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Sacerdote cubano é contra o sacrifício animal em religiões

Líder do culto de Yezan visita o Brasil a convite de uma mãe de santo

O cubano Dagoberto Isaac Cordeiro Chirino tem uma missão: convencer pais e mães de santo brasileiros a parar com o sacrifício de animais no candomblé e na umbanda. Há, no Brasil, 589 mil pessoas que se declaram seguidores da umbanda ou do candomblé, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010.

Alawowwo, como é chamado, está no Brasil a convite de mãe Solange, uma ialorixá dona do terreiro de candomblé Roça dos Orixás Afro-brasileiros, em Guarulhos (SP). Eles se conheceram em Cuba, onde a mãe Solange esteve em 2015, no casamento de uma de suas filhas no candomblé. Na vida civil, ela nunca se casou e não tem filhos biológicos. Ele está no Brasil com a mulher, Marta de Armas Sotolongo, com quem é casado há 35 anos e tem três filhos. Estão hospedados em uma casa em Guarulhos a meio quarteirão do terreiro de mãe Solange.

Ele e a ialorixá brasileira se aproximaram porque mãe Solange queria parar com o uso do sangue animal em seus trabalhos, e Alawowwo sabia como ajudá-la. Ele é do culto de Yezan, uma religião africana de 4.500 anos que nunca utilizou bichos em seus rituais. E, em 2016, fez a iniciação nesse culto de mãe Solange, sem uso de sangue. "Desde então não faço mais sacrifício animal em minha casa", afirma ela.

O culto de Yezan tem similaridades com o candomblé e a umbanda. É uma religião africana, nascida no Benin, e que chegou a Cuba e outros países da América Latina pelos escravos trazidos da África. Agora, se o plano de Alawowwo e mãe Solange der certo, chega ao Brasil. "Yezan é mais antigo que o candomblé e a umbanda e tem alternativas para o uso do sangue. Todas as religiões, um dia, fizeram sacrifício animal, os cristãos, os muçulmanos, os budistas. Mas se adaptaram às mudanças da sociedade e não fazem mais isso. Até hoje, nas missas católicas, os padres falam ‘o sangue de Cristo’ quando levantam o copo, mas não é mais sangue que tem ali. Está na hora das religiões de origem africanas se adequarem aos tempos modernos", declara Alawowwo.

O sacrifício animal acontece em rituais de iniciação, quando o sangue dos bichos é utilizado, e em despachos, quando são oferecidos aos orixás. O sangue é o que justifica a matança, ele é tido como um ingrediente poderoso, quase um atalho, na comunicação com as divindades. Galinhas, patos, pombos, bodes, carneiros e bois são mortos, às vezes mais de um bicho para um só ritual. Depois, a carne é assada e comida e até o couro é utilizado para fazer instrumentos de percussão. Matar animais para esse fim está dentro da lei no Brasil. O tema foi discutido no Supremo Tribunal Federal em agosto de 2018 e foi considerado constitucional, ou seja, permitido, em março deste ano.

A decisão do STF vale para todas as religiões e implica que a regra deve ser aplicada por todos os tribunais e juízes do País. Mas não pode haver crueldade. Os casos de maus-tratos de animais são punidos com penas de três meses a um ano de prisão. E não são todos os centros de candomblé e umbanda que matam animais. Os chamados de mesa branca ou umbanda branca não utilizam esse recurso. "Na Europa, já é proibido matar animais em cerimônias religiosas. As religiões africanas no mundo todo sofrem pressão das organizações de defesa dos animais e dos governos", assegura.

Fonte: Folha de S.Paulo, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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