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Onze espécies já podem ter sido extintas por ataques de cães, diz estudo

Natureza das agressões, no entanto, costuma ser atribuída aos coiotes

A hipótese de que cães podem estar ameaçando a vida selvagem tem sido reforçada pelo estudo da pesquisadora de ecologia comportamental, do Departamento de Agricultura do Centro Nacional de Pesquisa de Vida Selvagem no Estado de Utah, nos Estados Unidos, Young. A estudiosa defende que esses animais, quando não domesticados, podem ter um comportamento mais agressivo e, naturalmente, perseguir outros.

A preocupação, no entanto, é de que esses cães persigam os animais em extinção e que isso se torne mais um agravante para o desaparecimento dessas espécies. Segundo Young, outros pesquisadores ao redor mundo apresentam cenários semelhantes.

A cientista começou esse trabalho há uma década, na Mongólia (Ásia), onde estudava bezerros de antílopes saiga, uma espécie ameaçada de extinção. "Eles já estavam ameaçados e nosso trabalho de campo mostrou que cães de rua estavam perseguindo esses animais", diz Young.

O medo de que esse quadro se agrave é ainda maior quando a pesquisadora salienta o número crescente de cães que estão sujeitos ao abandono, ainda filhotes, e que não serão domesticados. Isso faz com que esses animais invadam territórios que costumava ser um santuário para a vida selvagem.

Um estudo realizado em 2017 mostrou que os cães estiveram envolvidos na extinção de, ao menos, onze espécies, entre elas, a Porzana sandwichensis, uma ave do Havaí, e do Tachygyia microlepis, um lagarto de Tonga. "Cachorros também são uma ameaça conhecida ou em potencial a 188 espécies que correm risco de extinção", explicaram os autores da pesquisa.

Entretanto, antes dos estudos, a natureza desses ataques já foi atribuída a outras espécies. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, por exemplo, voltou sua atenção recentemente a casos em que cães sem tutor atacavam criações de animais e nos quais a culpa tinha sido antes atribuída a lobos e coiotes.

Origem do problema. "Na Califórnia, esses bandos de cães vêm, provavelmente, de fazendas ilegais de maconha que, possivelmente, utilizam esses animais para proteger seus cultivos e que, ao fim da temporada de colheita, os libertam. Esse tipo de cachorro é muito agressivo. Nunca utilizou uma coleira ou teve um proprietário", diz Young.

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Cães estão na terceira posição, atrás de gatos e roedores,
como os mamíferos predadores invasores que mais
causam danos à vida selvagem (Foto: reprodução)

Essa, no entanto, não é a única preocupação. Estes cães também podem carregar e transmitir doenças letais para outros animais. Como explica o cientista-chefe da Fundação Born Free, Claudio Sillero: "Esses cães utilizaods para proteger criações de animais são o principal vetor de doenças que afetam tanto as espécies selvagens quanto humanos".

A organização, na qual Sillero atua, é voltada para a defesa da vida selvagem. O cientista também é fundador do Projeto Lobo da Etiópia, dedicado à preservação dessa espécie. "Vacinar e controlar a ocorrência de raiva em cães domésticos reduz o impacto sobre a vida selvagem, mas também beneficia o homem, porque é uma doença letal que pode ter consequências terríveis para pessoas que são mordidas por cães vadios. E as criações de animais são suscetíveis a raiva, então, isso gera um custo para uma comunidade rural", explica Sillero.

A equipe de Sillero conseguiu imunizar os lobos da Etiópia por meio de vacinas orais colocadas em iscas. "A maior vantagem dessa abordagem é que ela se torna uma estratégia proativa de vacinação. É menos estressante para o animais sem ter um risco de gerar um distúrbio para sua estrutura social", reforça o cientista.

Como evitar? Para que esse cenário se agrave ainda mais, Young ressalta a importância da realização de mais estudos. Segundo ela, são necessárias mais pesquisas para quantificar melhor os ataques de cães a animais selvagens e, assim, entender por que e como isso está ocorrendo e o que poderá ser feito para acabar com isso.

"Não acho que exista uma solução única, mas podemos fazer um trabalho melhor em educação e conscientização. Se as pessoas estiverem mais cientes das consequências, quando um cão começar a perseguir um animal selvagem ou animais de criadores, seus donos podem treiná-lo e controlá-lo", explica a estudiosa.

Sillero acrescenta que é essencial que as pessoas assumam sua responsabilidade pela forma como criam e cuidam de seus cães. "Cada vez mais, cães domésticos são abandonados e, como eles são criaturas resilientes e adaptáveis, eles conseguem viver na natureza", afirma o pesquisador.

"Eles formam bandos e procuram comida, que muitas vezes está no lixo ou entre restos deixados por humanos, o que os atraem para vilarejos e cidades. Precisamos de políticas de saúde pública para reduzir um problema sério de saúde e segurança", elucida o pesquisador.

Fonte: BBC, adaptado pela equipe Cães&Gatos.

 

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