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Veterinária de Desastres: profissional comenta as lutas e recompensas

Preparo técnico e emocional dos veterinários é essencial para atuação assertiva

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

com colaboração de Wellington Torres

Ela existe e, talvez, muitas pessoas não saibam da sua real importância até presenciar a atuação destes profissionais. A Medicina Veterinária de Desastres se categoriza por meio de acontecimentos naturais ou causados pelo homem e se tornou uma categoria dentro da Medicina Veterinária recentemente.

O médico-veterinário Arthur Augusto Tavares do Nascimento conta que, em 2011, quando ocorreu o desastre de deslizamentos e enchentes em Nova Friburgo (RJ), ele e a veterinária Carla Sássi iniciaram um trabalho em equipe. “Nos mobilizamos para ir até lá depois de uma cena em que vimos, onde uma senhora estava em cima de uma laje e a enchente vinha muito forte, ela se amarrou em uma corda e se jogou, mas, quando bateu dentro da água, o animal que carregava no colo foi levado, na cidade de São José do Vale do Rio Preto (SP)”, declara.

As funções a serem desempenhadas por um médio-veterinário em situações como essas, são várias, conforme explica Nascimento: “Você trabalha como clínico, como cirurgião, psicólogo, como assistente social, você faz todo o tipo de trabalho, até de bombeiros, salvando a vida dos animais”. Na visão do profissional, é um erro não haver treinos e práticas dentro do curso de Medicina Veterinária para o futuro veterinário saber lidar com isso. “Você aprende a lidar com essas situações diante de treinamentos. Eu e Carla aprendemos a trabalhar nisso na cara e na coragem, depois procuramos instrumentos de aperfeiçoamento, como curso de bombeiro civil, de brigadista, de nós e amarrações e, também, de terapia, que temos que fazer”, revela.

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Nascimento afirma que, nesta atuação, é preciso
saber a hora de trabalhar, de atuar e de recuar
(Foto: reprodução)

E mesmo com estes veterinários trabalhando em diferentes tipos de situações, entrando na lama, no meio de enchente e do meio do fogo, Nascimento conta que ouve, de muitas pessoas, palavras negativas: “Lidamos com a população totalmente fragilizada, atingida, que perdeu entes queridos e alguns que não têm essa sensibilidade de que os animais são parte de muitas famílias e nos julgam: ‘olha o tanto de pessoas feridas e mortas e eles vêm aqui buscar animal’. Escutamos muito isso em Friburgo”, lamenta.

Situações e dificuldades. Algo menos frequente, segundo o veterinário, é a eutanásia. Em todo esse tempo em que trabalhou em desastres, que já somam 8 anos, o único caso que não teve outra alternativa foi em Brumadinho (MG). “O animal já estava há três dias agonizando na lama, preso a uma carroça e já havia aspirado aquelas substâncias”, narra.

Ainda diante dessa cena, quando há necessidade de eutanásia, é realizada uma reunião com os veterinários envolvidos na situação a fim de chegar em um denominador comum, dentro da legislação e da normativa do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). “Tudo dentro da ética e com muita tristeza, já que vamos até esses locais salvar vidas, não tirar. Mas chega um certo momento onde a eutanásia é um tratamento, um descanso que você dá para o animal. Não podemos ser egoístas em não os deixar descansar”, argumenta.

Situações e dificuldades. Algo menos frequente, segundo o veterinário, é a eutanásia. Em todo esse tempo em que trabalhou em desastres, que já somam 8 anos, o único caso que não teve outra alternativa foi em Brumadinho (MG). “O animal já estava há três dias agonizando na lama, preso a uma carroça e já havia aspirado aquelas substâncias”, narra.

