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Tratamento de câncer de mama exige atualização do veterinário

Profissional deve conhecer todas as diretrizes para uma terapia de sucesso

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Muitos mitos sobre tumor de mama em cadelas e gatas acabaram, mas, em locais de população mais carente e sem acesso à informação, alguns boatos ainda existem, entre eles, a tão comentada necessidade de procriar para evitar tumores, que não possui nenhum embasamento científico. A partir disso, se dá a importância de campanhas de conscientização sobre o tema.

Hoje, no Dia Internacional do Combate ao Câncer de Mama, conversamos com médicos-veterinários que apontam algumas questões relacionadas às condutas terapêuticas para a doença em animais de companhia e comentam como os profissionais devem se preparar para atender seus pacientes. O médico-veterinário oncologista, Rodrigo Ubukata, aponta que existem diretrizes nacionais sobre diagnóstico e tratamento de tumores de mama. “Por sermos um País em que ainda há predomínio deste tipo de tumor, principalmente em regiões mais carentes, estão cada vez mais fortes e concretas as recomendações a partir dos consensos de tumores mamários idealizados e continuamente melhorados pelo Prof. Dr. Geovanni Cassali, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)”, menciona.

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Veterinários devem saber quais os melhores métodos
de prevenção, vantagens e desvantagens de tratamentos
(Foto: reprodução)

Segundo Ubukata, a literatura internacional ainda é muito controversa sobre tumores mamários, até mesmo, pela menor frequência deste tipo de neoplasia em países que possuem grandes investimentos em pesquisa, como os Estados Unidos. “Por esta razão, cada vez mais há estudos sobre estes tumores no Brasil e, com isso, recomendações nacionais foram estabelecidas. Um exemplo disso é no que se refere à cirurgia, onde a prática de remoção apenas do nódulo e a não investigação do linfonodo sentinela foi uma técnica bastante recriminada”, expõe.

A médica-veterinária especializada em Cirurgia e Oncologia de cães e gatos, Liliana Reis Rosa, insere que, dentro dos Congressos de Oncologia Veterinários Brasileiros, profissionais se reúnem para atualização de tratamentos e técnicas. “O que temos de consenso é que deve ser realizada a mastectomia (retirada das glândulas mamárias) total sempre que possível, não sendo aconselhada a retirada somente da glândula mamária acometida, pelo alto risco de incidência nas glândulas permanecentes. Outra afirmativa é de que o exame histopatológico deve ser realizado em 100% dos casos para um completo diagnóstico e prognóstico da doença, bem como a necessidade de tratamentos adjuvantes (como a quimioterapia)”, inclui.

Castrar para prevenir. Ubukata explica que, ainda hoje, os estudos que falam sobre prevenção de tumores mamários em cadelas utilizam dados da primeira pesquisa de Dorn e colaboradores, publicada em 1968, sobre o efeito protetor da castração antes do primeiro cio como o mais eficaz, mas ainda existindo (porém menor) se realizada até antes do terceiro cio. “Meta-análises desses trabalhos estão sendo realizadas, pois acredita-se que a metodologia na época possuía falhas, mas, historicamente, observamos que a castração precoce previne tumores de mama”, discorre.

Ainda sobre o tema, o oncologista relata que estudos mais recentes estão descrevendo algumas desvantagens em castrações muito precoces, mas reforça que se tratam de pesquisas mais novas e ainda carecem de mais comprovações antes de fazer grandes alardes. “O que é fato é que muitas pessoas exageram nas castrações. Estão realizando cada vez mais cedo (muito cedo, aliás) e isto pode trazer problemas para o pet no futuro, como doenças ortopédicas, dermatológicas, hormonais e, até mesmo, outros tipos de tumores que não os de mama”, alerta.

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Castração muito precoce pode causar problemas, incluindo outros tipos
de tumores que não os de mama (Foto: reprodução)

Conhecimento pertinente. A atualização do veterinário, na visão de Ubukata, independentemente do câncer de mama, deve ser constante. Para ele, um profissional que não se atualiza, rapidamente, é deixado no esquecimento. “Com a velocidade em que as informações e pesquisas hoje são divulgadas no mundo inteiro, profissionais e, inclusive, tutores têm acesso a elas de maneira muito fácil. Por isso, a leitura de publicações científicas de boa qualidade nacionais e internacionais (e não pelo ‘Dr. Google’), além de participação em congressos, simpósios e cursos de atualização de entidades, sabidamente reconhecidas por priorizem a qualidade do ensino, devem ser constantes”, avalia.

