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Relatos: veterinários narram situações complicadas com clientes

Tensão pelo estado do pet não deve influenciar na educação com os profissionais

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Qual a função mais difícil que o médico-veterinário deve desempenhar? Aposto que muitas respostas vieram à sua cabeça, sendo impossível escolher apenas uma como a mais complicada. No entanto, o que temos certeza é que a relação com o tutor é um dos deveres mais desafiadores da rotina clínica.

O médico-veterinário, pós-graduando em Medicina Felina, Fabiano Oliveira, afirma que toma todos os cuidados necessários durante o atendimento, mas que nem tudo depende apenas de suas condutas. “Quando o cliente está sendo mal-educado, diante disso, me posiciono frente à situação, agindo educadamente e sinalizando o desconforto gerado por ele”, declara.

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É imprescindível uma convivência saudável entre
veterinário e tutor (Foto: reprodução)

O profissional revela algumas situações desagradáveis em que precisou tomar devidas atitudes: “Uma cliente chegou com o seu canino até a clínica por volta das 23h, falando mal dos serviços prestados anteriormente em outro estabelecimento e informando que seu animal estava mal e precisava ser internado”, narra. No ato da consulta, Oliveira observou a alteração de comportamento da tutora, que, em sua visão, demonstrava instabilidade emocional. “Durante o atendimento, a mulher não concordou com a realização de exames complementares. O cão estava com êmese persistente durante um período e necessitava ser internado, pois já se encontrava desidratado e com perda de peso, já que não estava se alimentando. Novamente houve recusa. A mesma alegava que não conseguia ficar longe do pet durante a noite”, recorda.

Oliveira, então, sugeriu administrar as medicações pertinentes e analgesia, um fluido subcutâneo, e pediu para a tutora retornar no outro dia, pela manhã, para o animal ser reavaliado e, se fosse o caso, submetido a uma internação day care (hospedagem com cuidados especiais para pacientes em tratamento ou que necessitam de ajuda profissional). “Ela aceitou, expliquei como era realizado o procedimento de fluido subcutâneo, as medicações que estavam sendo administradas, no entanto, ela criou transtornos no momento de realizar o pagamento, sendo mal-educada”, descreve. Ele ainda menciona que, durante a madrugada, a cliente muito ansiosa, ligou na clínica, dizendo para o plantonista que o canino tinha apresentado mais um episódio de vômito, por conta das medicações que o veterinário havia aplicado e que havia aparecido uma “bolsa” lateral no animal. “Disse que nunca tinha visto uma conduta dessa, considerando que o veterinário era um estagiário. No outro dia, ela chegou na clínica e, ao solicitar pelo meu nome na recepção, não sabendo que eu estava ciente de toda a situação, disse que queria ser atendida por mim. Neste momento, eu falei para a recepcionista encaixá-la para outro colega atender, pois eu me negava a receber uma pessoa que faltasse com a verdade e que caluniasse um profissional, distorcendo os fatos. Complementei dizendo que clientes com a conduta dela não eram interessantes para mim”, compartilha.

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Tutor deve firmar uma boa relação com toda a equipe da clínica,
se direcionando às pessoas com educação (Foto: reprodução)

Mais um relato. O médico-veterinário Oncologista do Provet, Rodrigo Ubukata, também tem uma história marcante para contar: “Uma pessoa procurou pelo atendimento de minha equipe com um caso bastante sério, mas, desde o início, foi arrogante e desrespeitoso. Durante a avaliação, se mostrava agressivo e falando mal de todos os locais por onde passou. O exame necessário para colaborar na decisão e planejamento do tratamento foi realizado no dia anterior e ele ficava indignado com a demora do laudo (não tinha 24 horas ainda da realização e era um caso extremamente complexo, onde um descuido de avaliação poderia custar a vida do animal). Explicado isso, ele continuava reclamando e sendo agressivo”, conta.

Por ser um caso delicado, Ubukata diz que foi recomendado mantê-lo em observação na internação, onde o tutor chegou da mesma forma: arrogante e agressivo com todas as pessoas, inclusive com as que estavam apenas recebendo-o na entrada. “O ponto alto e, para mim, inadmissível, foi quando ele falou em alto e bom som: ‘Eu vou matar o Dr. fulano, que não libera o laudo do exame’. Entendemos o quanto uma doença pode abalar toda uma família, mas desrespeito e agressividade têm limites. Ameaçar contra a vida de qualquer pessoa, mesmo que de forma impensada, é crime e não é caso para nós e, sim, para a polícia”, considera.

Na visão do oncologista, algumas pessoas acreditam que podem comprar os veterinários: “A sociedade, hoje, não tem mais limites e aponta apenas os ‘direitos’, se esquecendo de que também tem ‘deveres’. Qualquer pessoa que agir desta forma comigo, minha equipe ou equipes que colaboram com nosso trabalho não merecerá nossos esforços. Sentimos pelo animal, mas, quando a relação de confiança entre profissional-paciente-tutor é quebrada ou nem construída, não devemos dar continuidade para que isso não seja considerado algo que atrapalhe a conduta do caso”, opina.

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