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É muito rara a necessidade de eutanásia dos animais,
apenas quando estão sem chance de resgate e atendimento
(Foto: reprodução)

Ainda diante dessa cena, quando há necessidade de eutanásia, é realizada uma reunião com os veterinários envolvidos na situação a fim de chegar em um denominador comum, dentro da legislação e da normativa do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). “Tudo dentro da ética e com muita tristeza, já que vamos até esses locais salvar vidas, não tirar. Mas chega um certo momento onde a eutanásia é um tratamento, um descanso que você dá para o animal. Não podemos ser egoístas em não os deixar descansar”, argumenta.

Um dos momentos mais difíceis de sua carreira, Nascimento afirma ter sido em Brumadinho pelo fato de ter, aproximadamente, 300 pessoas mortas. “Ter que atuar ao lado de corpos para fazer o resgate dos bois, as dificuldades que encontrei pelo fato de os animais estarem presos no meio da lama, sendo que, para ter acesso a alguns dos animais, era só com helicóptero, exigiu muito foco no trabalho”, relembra.

Ele destaca que, no caso de Brumadinho, foi um trabalho em equipe, em conjunto com o Corpo de Bombeiros, com a Defesa Civil e com os médicos-veterinários. “Não teve erro, os animais foram sedados, içados no helicóptero e, 10 minutos depois, já estavam em pé, mesmo os que estavam quatro/cinco dias na lama. Foi 100% de sucesso, sem contratempos, apesar de toda a dificuldade”, avalia.

Equipe e preparo. Dentro da equipe, existem subdivisões, como explicado pelo profissional: “Temos a equipe de resgate de campo; a de Medicina Veterinária Legal, que recebe os animais encontrados mortos, faz necropsia e coleta dados; Medicina Veterinária de Abrigos Temporários, que faz o acompanhamento dos animais resgatados; de Saúde Única, que cuida da vacinação da equipe, saúde e alimentação; equipe de logística, que realiza a pesquisa para o plano de contingência; equipe que faz o Plano Operacional Padrão (POP), que todos devem seguir; e equipe de comunicação, para fazer arquivos de material”, enumera.

Para Nascimento, esses profissionais devem procurar capacitações e pessoas que tenham experiencia na área. “Também é preciso saber seguir ordens, trabalhar em equipe, que é o mais importante, e ser humilde. Tem que saber a hora de trabalhar, de atuar e de recuar”, destaca. Em relação ao emocional, o profissional diz que aprendeu a lidar nas ocorrências. “Acredito que a Saúde Única, que é a Medicina Veterinária do Coletivo, onde envolvemos todos os profissionais, desde o médico, o médico-veterinário, assistente social, o psicólogo, é a melhor maneira possível de lidar com isso”, observa.

Quando há problemas, o melhor pensamento, na opinião de Nascimento, é pensar que há outros animais para resgatar e cuidar dos que já foram resgatados, deixando o sentimento de impotência de lado. “Se ficarmos abalados com o resgate que não conseguimos fazer, isso pode interferir no próximo, como uma frustração. Focando é que conseguiremos salvar mais vidas”, reforça.

Assim, a palavra que melhor define essa atuação para Nascimento é ‘gratidão’. “Se não fosse essa gratidão que recebemos dos animais que resgatamos, do olhar que ganhamos quando conseguimos retirá-los da lama, quando damos um suporte, um alívio de dor, nada faria sentido. Todo o trabalho em equipe com os outros profissionais é maravilhoso, um aprendizado diferente. Você lidar com a população, receber os parabéns, as pessoas estarem gratas pelo que você está fazendo pelos animais, isso não tem como definir”, comemora.

O profissional ainda declara: “Eu tenho a melhor profissão do mundo: a Medicina Veterinária. Tenho um orgulho imenso de ser médico-veterinário, tenho uma gratidão imensa por Deus e minha família ter proporcionado isso. Eu jamais pensei em seguir outra profissão. Tenho os melhores colegas e um novo ensinamento todos os dias. O apoio que recebemos do Conselho e o reconhecimento pelo nosso trabalho também significam muito”, finaliza.

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