Essa “reciclagem intelectual” não se direciona apenas aos especialistas, como dito por Ubukata, mas, sim, a qualquer profissional atuante da Medicina Veterinária, principalmente o clínico. Muitas vezes, antes de chegar a um especialista, esse paciente passará por atendimento com o clínico e, mesmo que não atue ou não tenha familiaridade com a Oncologia, deve saber quais são as diretrizes mais recomendadas no tratamento da doença. O clínico geral ainda é e sempre será uma peça importante entre tutor – paciente – especialista”, pondera.

Já o especialista, para Ubukata, tem a obrigação de saber quais são os melhores métodos de prevenção, vantagens e desvantagens, métodos corretos de diagnóstico e quais os melhores tratamentos a serem realizados de acordo com a espécie e tipo de neoplasia. “Ele deve saber taxas de respostas em cada tipo de tratamento, validações em estudos nacionais e internacionais, tempo de sobrevida e livre de doença que cada um apresenta para ajudar os tutores qual caminho será melhor seguir. Nem tudo que está descrito na literatura significa que é o melhor para todos os pacientes. Cada um deve ser avaliado individualmente e as decisões devem ser tomadas levando em conta fatores prognósticos positivos e negativos de cada caso, bem como expectativas dos tutores”, recomenda.

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Comportamento da neoplasia e formas de tratamento
do câncer mamário em gatas é diferente das cadelas
(Foto: reprodução)

#OutubroRosa. Para Ubukata, a campanha, originalmente idealizada para conscientização e prevenção de tumores de mama em mulheres, trouxe muitos pontos positivos para desmistificar a doença, assim, facilitar e diagnosticá-la cada vez mais precoce. “Com isso, a taxa de controle elevou bastante. Esse é o objetivo, a exemplo do que ocorreu na Medicina Humana, que aconteça na Veterinária: desmistificar e conscientizar os tumores de mama. Mas, hoje, a Outubro Rosa é muito mais que o tumor de mama, tanto em humanos como animais, ela chama atenção para um problema que é real: o câncer”, destaca.

Por fim, o oncologista considera importante reforçar que tumores de mama têm relações diretas com “status reprodutivo” de cadelas e gatas, mas que não são os únicos fatores. De acordo com ele, o aumento da expectativa de vida já demonstrou que tumores de mama aumentam quanto maior o tempo de vida do animal. “A obesidade já foi relacionada a cadelas como fatores de influência e, assim como em humanos, o sobrepeso em animais têm se tornado um grande problema de saúde, não só na Oncologia. A castração precoce em gatas também previne tumores de mama, mas é importante ressaltar que a taxa de prevenção, bem como o comportamento da neoplasia e formas de tratamento, é completamente distinta das cadelas: é necessário compreender essas diferenças ao atender fêmeas, bem como saber que machos, apesar de menos frequente, também podem apresentar tumores mamários”, informa.

Ubukata ainda deixa uma mensagem para os colegas de Medicina Veterinária, especialmente para as mulheres: “Você que se dedica para a melhor saúde dos animais, já se cuidou hoje? Faça a prevenção, o autoexame, vá ao médico regularmente”.

Vale lembrar. Segundo dados do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o câncer de mama possui alta incidência em animais de estimação. Cerca de 45% das cadelas e 30% das gatas desenvolvem tumores mamários, sendo que 85% apresentam comportamento maligno. Como explicado por Liliana, o “câncer” de mama é o desenvolvimento anormal de células malignas. “Destina-se a palavra ‘câncer’ quando já sabemos que o tumor ou neoformação é maligno. Os tumores mamários (benignos ou malignos), normalmente, se apresentam como nódulos circunscritos, de tamanhos variados, podendo apresentar ulceração, inflamação ou aderência nos planos mais profundos”, descreve.

A profissional aponta que o tumor mamário acomete, principalmente, fêmeas de meia-idade a idosas (entre 7 e 12 anos), porém a idade de incidência pode variar com o tempo de vida das raças. “Assim, cães de grande porte tendem a apresentar tumores mamários em idade mais jovens, pois, naturalmente, apresentam menor tempo de vida”, observa e lista as raças nas quais se observa maior incidência da doença: “Poodle, Daschund e Yorkshire. A variação no acometimento racial se dá pela localização geográfica e as raças mais populares. Nos gatos, os mais acometidos são os Sem Raça Definida (SRD)”, adiciona.

A equipe da Ciasulli Editores, editora que veicula a Revista Cães&Gatos VET FOOD, está de rosa durante a campanha:

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