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Saúde mental: prestando atenção na sua, doutor?

Psicoterapias, bem como yoga, meditação e acupuntura ajudam a manter a mente saudável

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Como mostramos na reportagem da campanha Setembro Amarelo, os problemas de saúde mental que afetam os médicos-veterinários são constantes e merecem atenção todos os dias. Essa profissão carrega uma carga emocional grande que necessita de um acompanhamento psicológico para evitar qualquer transtorno. Afinal, antes de cuidar do próximo, é preciso cuidar de nós mesmos!

O psicólogo e psicoterapeuta, Gustavo Rodrigo Sinhoretti, aponta a Fadiga por Compaixão como um dos problemas que os veterinários podem enfrentar ao longo da carreira. Ele conta que, segundo o psicólogo Charles Figley, a Síndrome de Desgaste por Empatia (SDE) e que também pode ser chamada de Fadiga por Compaixão, refere-se à exaustão emocional que certos profissionais sofrem por trabalhar com clientes traumatizados. “Figley descobriu o distúrbio depois de analisar o comportamento de um grupo de profissionais da saúde nova-iorquinos voluntários após os ataques de 11 de setembro”, revela.

Esse problema é recorrente entre os profissionais da Medicina Veterinária, principalmente por conta do envolvimento afetivo exagerado que pode surgir na relação entre o veterinário e a família e entre o veterinário e o animal que está sendo tratado, fazendo com que o profissional “não consiga evitar” se colocar no lugar do outro (família e/ou animal) em decorrência do sofrimento sentido. “Assim, o profissional sente a mesma dor e sofrimento que os demais estão sentindo. Mas pode acontecer, também, pelo fato de a situação atual ser semelhante a uma situação passada que o profissional enfrentou em relação a um animal de estimação dele mesmo, inclusive, tendo que lidar com a perda ou enfermidade, em uma espécie de ‘um luto mal elaborado’”, pondera.

Fadiga por Compaixão é o desgaste físico, mental e emocional
que pode acometer profissionais que cuidam de animais em
risco de morte ou enfermos (Foto: reprodução)

Sinhoretti cita alguns sintomas típicos da Fadiga por Compaixão: sensação de esgotamento físico e emocional com mudanças bruscas de humor, irritabilidade, lapsos de memória, ansiedade, depressão, insônia, dores musculares, sudorese, palpitações, pressão alta, crises de asma, entre outros. “Essa situação pode gerar cansaço e desgastes físicos, desânimo e falta de motivação, trazendo como consequências o isolamento social, frieza, egoísmo e falta de empatia no desempenho da profissão e na relação com o próximo. A falta de empatia, funciona como um mecanismo de defesa, cuja finalidade é ‘anestesiar’ o profissional de possíveis dores e sofrimentos que possam surgir novamente no exercício da profissão”, explica.

Entender para tratar. Conforme explicado pelo psicoterapeuta, Fadiga por Compaixão refere-se ao desgaste físico, mental e emocional que pode acometer os profissionais que cuidam de pessoas ou animais em risco de morte, enfermos ou vitimados por situações traumáticas. “Essa condição pode afetar a saúde do profissional de forma exacerbada, podendo gerar no mesmo, sintomas ansiosos, depressivos, dores de cabeça e enxaquecas, problemas para dormir, se concentrar, perda de memória, ataques de pânico, etc”, reforça.

Mas, também há outro distúrbio que esses profissionais podem encontrar diante da rotina clínica e que está, diretamente, ligado ao amor pelos animais: a Síndrome de Noé ou Síndrome de Diógenes. “Diz respeito à acumulação patológica de animais no domicílio. É uma doença que se caracteriza pela obsessão de possuir e colecionar animais de estimação em excesso, no qual a pessoa se sente incapaz de desfazer-se dos mesmos”, discorre Sinhoretti.

Portanto, engana-se quem pensa que essa síndrome acomete apenas os chamados protetores acumuladores. Os veterinários podem se deparar com situações em que levam para suas próprias casas animais de rua ou que foram abandonados por seus tutores nas clínicas e hospitais. “Este transtorno não se trata somente de um problema de saúde mental, mas, também, de Saúde Pública. Isso se deve ao fato de não afetar unicamente a pessoa que sofre do transtorno, mas, também, os próprios animais, que são mantidos em condições inadequadas. Além disso, há a deterioração que ocorre no lar por deficiência extrema de higiene. A degradação da casa onde existe acumulação excessiva de animais pode chegar a afetar a saúde dos vizinhos”, alerta.

Psicoterapia e outras terapias em conjunto podem
ajudar a recuperar e manter a saúde mental dos
veterinários (Foto: reprodução)

Segundo o psicólogo, o médico-veterinário também pode sofrer carência ou necessidade afetiva pessoal diante de situações interpretadas ou percebidas por ele como abandono, injustiça, traição, humilhação ou, até mesmo, rejeição dos animais por parte dos tutores. “Isso ativa, no clínico, lembranças, sentimentos, pensamentos e/ou conflitos internos, muitas vezes, inconscientes, que fazem parte da sua história de vida e da sua subjetividade, por conta de situações semelhantes que, por ventura, possam ter vivenciado na infância, sobretudo, na relação com os pais”, analisa.

Mente saudável. Por mais difícil que seja aceitar e lidar com a morte, o psicólogo afirma que ela é a única certeza que temos na vida. “Aprendermos a lidar com as perdas, términos e fins faz parte da dor de existir e da condição humana. Devemos ter uma percepção de nós mesmos como seres falíveis, imperfeitos e com limites, que, infelizmente, não podemos tudo, não somos seres onipotentes. Cabe a nós, a partir disso, fazermos da melhor forma possível a nossa parte e o que está ao nosso alcance como profissionais, mas, principalmente, como seres humanos. Mas não é fácil, infelizmente, é um difícil aprendizado”, avalia.

Assim, na visão de Sinhoretti, é indispensável a todo profissional, principalmente os da área da saúde, cuidar da saúde mental e emocional: “É muito importante que o profissional esteja atento àquilo que está sentindo, pensando, desejando e reagindo. Isso pode ser feito por meio de psicoterapia e outras terapias em conjunto, tais como: yoga, meditação, acupuntura, entre outros”, indica.

De acordo com o especialista, a promoção de saúde e prevenção de doenças é algo que devemos sempre nos preocupar e trabalhar no sentido de informar e conscientizar a população sobre sua importância. “Lidar com outras pessoas/situações e, principalmente com nós mesmos, sempre é uma tarefa difícil e imprevisível. Por isso, o cuidado consigo mesmo é fundamental para não adoecer física, mental e emocionalmente”, assegura.

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