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Profissional comenta os efeitos da caça na biodiversidade brasileira

Muitos caçadores, além de cometerem um crime, utilizam cães para facilitar o ataque

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Onças, tatus, jacarés, capivaras e javaporcos, entre tantas outras espécies de animais, são alvo de caça no Brasil. E o problema não é apenas em nosso País. Um relatório divulgado, em 2019, pela Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que as atividades humanas ameaçam mais espécies atualmente do que nunca e que cerca de 25% das espécies de plantas e de animais estão vulneráveis.

Por aqui, na visão da fundadora da Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), Silvana Andrade, é de extrema importância o aprimoramento dos mecanismos de fiscalização a fim de acabar com a impunidade a quem pratica a caça ilegal.  “Isso se aplica tanto à caça quanto a outros abusos cometidos contra a fauna silvestre, como a captura e o tráfico de animais. Embora a legislação classifique, claramente, estas atividades como crimes ambientais, o máximo que acontece é o indivíduo pagar uma multa e prestar serviços comunitários. Dependendo do lucro que ele obtém com suas práticas ilícitas, as condições atuais fazem com que o crime compense, entende?”, esclarece.

Caça fere os seres sencientes e desrespeitam o direito de
as gerações futuras terem um ecossistema equilibrado
(Foto: reprodução)

Para ela, é preciso olhar para os crimes contra a fauna como aquilo que eles são, de fato: “Atentados contra a vida, que ferem seres sencientes e desrespeitam o direito de as gerações futuras terem um ecossistema equilibrado e sadio. A partir dessa perspectiva, as penas poderiam ser aumentadas ou, pelo menos, aplicadas com maior rigor e menos atenuantes”, opina.

Para que isso seja possível, Silvana aponta que, não apenas falta uma campanha de conscientização, como sobram, hoje, elementos de desinformação sobre o assunto. “Veja o caso do javaporco: a espécie foi introduzida no meio ambiente brasileiro por culpa de criadores, que pretendiam comercializar a carne desse animal, não mantiveram condições adequadas de contenção e permitiram sua fuga para o campo aberto. Ele procriou rapidamente e os defensores da caça logo trataram de apontá-lo como inimigo número 1 do meio ambiente, que ‘precisa ser eliminado’. Com isso, abriu-se uma brecha na legislação e, hoje, a caça ao javali é, não apenas permitida, como até incentivada, em nosso País. Mas esses mesmos caçadores defendem que somente animais adultos sejam abatidos, de modo a assegurar que nunca faltem espécimes disponíveis para as miras de suas espingardas. Só isso já invalida a retórica de ‘preservação ambiental’”, destaca.

Quanta falta faz... Como observado por nossa entrevistada, pode até ser que, em baixa densidade, os javaporcos desempenhem a mesma função ecológica de espécies semelhantes, como as antas e as queixadas, que fazem parte do nosso ecossistema. “Infelizmente, as antas foram extintas na Mata Atlântica e isso já afeta a biodiversidade dos poucos remanescentes desse meio natural, do qual restam menos de 8%. Ocorre que as antas atuavam como dispersoras de sementes e fazem muita falta. Nada disso é colocado em um debate honesto, transparente e com o público. É como se a retórica divisionista que se tornou habitual na política fosse transportada para todos os setores e, no caso da caça ao javaporco, este fosse o ‘vilão’ a ser enfrentado. Penso também que, em uma sociedade assolada pela violência como a nossa, a prática da caça devesse ser discutida pelo seu aspecto ético e humano: como o incentivo a um pseudoesporte tão sangrento, baseado em perseguição e morte, pode ser positivo?”, questiona.

Silvana ainda lembra que os caçadores costumam utilizar cães para farejar e indicar o caminho seguido pelas presas e, também, para cercar o animal perseguido e mantê-lo acuado até a finalização da morte. “Há, ainda, os chamados cães de agarre, que são pesados e fortes. Sua função é atacar a presa e mantê-la de cabeça para baixo, para que o caçador termine de matá-la com armas brancas. Obviamente, na caça a animais grandes, como os javalis e as onças, muitos cães sofrem ferimentos graves. Se pensarmos bem, seja na perseguição, na contenção ou no ataque propriamente dito, quem realmente se arrisca é o cão. O caçador humano só tem o trabalho de dar alguns tiros ou de terminar a matança com o uso de armas brancas”, denuncia.

Concluindo, Silvana analisa que as pessoas estão habituadas a pensar no planeta, na natureza, nos animais e em tudo que as rodeiam como “coisas que as pertencem”. “Entretanto, não é bem assim. Cada ser vivo possui seus direitos intrínsecos, cada vida tem seu valor. Precisamos reavaliar o nosso papel no mundo. Por maior que seja o nosso protagonismo, não somos os únicos com direito a existir e a ter a dignidade respeitada”, finaliza.

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