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Profissionais narram situações em que foram vítimas de racismo

Falas preconceituosas e ofensivas são comuns no ambiente universitário

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Não é de hoje que a morte injusta de um negro causa comoção. Tantos são os filmes e documentários que retratam histórias com finais tristes por um único motivo: a cor da pele. E essa realidade, como bem sabemos, vai além dos roteiros. Fazem parte do dia a dia. Por isso, a C&G VF conversou com profissionais do setor de animais de companhia sobre o tema. Eles, sim, estão no lugar de fala - são negros - e podem tentar nos mostrar a verdadeira dor.

A médica-veterinária Fernanda, como prefere ser chamada nesta reportagem, conta que sofreu preconceito por ser negra no estágio que fazia, na época da faculdade. “Uma aluna japonesa da instituição pública (a minha era privada), em uma conversa aleatória, perguntou, em tom de ‘brincadeira’, por que eu não tinha tentado passar na instituição pública por meio das cotas, já que eu era a única negra no setor e seria ‘mais fácil’ conseguir assim. Ela falou como se eu não fosse inteligente o suficiente para passar por mérito e sem cotas”, avalia a, até então, estudante, que se sentiu extremamente constrangida e incapaz.

A situação foi tão difícil, que colaborou para que Fernanda saísse do estágio. “Fiquei menos tempo do que havia planejado ficar, pois me sentia deslocada. E sei que eu não fui a primeira, nem a última vítima. Conheço outros veterinários negros que sofreram racismo, mais do que gostaria de conhecer, infelizmente”, declara.

"Brincadeiras" com negros são formas de
preconceito e desrespeito (Foto: reprodução)

Segundo a veterinária, até hoje, sempre que tem que começar um novo trabalho ou se introduzir em uma nova situação que envolva outras pessoas, onde seja a única ou uma das poucas pessoas com tom de pele escura, tem que buscar ainda mais forças: “Tenho que me esforçar o triplo para provar para mim e para os outros que sou capaz”, compartilha.

Mais um, entre tantos relatos. O estudante de Medicina Veterinária e treinador de cães, Kyenner Oliver, também nos narra alguns momentos em que sofreu preconceito, no meio acadêmico. “No meu primeiro período de graduação, estava na sala de anatomia e, geralmente, quando estudamos essa disciplina, fica uma peça na mesa com vários estudantes em volta. Cheguei nessa mesa e todo mundo saiu. Logo após, uma menina perguntou onde eu morava, falei que era em uma favela chamada Sumaré, de Belo Horizonte (MG), só para saber o que ela falaria (não morava lá). Ela saiu de perto”, relembra.

Em outra aula, Kyenner menciona que a professora fez uma brincadeira, já que estavam em um assunto sobre genética, dizendo “sua família deve ser toda escurinha”. “Dela, não levei por mal, confirmei que meus familiares são todos pretos, mas uma menina disse para uma amiga ‘não aguento esse tipo de gente’”, conta o estudante, que completa: “Me sinto chateado, exonerado, excluído. Tenho uma cabeça muito forte, graças a Deus, então fico desanimado, mas não quis dar sequência a esses casos, não permiti que isso mudasse minha energia, minha personalidade, meu caráter. Continuo tratando as pessoas como sempre tratei quando se aproximam de mim, com educação e disposto a ajudar quem for preciso”, afirma.

Oliver diz que os negros não ficam se perguntando entre si quem já sofreu preconceito, porque já sabem a resposta. “Vemos o racismo em todo lugar. Várias frases, como ‘tinha que ser preto mesmo; tem banana aqui, você quer, seu macaco?’, são constantes na universidade. Engolimos isso, porque, se toda vez que nos deparamos com isso, atacarmos, vamos ficar com a energia muito baixa”, pondera.

Negros não querem mais ser perseguidos, seja no
trabalho, na escola ou em um mercado
(Foto: reprodução)

Por um mundo mais justo. Oliver cita um trecho da música “A vida é um desafio”, do grupo Racionais MC’s, que diz “por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”: “Hoje, eu consigo encarar isso. Tudo para nós é mais complicado. Moro em um bairro classe baixa, não venho de família rica, trabalho muito para conseguir pouco, o dinheiro é suado, tenho financiamento estudantil, mas ainda pago uma porcentagem. Muitas vezes, tenho que fazer serviço, enquanto poderia estar estudando. Estou sempre correndo atrás para pagar uma peça do notebook, um livro, internet para estudar. É diferente da vida de uma pessoa que só fica por conta dos estudos e, ainda, muitos não conseguem nos enxergar como deveríamos ser enxergados. Não é por ser negro, mas por ser pobre e negro”, observa.

Na visão de Fernanda, se cada um colocasse a empatia em primeiro lugar e reconhecesse os privilégios que lhe são ofertados devido à sua cor, ajudaria no entendimento do negro como uma pessoa normal em sociedade. “Nós, negros, não queremos exclusividade, queremos uma forma de tratamento normal, como de qualquer outra etnia, seja no trabalho, na escola ou em um mercado. Queremos viver e atuar em nossas profissões sem sermos perseguidos e humilhados somente pela cor”, clama.

Os negros, como complementado por Fernanda, não aguentam mais serem assassinados somente por sua etnia. “Quanto mais nos atacarem, mais iremos lutar para que nossos filhos, netos e gerações futuras não tenham que vivenciar o que é o racismo em sua forma mais violenta e repulsiva”, expõe.

O recado que Oliver dá, hoje, para a situação toda, é que o racismo existe desde a época da escravidão e não acabou com a carta de alforria. “O preconceito está enraizado há muitas décadas. Agora que aconteceu mais uma morte, que as pessoas decidiram apoiar a causa? Por que não apoiaram ontem, ano passado, há 10 anos, por que não abraçaram o preto há 20 anos?”, indaga e diz que, em sua visão, as pessoas têm que amparar mais os pretos. “Não adianta colocar foto preta nas redes sociais uma vez ao ano. A causa negra são todos os dias”, salienta.

Oliver agradece por ser treinador de cães e, por daqui a um ano, ser um médico-veterinário. “Por mais que exista essa questão do racismo, fico feliz porque, onde chego, sou bem recebido por todos. Já participei de rodas de conversa de grandes palestrantes em nível Brasil. Hoje, organizo eventos acadêmicos dentro da Medicina Veterinária, isso tudo vindo da mão de um preto que ainda nem é formado e está sempre em contato com grandes nomes da profissão. Acredito que, se nos vitimizarmos menos e colocarmos mais a cara na rua, na selva de concreto e aço, vamos vencer. Uma coisa que sempre falamos é que ‘a favela venceu’. Não é porque a favela, propriamente dita, ganhou algo, é porque o preto venceu. E quando o preto vence, é para glorificar de pé”, finaliza.

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