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Profissional explica escolha de medicamentos veterinários para pets

Há riscos quando se emprega medicamentos humanos em cães e gatos?

O médico-veterinário pode prescrever medicamentos para uma variedade de espécies animais e, neste aspecto, a farmacologia veterinária se distingue da farmacologia humana. Esta variação na resposta pode ser atribuída devido às características farmacodinâmicas (ou seja, a ação dos medicamentos e substâncias químicas no organismo) e, principalmente, devido às características farmacocinéticas, que é o estudo do movimento do medicamento no interior de um organismo vivo, de cada espécie animal. Considerando estes aspectos, a Professora Titular do Departamento de Patologia, Farmacologia e Toxicologia Veterinária, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP, São Paulo/SP), Silvana Lima Górniak, desenvolveu um estudo com o objetivo de mostrar algumas características relacionadas à farmacocinética dos medicamentos, ou seja, como a absorção, a distribuição, a biotransformação e a excreção das substâncias podem causar grandes disparidades de respostas nos animais. 

Absorção. Considerando que uma das vias mais comuns de administração de medicamentos, para as diferentes espécies de animais domésticos, particularmente cães e gatos, é a oral, e que as maiores discrepâncias no que se refere à absorção encontrada quando se administra o medicamento por esta via, ela comenta alguns aspectos da absorção quando da administração de substâncias por via oral. “A absorção descreve a taxa pela qual o medicamento deixa o seu sítio de administração e adentra a corrente sanguínea e em que extensão isso ocorre”, explica. 

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Medicamento administrado por via oral atinge o
trato gastrointestinal (Foto: reprodução)

Considerando-se a disposição anatômica entre espécies, ela conta que a absorção do medicamento pode variar. “Nesse sentido, se compararmos a capacidade relativa dos componentes do trato gastrintestinal do cão ou gato com a do homem, observa-se que os animais têm, relativamente, três vezes maior capacidade gástrica que o ser humano. Assim, embora essas espécies tenham praticamente o mesmo pH estomacal (ácido) e similar capacidade de esvaziamento gástrico, ou seja, mesma velocidade para a chegada do medicamento no intestino delgado ID, que é o local onde basicamente ocorre a absorção, o ID é, proporcionalmente, ao redor de 30% menor no pet quando comparado ao do ser humano”, narra. Além disso, ela menciona que em cães, de maneira geral, o tempo para a absorção de substâncias ao nível do ID é mais lenta que em humanos. Dessa maneira, pode-se entender que a absorção do medicamento para cães e gatos, se de formulação humana, deverá ser consideravelmente afetada. 

Outro conceito farmacocinético diretamente atrelado à absorção e de grande interesse para o clínico é a biodisponibilidade, que se refere à quantidade de um medicamento, contido em determinada forma farmacêutica e que, ao ser administrada, atinge não só a circulação sanguínea, como também o local de ação. “Por exemplo, um medicamento administrado por via oral atinge o trato gastrointestinal e, ao nível do ID atravessa as barreiras celulares, ganha a circulação sanguínea, em particular a veia porta hepática, ocorrendo o denominado ‘efeito de primeira passagem’ no fígado, ou seja, parte deste medicamento já pode sofrer biotransformação, antes de adentrar à circulação e, assim, atuar em seu sítio de ação”, exemplifica. 

Distribuição. Uma vez absorvido o medicamento, este pode permanecer sob a forma livre no sangue, ligar-se a proteínas plasmáticas ou, então, ser sequestrado para depósitos no organismo, de acordo com a especialista. “Uma quantidade significativa do medicamento liga-se às proteínas plasmáticas de forma reversível. Somente a fração livre do remédio tem a capacidade de deixar o sangue e ser distribuído para os tecidos e, assim, alcançar o sítio de ação”, descreve. Portanto, segundo ela, as proteínas plasmáticas funcionam como um “reservatório” do medicamento. “Embora a ligação de proteínas plasmáticas com o medicamento varie entre as diferentes espécies, a extensão de variação é relativamente pequena, não apresentando, usualmente, diferenças clínicas significantes entre elas”, adiciona.           

Biotransformação. Silvana diz que a eliminação dos medicamentos consiste na sua perda irreversível do organismo. Este efeito ocorre por meio de dois processos: a biotransformação e a excreção, sendo que ambos processos estão diretamente relacionados ao conceito de meia–vida de eliminação, a qual é definida como o tempo necessário para que a concentração (geralmente expressa em mg/ml) de uma determinada substância no sangue se reduza à metade. “O conhecimento deste conceito é fundamental para se preconizar a posologia para cada espécie animal”, frisa. 

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Há carência de remédios destinados especialmente
para cada uma das diferentes espécies (Foto: reprodução)

A biotransformação é o principal parâmetro farmacocinético relacionado às diferenças entre espécies e consiste na transformação química de substâncias dentro do organismo vivo, visando facilitar a sua eliminação. “Este processo permite a formação de metabólitos que são habitualmente mais polares e menos lipossolúveis do que a molécula original, favorecendo, portanto, a eliminação da mesma. A quase totalidade da biotransformação ocorre no fígado, no entanto, este processo pode, também, acontecer em outros tecidos, como intestino, rim, pulmão e sangue, por exemplo”, enumera. 

Excreção. A excreção renal é a principal via de eliminação, como comenta a professora. Os medicamentos polares e hidrofílicos podem ser eliminados por meio da urina, incluindo-se várias substâncias inalteradas, ou seja, que não sofreram biotransformação. “Pode haver grande variação no tempo de eliminação das substâncias, sendo que este fato se deve, principalmente, a dois fatores: o pH urinário e o clearence (depuração) renal. Na excreção renal, a quantidade de substância que irá adentrar ao túbulo renal é dependente da taxa de filtração glomerular. Uma vez que há o aumento da concentração da substância ao longo do néfron, vai se estabelecendo um gradiente favorável para a sua reabsorção”, explana. Por outro lado, ela declara que deve ser considerado que o epitélio tubular é permeável somente a moléculas lipossolúveis e que o grau de ionização é determinado pelo pK da substância e o pH urinário.                    

Já a excreção biliar tem importância bem menor do que a excreção renal e depende, segundo Silvana, basicamente de dois fatores, o peso molecular: moléculas maiores do que 500D geralmente são excretadas com a bile em todas as espécies animais, incluindo humanos. Já a excreção biliar de substâncias com PM entre 300 e 500D está relacionada com a espécie animal. “A espécie canina é considerada boa excretor biliar, enquanto que os felinos apresentam como característica serem moderadamente excretores e a espécie humana é classificada como má excretora biliar”, compara.

Conclusão. A prescrição e a administração de medicamentos específicos para uma dada espécie, de maneira racional, sem acarretar em riscos para o animal tem sido o desafio principal da Farmacologia Veterinária, na visão de Silvana. “Por outro lado, sabemos que há uma grande carência de remédios destinados especialmente para cada uma das diferentes espécies animais. Assim, em diversas situações, o veterinário se vê obrigado a lançar mão de medicamentos humanos, como o único recurso para aquela determinada situação. No entanto, vale ponderar que, mesmo nessas situações, a extrapolação do uso de um medicamento humano, para outra espécie animal, será mais segura quando houver dados de pesquisas clínicas, bem controladas, que permitam saber a posologia correta e os riscos e possíveis efeitos indesejáveis para aquela espécie animal em questão.

Fonte: Sacavet, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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