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Profissional ensina a não cometer erros na socialização de cães

Má educação pode resultar em vários tipos de agressividade

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Uma medida essencial para garantir uma vida adulta sem traumas e distúrbios comportamentais aos cães e gatos, quando deparados com novas realidades, é providenciar uma boa socialização na fase de filhote.

Essa adaptação se inicia com a chegada do animal em sua nova casa. O médico-veterinário com especialização em comportamento animal, que atua na Cão Cidadão (São Paulo/SP), Fábio Antônio, afirma que é preciso preparar o ambiente para que o filhote não seja exposto a nenhum risco. “É importante ficar atento com escadas, fios, tomadas, móveis ou objetos que podem ser destruídos, principalmente se o pet ficar sem supervisão”, orienta e declara que a comparação é simples: o filhote é uma criança. “Ele vai chegar e começar a testar, só que, não como a criança, o cão começa a testar com a boca e o que ele achar que é gostoso morder ele vai ficar mordendo. Se o tutor não tiver como ficar sob supervisão, pode deixar ele sozinho em um ambiente que não tenha muita coisa para destruir, principalmente se essa coisa for um fio ou uma madeira que ele pode engolir vários pedaços”, salienta.

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Profissional relata que ficar sozinho é contra
a genética do cachorro (Foto: C&G VF)

Antônio revela que, em relação à primeira noite do animal na casa, ele costuma recomendar o contrário do que muita gente diz. O profissional aconselha o tutor a deixar o animal dormir junto dele nessa primeira vez. “Mesmo que seja em uma caixa de transporte, porque o filhote não consegue controlar muito bem as necessidades, mas, se for nessa caixa, dificilmente vai fazer. Se ele começar a chorar está mais fácil para o tutor realizar um contato ou colocar um paninho com o cheiro da ninhada. Assim, o pet começa a se habituar ao cheiro do tutor também e vai saber que ele está ali e a tendência é o animal parar de chorar e, aos poucos, o proprietário consegue tirar ele do quarto”, explica.

Durante o dia, o profissional diz que é essencial valorizar todo o ambiente da casa e, principalmente, o local onde o animal vai ficar. “É importante que esse lugar seja muito legal e que o tutor possa interagir com o cão naquele ambiente, oferecer comida durante o dia e fazer com que ele se sinta muito à vontade e passe a gostar de estar ali. Aos poucos, o proprietário deve começar a sair e voltar, aumentar o tempo de sua ausência e quando o pet estiver ficando sozinho sem problemas, é sinal de que pode dormir fora do quarto”, instrui. De acordo com Antônio, normalmente, as pessoas deixam o cão em um canto e pensam “se chorar, uma hora cansa e para”, porém, as pessoas não conseguem fazer isso. “Pegam o cão, agradam e isso reforça o comportamento de dar o que ele quer e isso, lá na frente, é mais difícil retirar do comportamento animal. Por isso é mais fácil antecipar, fazer de uma forma gradual, além do que o cão ainda pode ficar traumatizado por ficar só”, insere. O profissional relata que ficar sozinho é contra a genética do cachorro, que é um animal de grupo. “Ele foi geneticamente programado para ficar junto ao dono e acredita que, caso ele se separe do grupo, pode morrer, principalmente quando filhote. Se ele fica sozinho pode achar que está em uma situação de vida ou morte e isso pode traumatizar o animal na fase de socialização. Caso ocorra um trauma, não dá para reverter depois”, frisa.

O especialista apresenta uma definição de grande valia: “’Os problemas comportamentais em cães nada mais são do que comportamentos naturais apresentados em situações, contextos e formas não adequadas ao bom convívio entre cães e seres humanos’. Essa é uma definição que adoro e foi feita por uma pessoa que confio muito: eu mesmo”, brinca. Se o cão late muito, faz necessidades fora do lugar não é problema para ele, mas sim um comportamento natural segundo Antônio. “Latir é normal, cachorro late, gato mia. Se o cão está roendo as coisas porque está na troca de dentes, para ele, é normal, pois está aliviando o desconforto que está sentindo. Os problemas comportamentais, na verdade, são nossos. Nós que temos que criar um vínculo e uma comunicação com eles para dizer o que esperamos e direcionar esses comportamentos naturais para as coisas certas. Se ficarmos apenas coibindo, vamos gerar outros problemas comportamentais”, pondera. Ele explica que a destruição de objetos é necessidade natural, por isso é importante oferecer algo para eles roerem. “Osso defumado ou brinquedo de náilon duro, que se desfaz em pedaços bem pequenos para o cão não engolir ou, se engolir, não causar nenhum problema de saúde”, completa.

