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Profissional recrimina uso prejudicial de animais em ensino e pesquisa

Todas as espécies são sencientes e não devem ser expostas a sofrimento

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Sim, os animais têm percepções conscientes do que sentem, do que acontece com ou ao redor deles e essa capacidade não se resume apenas aos cães e gatos, que são os pets mais comuns. Todas as espécies são assim! Sabendo disso, como ficam aqueles que são submetidos a testes de laboratórios para beneficiar o avanço de pesquisas e empresas?! No Dia Mundial dos Animais, nosso foco será o bem-estar, a justiça e a senciência daqueles que não têm como se defender dos atos humanos.

Como comentado pela professora e Coordenadora, do Laboratório de Bem-estar Animal, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carla Forte Maiolino Molento, utilizar animais de forma prejudicial, ou seja, causando sofrimento a eles, é uma forma obsoleta e inadequada de oferecer ensinamentos. “Ao ensinar, estamos passando a outras pessoas conhecimentos já definidos. O cenário da pesquisa é outro, pois, ao realizar uma experimentação, estamos buscando avançar no conhecimento, ou seja, responder questões científicas para as quais ainda não temos respostas. Então, na pesquisa, há necessidade de se investir na produção de métodos alternativos, para que seja possível diminuir, cada vez mais, o uso prejudicial de animais”, avalia.

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Humanização animal tem forte peso na reivindicação
por métodos que não agridam a saúde dos bichos
(Foto: reprodução)

Para ela, há uma diferenciação muito importante: a primeira é o uso prejudicial, que causa sofrimento aos animais, sem que lhe traga nenhum benefício. “Devemos ter como meta alcançar a eliminação completa deste tipo de utilização de animais”, opina e revela que existe, também, o uso não prejudicial de animais em ensino e pesquisa: “Quando, por exemplo, alunos de Medicina Veterinária acompanham procedimentos cirúrgicos de pacientes que chegam diariamente aos hospitais universitários necessitando de tais atendimentos”, explica.

A profissional também frisa que, na pesquisa, existem as fases de teste de novos medicamentos para doenças desafiadoras e, ainda, para o desenvolvimento de vacinas. “Vale lembrar que este tipo de uso não prejudicial também é regulamentado na Medicina Humana. Os benefícios de apostarmos na ciência são inegáveis, mas a avaliação ética da inclusão de sujeitos animais ou humanos em pesquisa científica deve ser rigorosa a fim de evitar injustiças”, destaca.

Possibilidades. Carla relata que há uma gama de opções de métodos alternativos, mas eles ainda esbarram em desafios. “São dois tipos de obstáculos: o primeiro é fazer com que o conhecimento científico chegue às práticas laboratoriais, envolvendo, por exemplo, testes de rotina. Um caso bastante simbólico é o diagnóstico de raiva, executado em laboratórios de referência em todas as regiões de nosso País. Há duas maneiras de se fazer este teste: uma envolvendo uso prejudicial de camundongos e outra de forma in vitro, sem sofrimento animal. Estamos comemorando que o Laboratório Central do Estado do Paraná (Lacen) adotou o método in vitro, que dispensa sofrimento animal. Entretanto, ainda há muitos laboratórios brasileiros utilizando os camundongos”, lamenta. O segundo tipo, de acordo com ela, se refere à utilização de animais para o qual ainda não há métodos alternativos. “A única forma de avançar neste aspecto é o investimento em pesquisa com objetivo de desenvolver novos métodos alternativos. Esta é uma área que precisa avançar muito no Brasil”, insere.

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Para professora, compreensão sobre métodos alternativos
devem chegar até as empresas que produzem roupas e
cosméticos (Foto: reprodução)

Sendo assim, na visão de Carla, o uso mais aceitável de animais em pesquisa, atualmente, é aquele que visa validar novas opções que não prejudiquem os animais. “Tal uso é, por definição, temporário. Não podemos abrir mão do avanço científico, mas, da forma atual, está muito ruim. A maior parte do uso de animais em ciência não resiste a uma análise justa entre o sofrimento pelo qual eles passam e o avanço científico proposto. As Comissões de Ética no Uso de Animais necessitam de um planejamento organizado de deliberações que possam induzir avanços éticos reais nesse cenário”, pondera.

Quando questionada sobre se o ensino por meio de métodos alternativos é prejudicado de alguma forma, a coordenadora garante que não e ainda cita que as aulas que evitam o uso prejudicial de animais são muito superiores. “Além de atingir os mesmos objetivos de aprendizagem, permite o ensino simultâneo do respeito ao sofrimento do outro. Isto ocorre porque ensinar permite muitas variações. Não há uma única forma de ensinar um conteúdo, nem mesmo uma fórmula padrão. Causar sofrimento aos animais com fins puramente didáticos é obsoleto e ensina, indiretamente, que o sofrimento alheio não importa, portanto, não é aceitável”, opina.

Consciência unificada. A profissional também acredita ser de extrema importância essa compreensão chegar até as empresas que produzem roupas e cosméticos e ainda utilizam animais em testes. “É o começo de uma mudança de paradigma muito necessária se quisermos construir um mundo mais justo. Parte do princípio que, mesmo não havendo métodos alternativos, tais objetivos de pesquisa para a produção de novos produtos comerciais não justificam o sofrimento de um animal. Então, que a pesquisa aguarde o desenvolvimento de métodos alternativos para ser realizada! É uma quebra de paradigma essencial, principalmente porque se não houver investimento na produção de métodos alternativos, eles não existirão. Assim, ao decidir não investir nessas alternativas, estamos, na verdade, optando pelo discurso do uso de animais em pesquisa, pois a frase ‘não há alternativa ao uso de animais para esta pesquisa’ continuará verdadeira”, considera.

Para Carla, a humanização dos animais, que estão sendo incluídos no círculo moral dos seres humanos, tem forte peso na reivindicação por métodos que não agridam a saúde e o bem-estar dos animais seja em laboratórios ou em aulas dentro das universidades. “Por meio disso, entendemos que a humanização dos animais nos permite perceber que as semelhanças entre eles e nós são enormes. Este tema é muito importante, pois faz parte da necessária mudança na sociedade atual em função do reconhecimento de que animais são seres sencientes e nós, se quisermos atuar de forma justa, não podemos desconsiderar seus interesses”, arremata.

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