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Profissionais comentam fontes e efeitos da deficiência de taurina

Em felinos, sua ausência pode causar problemas cardíacos e reprodutivos

Caroline Fredrich Dourado Pinto,

Luciano Trevizan 

O ácido 2-aminoetanossulfônico, popularmente conhecido como taurina, é um β-aminoácido sulfurado livre essencial para gatos e não-essencial para a maioria dos mamíferos. Sua estrutura foi descoberta e isolada na bile de boi (Bos taurus), em 1827, por pesquisadores austríacos (Demarcay, 1838), a partir do qual foi atribuído o nome, taurina, à molécula.

Embora classificada como um aminoácido, a taurina não possui a estrutura clássica do grupo, uma vez que o grupamento amino está unido ao carbono β e não ao carbono α, e contém um grupamento sulfônico (-SO3) ao invés do grupamento carboxílico (COOH), como nos demais aminoácidos. Além de diferir da estrutura básica aminoacídica, a taurina se destaca ainda por não ser incorporada durante a síntese proteica. Assim, circula livremente em abundantes concentrações no citosol, embora em quantidades variáveis nos tecidos e fluídos.

Elevadas concentrações são encontradas em algas, como Rodophytas (algas vermelhas), Phaeophyceae, (algas marrons), e Chlorophytas, (algas verdes), (Kataoka e Ohnishi, 1986), frutos do mar e tecidos animais, como cérebro, retina, musculatura esquelética e vísceras como coração, fígado e rins. Está ausente em plantas e presente em quantidades mínimas nas bactérias. Deste modo, dietas estritamente vegetarianas são comumente deficientes em taurina. Atualmente, existem fontes purificadas disponíveis na forma cristalina, capazes de suprir a exigência quando suplementada na dieta.

A quantidade de taurina nos tecidos varia de acordo com o estágio de desenvolvimento, sendo abundante em animais neonatos com acentuada redução na idade adulta. Em gatos, a concentração de taurina circulante diminui, gradualmente, em 75% até a idade adulta (Sturman et al., 1988).

A síntese endógena de taurina ocorre ativamente em diversos tecidos, mais intensamente no fígado e cérebro. Os precursores são os aminoácidos sulfurados metionina e cisteína que, após sucessivas conversões resultam em taurina. A biossíntese é catalisada pela ação de diversas enzimas, com destaque para duas enzimas chave do processo: cisteína dioxigenase (CD) e cisteína sulfinato descarboxilase (CSD). A primeira, CD, catalisa a oxidação da cisteína à cisteína sulfinato, que em seguida é descarboxilada a hipotaurina pela CSD. Por fim, a hipotaurina é oxidada a taurina.

Leia agora o artigo completo na edição de outubro da C&G VF.

Ainda, confira as referências bibliográficas utilizadas pelos autores:

Demarcay, H. Uber die Natur der Galle. Ann Pharmazie. 27:270-291, 1838.

Kataoka, H., Ohnishi, N. Ocurrence of taurine in plants. Agricultural and Biological Chemistry. 50, 7:1887-1888, 1986.

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