modelos alternativos esteja distante de se tornar realidade. Devido à complexidade dos estudos e à necessidade de resultados precisos, a resposta fisiológica do animal, infelizmente, o torna ideal para o uso, visto suas similaridades com os seres humanos”, pondera.

Por outro lado, a estudante do 10º semestre de Veterinária, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí, Ijuí/RS), Lidiane Oliveira dos Santos, possui uma visão contrária aos modelos alternativos. “Isso porque é uma realidade diferente da que o aluno verá na prática com animais de verdade. Acredito que deixa os futuros profissionais mal preparados para eventuais acontecimentos, como por exemplo, um sangramento inesperado”, avalia.

Para Lidiane, talvez esses métodos ajudem como um “treino" antes de o aluno praticar em aninais vivos, mas não somente como único método de aprendizagem. “Em práticas com modelos de animais, além da cirurgia, existe a anestesia, que, em modelos sintéticos, não há como saber, realmente, como funciona e acredito que o anestesista precise ter bastante prática para, em um eventual problema, saber como solucionar”, argumenta.

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Alguns alunos se recusam a participar das aulas práticas
quando são em animais vivos (Foto: reprodução)

Investimento. Na visão de Brunna, o grande empecilho para adoção desses métodos é o custo que eles tendem a ter. “Já vi uma universidade particular utilizando um protótipo onde os alunos praticavam coleta de sangue e até contenção. Mas, sendo estudante de uma universidade pública, que já chegou ao ponto de não ter recursos para pagar a conta de luz de blocos e do hospital, duvido que, algum dia, teremos acesso a esses métodos. Infelizmente a cobaia viva, ainda é a mais barata”, julga.

Entretanto, diante da repercussão da denúncia de maus-tratos, ocorrida em 2013, no Instituto Royal (São Roque/SP), sobre a libertação dos animais de experimentação, a bacharela em Zootecnia, Bárbara Cristina do Rosário, iniciou um estudo comparativo de custos entre três recursos didáticos para a prática de sondagem uretral em cadelas no ensino da Medicina Veterinária. “O trabalho que me inspirou foi relacionado à metodologia para comparação de custos entre métodos in vivo e in vitro para o diagnóstico da raiva”, lembra.

Para a realização do trabalho, Bárbara listou e cotou itens de custos fixos (CF), compostos por itens que não variam em função do número de alunos por turma e variáveis (CV), que variam em função do número de alunos, necessários para a disponibilização de cadelas e de dois modelos alternativos. Calculou-se o custo médio total de cada unidade dos modelos por turma e, também, os custos para, primeiro, implantação dos modelos de ensino, supondo que a instituição ainda não os possua; neste caso considerou-se CF e CV e, segundo, mantença dos modelos em aulas práticas, considerando exclusivamente o CV.

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Trabalho compara valores de cobaias vivas,
sintéticas e artesanais (Foto: reprodução)

A profissional narra que, a conclusão do trabalho aponta que para uma aula prática de sondagem uretral, na qual participam 40 alunos, a disponibilização de 20 cadelas vivas é equivalente a seis modelos alternativos artesanais e seis comerciais, em termos de instalações e de mão-de-obra necessários por mês. “Em relação ao custo médio total de cada modelo por turma, um modelo vivo custa 558% a mais do que o modelo artesanal e 519% a mais do que o modelo comercial”, aponta.

A disponibilização de animais, segundo Bárbara, também apresentou custo 2.093% e 64.570% maior que os modelos artesanais, considerando sua implantação e uso rotineiro, respectivamente, e 1.962% e 90.379% maior que a disponibilização dos modelos comerciais considerando sua implantação e uso rotineiro, respectivamente. “Os resultados demonstraram que, em relação ao custo médio total, a implantação e mantença, tanto do modelo alternativo artesanal quanto do comercial são mais econômicos quando comparados ao modelo animal”, assegura.

Vira opinião. Antes de Bárbara realizar essa pesquisa, ficava um pouco receosa em não utilizar animais em aulas. “Desde meu início na graduação, aprendi sobre anatomia e fisiologia dos animais somente com modelos alternativos, os quais incluíam uso de material audiovisual, cadáveres de animais doados legalmente e revisão de literatura. Desde então, recusei-me a praticar aulas que causassem dor ou desconforto aos animais vivos, embora tivesse que participar dessas aulas, mesmo que só observando outros colegas durante os procedimentos por eles exercidos. Mas, hoje, tenho a certeza de que utilizar os métodos alternativos são tão eficientes quanto utilizar animais vivos”, menciona.

A melhor saída para evitar debates acerca da situação, para Lidiane, seria realizar uma pesquisa em todas as universidades, ouvir alunos e professores e investigar qual a opinião deles sobre o tema. “Também acredito ser importante ressaltar que todo e qualquer procedimento, cirúrgico ou não, realizado nos animais devem ser supervisionados por um médico-veterinário responsável, visando sempre o Código de Ética da profissão e, principalmente, o bem-estar desses animais”, frisa.

Brunna incrementa o tópico afirmando que é preciso, realmente, garantir o bem estar animal acima de tudo, mas, além disso, oferecer as duas possibilidades: animais e métodos alternativos. “Considero que o aprendizado seria melhor em um protótipo, onde podemos errar sem medo para, então, realizar o procedimento da maneira correta na vida real”, declara.

Para a zootecnista Bárbara, além de introduzir o assunto nas universidades em forma de palestras, é preciso, também, adicionar a discussão acerca do uso de métodos alternativos em disciplinas dos cursos de Medicina Veterinária e Zootecnia. “É essencial tornar obrigatória a disciplina de bem-estar animal nas graduações de toda e qualquer instituição”, defende.

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