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Setembro Amarelo deve trazer debates e alertas para veterinários

Desvalorização, estresse e intensa carga de trabalho podem impactar profissão

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Na maioria das vezes, é uma tarefa difícil descobrir o que passa no coração e na mente de uma pessoa. Os veterinários já estão acostumados a atender cães e gatos que, em muitas situações, camuflam os sintomas de determinados problemas, mas o que alguns não sabem é que o colega ao lado também pode estar escondendo um transtorno, uma depressão e, em casos mais graves, o planejamento de um suicídio.

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O risco de suicídio nunca se resume a uma causa
única, por isso merece atenção (Foto: reprodução)

O mês é setembro, que realça a cor amarelo como um alerta: médicos-veterinários estão entre os profissionais que mais cometem suicídio em todo o mundo. A médica-psiquiatra especialista em ações de prevenção ao suicídio, Fernanda Benquerer Costa, participou de um debate promovido pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e afirmou que esses estados mentais podem ter início anteriormente, como pela Síndrome de Burnout, por exemplo, que não é considerada uma doença. “Trata-se de um transtorno de trabalho, com três características principais: perda de sentido de realização profissional, esgotamento emocional e frieza e distanciamento de outras pessoas”, enumera.

O transtorno, segundo Fernanda, está relacionado à condição de trabalho, por isso, profissões que envolvem atividades intensas e estressantes são bastante acometidas. “Também há a fadiga por compaixão, uma síndrome descrita mais recentemente e que está relacionada à empatia. Aquele ‘muito obrigado’ que o cliente diz proporciona a satisfação de compaixão. No entanto, o lado ruim, pela própria empatia, é que o veterinário passa a ter um esgotamento por conta do envolvimento com os pacientes e tutores. “Esse sentimento é tão grande que afeta, inclusive, o bem-estar dos profissionais, com desgaste físico e emocional. Essa síndrome é uma combinação de depressão com Burnout e é uma forte característica dos profissionais de saúde”, revela a psiquiatra.

Gatilho. Não apenas no Brasil, como em outros países, o veterinário tem um número de funções exagerado, que ultrapassa o que seu limite pode suportar, como detecta o médico-veterinário intensivista, estudioso dos temas depressão, Burnout e fadiga por compaixão, Rodrigo Cardoso Rabelo. “A sobrecarga do trabalho é brutal: por aqui, por razão do excesso de atividades, fica mais fácil ter a fadiga, independentemente de ser de linha de cuidado do paciente ou não. Os serviços por trás de uma sala de atendimento também podem ser danosos”, avalia.

Rabelo comenta que a realização profissional e personalização estão muito integradas dentro de Burnout. “Essa síndrome não segue o padrão como em outras profissões. Com trabalho contínuo sem folga, não valorização da profissão, carga extrema de trabalho, é possível constatar sinais clínicos que não existiam antes. Muitas vezes, deixamos passar o estresse, mas uma doença pode começar a partir daí. Quando eu enfrentei Burnout, tomei a decisão de abandonar aquele nível de carga de trabalho. O fato de nós, veterinários, convivermos 5% mais com a morte pode ser explosivo, principalmente na Medicina Intensiva”, argumenta.

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O veterinário tem um número de funções exagerado,
que ultrapassa o que seu limite (Foto: reprodução)

O profissional acredita que, no Brasil, os veterinários têm o costume de adotar o cliente: “Quando preciso, tiramos no bolso, fazemos vaquinha, ajudamos a tratar o pet. Assumimos uma série de questões que, por extremo, nos faz mal. Aí nos questionamos por que os médicos também não são assim. Na minha visão, eles estabelecem uma distância e nós pecamos pelo excesso. Fica difícil, hoje, pensar em um controle geral de clínicos e, ainda mais, sem uma cadeia de cuidado da profissão estabelecida nesse sentido”, considera.

Autodestruição. Fernanda aponta que o risco de suicídio se coloca dentro de um contexto amplo de fatores de risco e de proteção e o mais importante de ser frisado: nunca se trata de uma causa única. “Existem fatores de risco, que envolvem genética, biologia, traços de personalidade, histórico familiar e transtorno mental que não pode ser negligenciado. Dentro disso, também temos a questão dos vínculos sociais pobres, falta de suporte, afetos intoleráveis, desespero e desamparo. Por outro lado, há os fatores de proteção: flexibilidade cognitiva, ou seja, capacidade da pessoa buscar alternativas. Pessoas suicidas pensam em tudo ou nada e não conseguem enxergar que existe o meio termo; abuso de álcool e outras drogas; o acesso a métodos perigosos”, elenca.

