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Programa de perda de peso de pets deve contar com empenho do tutor

Relato de caso mostra quão importante é respeitar as orientações do veterinário

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Por Dra. Karina Mussolino Saqueli e M.V Msc. Brana Bonder

A obesidade está presente quando o peso do animal excede o peso ideal em, pelo menos, 15%, sendo esta uma das formas mais importantes e frequentes da má nutrição observada na prática clínica. A prevalência do sobrepeso/obesidade em animais de estimação varia entre 20%-59% e implica em aumento do risco de diversas doenças, podendo resultar na redução da  qualidade de vida e longevidade.

Inúmeros fatores podem predispor o paciente à obesidade, dentre eles, a genética, a intensidade e frequência de exercícios físicos e a densidade energética do alimento que culminam em balanço energético positivo e, assim, desencadeando a obesidade. Apesar de o diagnóstico da enfermidade ser fácil, baseado na escala numérica de condição corporal (1-9), percebe-se, na prática clínica, que os tutores, mas podemos incluir também médicos-veterinários, negligenciam este distúrbio nutricional, o qual, muitas vezes, não é diagnosticado como doença.

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Para cães, recomenda-se a taxa de perda de peso semanal
de 1% a 2% do peso corporal (Foto: reprodução)

É importante o reconhecimento por ambas as partes de que a obesidade é uma doença e deve ser tratada. O tecido adiposo é metabolicamente ativo, com produção e liberação de diversos peptídeos bioativos, pré e pró-inflamatórios, denominados adipocinas. Estas participam em processos de regulação do balanço energético e modulam a sensibilidade à insulina. O aumento da massa adiposa desencadeia a desregulação da produção destas adipocinas e contribui para o surgimento de diversas anormalidades metabólicas relacionadas à obesidade. Assim, a identificação e o tratamento da doença são fundamentais para promover maior expectativa de vida nos animais e a participação do tutor é essencial para o sucesso desta etapa.

Este relato de caso tem como objetivo conscientizar tutores e famílias da importância de seguir as recomendações do médico-veterinário e de como são peças-chaves para que a perda de peso seja efetiva. O acompanhamento nutricional foi realizado no Centro Veterinário Seres / Petz, com o paciente denominado Palito, canino, Dobermann, 3 anos, castrado, hígido, peso de 54,250kg e com escore de condição corporal (ECC) 7/9. O programa de perda de peso se iniciou no dia 05 de novembro de 2018 e foi finalizado em 18 de fevereiro de 2019 e, durante todo o programa, foi utilizado o alimento Hill's Prescription Diet r/d Canino.

O animal residia com dois tutores e seus dois filhos, juntamente com outro cachorro hígido com condição corporal adequada (ECC 5/9). Para o maior comprometimento de todos da família e para que os mesmos entendessem a importância e o novo manejo nutricional, determinadas estratégias foram utilizadas:

Engajamento. A boa comunicação, de forma descontraída e educativa com as crianças, foi de extrema importância para alcançar os resultados desejados. Eles foram envolvidos no processo de avaliação nutricional desde o início, seja pesando a quantidade correta da ração, seja colocando nos saquinhos as porções ou até mesmo oferendo ao Palito a porção ideal, sempre sob supervisão de um adulto e utilizando diversas abordagens ao longo do programa. Ao invés de oferecer petiscos e biscoitos, houve um enriquecimento ambiental com os animais, interagindo, brincando e exercícios foram implementados.

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É comum os tutores acreditarem que o pet está
comendo uma quantidade de alimento reduzida, o que
dificulta a adesão (Foto: reprodução)

Rotina e acompanhamento. Foram realizados: pesagem inicial do animal e pesagem a cada 15 dias, sempre usando a mesma balança; cálculo da necessidade energética para perda de peso, com base no peso meta. O consumo energético inicial do paciente foi de 1238kcal/dia. Com isso, foi possível definir a quantidade de alimento diária, que foi de 415 gramas/dia; estabelecimento da perda de peso semanal desejada.

Para cães, recomenda-se a taxa de perda de peso semanal de 1% a 2% do peso corporal; nos acompanhamento clínicos, caso o paciente perdesse a porcentagem desejada, a quantidade de alimento diária era mantida; quando a perda semanal era menor que 1%, foi recomendado diminuir 10% da quantidade de alimento por dia; e quando a perda semanal era maior que 2%, foi recomendado aumentar 10% da quantidade de alimento por dia.

Foi ofertado alimento pesado em horários pré-determinados, sempre com um responsável por perto para vigiar e evitar que os pets trocassem seus alimentos ou até mesmo que o paciente ingerisse, além da sua dieta, a do outro animal. Também é recomendado a realização de fotos em todas as pesagens do paciente para acompanhamento.

Resultados. Após 15 dias de tratamento, foi constatada evolução na perda de peso no paciente Palito, sendo assim, a quantidade de ração foi ajustada seguindo a recomendação de acordo com a porcentagem de perda de peso atingida. No caso, houve diminuição de 10% da porção oferecia por dia.

O programa de perda de peso do Palito foi concluído com sucesso, pois atingiu o escore de condição corporal adequado (ECC=5/9) após 4 meses, com perda de 9kgs (peso inicial 54,25Kg vs peso final 44,75kgs). Neste momento, Palito se encontra na fase de ajuste de ingestão calórica para manutenção do peso, com reajustes de 10%, para mais ou para menos, na quantidade de alimento, com objetivo de manter o peso atingido.

É muito comum, no início do tratamento para perda de peso, que os tutores e familiares envolvidos se sintam comovidos, achando que o pet está comendo uma quantidade de alimento reduzida, o que dificulta muito a manutenção do tratamento. Entretanto, com o passar dos dias, nota-se que a rotina se estabiliza e tudo fica mais simples. O Palito estava sendo prejudicado pelo seu elevado peso. No início do tratamento ele mal conseguia entrar no porta-malas do carro, sendo necessário uma pessoa para ajudá-lo. Após a perda de peso, ele passou a realizar essa atividade feliz e com muita rapidez. Esta agilidade foi observada, também, durante os passeios e em suas brincadeiras com outro cão da casa, o Escova.

Os animais têm o poder de mudar as nossas vidas e a alimentação tem o poder de transformar a vida dos animais. Podemos ajudar a enriquecer e prolongar a relação especial entre as pessoas e os seus animais de estimação! Basta seguir todas as orientações de médico-veterinário.

Vale tentar. Outras táticas podem ser utilizadas para contornar algumas eventualidades e encorajar o tutor: caso o animal esteja pedinte ou pareça com fome, é recomendado prover enriquecimento ambiental, dividir o alimento em mais refeições e utilizar comedouro em labirinto/comedouros interativos; se está com comportamento alimentar inadequado, é necessário aumentar atividade física e enriquecimento ambiental; caso haja vocalização noturna, medidas como mudar o manejo alimentar (refeição à noite e comedores automáticos) e fornecer alimento por meio de comedouros interativos podem auxiliar.

Outros problemas podem ser resolvidos da seguinte forma: se o exercício é insuficiente, o tutor deve promover atividades em grupos, por exemplo, caminhadas em grupos de cães, e avaliar a possibilidade de utilizar o Day Care para pets; caso seja uma casa com múltiplos pets, é preciso avaliar alimentação separada, verificar a possibilidade de todos consumirem o mesmo alimento e separar os animais de acordo com suas habilidades ou tamanho. Em último caso, se o pet não aceitar o novo alimento, é indicado tentar uma introdução gradual por mais de uma semana, não oferecer alternativas se o animal pular uma refeição e ofertar alimento com texturas/umidades diferentes.

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