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Tutores de cães podem minar os comportamentos
que não desejam (Foto: reprodução)

Evitando problemas comportamentais. O profissional aponta três tópicos que considera os mais comuns. O primeiro é o animal se habituar a fazer suas necessidades no local indicado pelo tutor. “Antes de mostrarmos para o cão qual o lugar correto, precisamos saber qual é esse lugar. Muitas vezes, as pessoas reclamam que o cão urina pela casa inteira e aí pergunto onde a pessoa quer que ele faça e ela responde que não sabe, então como ele vai saber?”, questiona. Segundo ele, o tutor deve definir o local e tentar trabalhar o ambiente para favorecer o acerto. “Toda vez que o pet acertar deve-se recompensar. Assim, ele aprende”, explica. Caso o animal faça no lugar errado, Antônio orienta o tutor a ignorar. “Mesmo que o proprietário esteja se remoendo por dentro, deve se controlar, porque, se der bronca nessa hora, existem algumas coisas que podem acontecer na cabeça do cachorro”, menciona.

Uma dessas reações referidas pelo profissional é o animal considerar a bronca como uma atenção. “O tutor está ocupado, ele urina fora do lugar e o dono xinga. Ele não estava recebendo atenção e passou a receber. Então toda vez que quiser chamar atenção, faz xixi fora do lugar e isso vira uma bola de neve”. Antônio também cita outra situação: se o cão, realmente, entender que é uma bronca e isso for desagradável, ele pode começar a associar que a bronca foi por conta do ato e não por conta do lugar. “Assim, ele começa a se esconder para urinar, mas isso não quer dizer que ele saiba que aquilo é errado, pois está sentindo vontade, faz porque não aguenta mais e se esconde com medo”, narra. Porém, depois que o cão entendeu o lugar certo e comete o erro para demarcar território, o tutor pode dar uma bronca, mas tem que ser impessoal, como o especialista orienta: “O cão está urinando e ai o tutor bate ou derruba alguma coisa de propósito para ele tomar um susto. Ele vai achar que toda vez que ele urinar ali, ‘Deus’ dá uma punição nele”, satiriza.

O segundo item lembrado por Antônio é induzir o animal ao acerto. “Digo para o tutor deixar o pet em um espaço reduzido, porque, para ele, ainda será um bom espaço e oferecer várias opções para fazer suas necessidades. A tendência é procurarem o local mais longe de onde eles comem e dormem para fazer as necessidades”, afirma.

Por consequência, chega a hora da recompensa para os acertos. “Deve ser algo que valha a pena para ele, então tem que ser petisco, porque carinho ele ganha só por existir. A atitude será diferente se a prenda for um petisco especial que ele só ganha quando faz alguma coisa certa”, garante.

O especialista revela que também existem os treinos discriminativos, que servem para deixar claro para o animal o que ele pode e o que não pode. “Quando ele estiver com um brinquedo, fazendo algo que o tutor queira que ele faça, a ação deve ser valorizada. O proprietário deve correr atrás, fingir que também quer o brinquedo, fazer cabo de guerra. Dessa maneira, o brinquedo fica com o cheiro do tutor e o animal começa a associar o objeto sua presença e percebe que, quando ele estiver muito agitado, pode descarregar naquela peça”, explana.

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Filhote não vem com um chip programado para brincadeira
e para obedecer ao dono (Foto: reprodução)

Em contrapartida, os donos de cães podem minar os comportamentos que não desejam. “Pode ser utilizado um repelente nos móveis para evitar roeduras. É importante aplicar o produto de uma em uma hora e levar o animal junto para escolher o repelente, dar para o cão cheirar e comprar o que ele menos gostar”, afirma.

Em relação à agressividade, Antônio garante que, quando o pet é agressivo, a culpa é do tutor. “Nós causamos ou reforçamos comportamentos agonísticos nos cães”, assegura e expõe que existe uma categorização dentro do tema agressividade: “por medo, territorial, possessividade e por transferência. Normalmente, aparecem várias categorias ao mesmo tempo”, revela.

Por medo. É quando o cão não quer que a pessoa se aproxime dele, se encolhe enquanto o tutor continua tentando chegar perto. Então, ele rosna e, quando a pessoa coloca a mão, ele morde. “O animal não queria morder essa pessoa, se quisesse não iria avisar tanto antes, já iria morder. Então, o cão não gosta de morder, pelo menos a maioria deles. E, depois que ele já incorporou essa agressividade por medo, não vai avisar todas as vezes, passando a morder direto”, explica o especialista.

Territorial e possessividade. O animal possui seu território, muitas vezes, não sai dali, e quando entra alguém, ele quer espantar essa pessoa. “Quando ele está defendendo algo, seja o território ou um osso, e acredita que alguém vai tirar dele, ele defende porque ele tem medo de perder. Se ele tem medo de perder é uma agressividade por medo. Por isso acredito que a maioria dos comportamentos agressivos é originada do medo”, opina.

Por transferência. Segundo o profissional, essa é a única opção que se perguntasse para o cão porque ele mordeu nem ele saberia explicar, se soubesse falar. “Essa agressividade é manifestada porque o animal está tentando fazer algo, muito excitado com aquilo e alguém encosta nele ou tenta pausar essa ação. Ele morde por impulso, porque a pessoa está atrapalhando”.

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