A profissional lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, como uma das medidas para reduzir suicídio, restringir acesso a métodos potencialmente perigosos. “Entre os profissionais de saúde, existe uma forte resistência na busca por ajuda, entretanto, o fato de entender que existe a síndrome não nos torna imune a passar por ela e é importante buscar auxílio profissional. Alguns pacientes que atendo já estão em sofrimento há meses, há anos, muitos já passaram por tentativas de suicídio. Se chegassem antes, poderíamos apostar em tratamentos preventivos. Há, ainda, um preconceito acerca do tema e as pessoas acabam adiando e, consequentemente, o quadro se agrava. A busca de ajuda é que muda as nossas estatísticas”, destaca.

O veterinário intensivista, Rodrigo Rabelo, compartilha que este foi um ano emblemático para ele em relação ao tema. “Perdi colegas e outras pessoas não tão próximas e uma coisa me chamou atenção: por um lado, casos de recém-formado, por outro, de pessoas com muitos anos de experiencia na área. Também noto um aumento na violência durante o suicídio: antes, o mesmo era frequentemente realizado com medicamento; nesse ano, vi enforcamento, corte de pulso, disparo com arma. Me pergunto em que nível de desespero a pessoa estava ao fazer isso”, observa.

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Os donos de clinica devem perguntar a seus veterinários
se estão precisando de ajuda (Foto: reprodução)

Sobre os veterinários recém-formados, a médica Fernanda cita que uma característica é a expectativa dos alunos, que entram na faculdade querendo cuidar de animais e, quando saem, têm que sacrificar pets, às vezes, três por dia. Isso aparece como diferencial da Medicina Veterinária comparada à Medicina Humana, por exemplo. É contra a vontade e vai contra o que se propuseram a fazer”, explana e menciona que, nos EUA, ainda há a questão da dívida escolar dos próprios estudos para se tornar um veterinário, que, por aqui, ainda não é uma questão.

Pode ser. E agora? Rabelo recomenda que a primeira coisa a fazer quando perceber que está em depressão ou enfrentando qualquer problema é procurar um profissional, mas alerta para um grande dificultador: “Hoje, a pessoa tem um risco de procurar um profissional por indicação do vizinho, por exemplo, mas que não está empenhado em síndromes de trabalho. Aí entra a importância de os Conselhos indicarem profissionais de algumas cidades que possam auxiliar exatamente no que estes veterinários precisam, com foco em doença laboral. Já vi colegas que passaram por sequências inadequadas de tratamento porque foram a médicos que não tinham experiência na área”, declara. Buscar ajuda é essencial, na visão de Fernanda: “As pessoas tendem a passar por crises porque estão vivendo aquilo sozinhas, acreditam que não tem mais jeito para determinada situação, mas as coisas ficam mais viáveis com ajuda. É possível superar perturbações e esse momento”, adiciona.

Em relação à terapia, a profissional recomenda uma ação conjunta entre a Psicologia e Psiquiatria. Segundo ela, os melhores resultados podem ser obtidos dessa forma. “Os donos de clinica devem perguntar a seus funcionários veterinários, não ter medo deles se sentirem ofendidos, porque isso abre espaço para a pessoa falar e se aliviar. Mas deve ser uma pergunta sem julgamento, em um ambiente privado, com comunicação aberta. É preciso escutar e se colocar no lugar, assim podemos entender o que está acontecendo”, recomenda.

Na opinião de Rabelo, é difícil de conseguir, mas a mudança na grade curricular dentro das universidades deve ser realizada, para que seja possível tratar o tema ainda com os estudantes. “É preciso ensinar o aluno que haverá situações dentro da rotina clínica e como ele deve estar preparado para isso. De repente, no final da graduação, onde um representante vai até os estudantes explicar a profissão no mercado. Ouvir experiências de quem já viveu aquilo pode ser um bom ensinamento”, pondera.

Já no mercado de trabalho, o veterinário sugere buscar um local onde se sinta acolhido de forma geral e pesar bem a carga horária e a remuneração. “Não é sempre o melhor salário que importa. Os proprietários de clínicas e hospitais devem fazer com que os veterinários se sintam valorizados e, para isso, as condições de trabalho devem ser repensadas”, finaliza.

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