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Senciência x instinto: profissionais comentam comportamentos de pets

Especialistas analisam caso de gata que levou seu filhote doente a um hospital

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

O termo senciência é um neologismo que significa ter consciência, emoções e sentimentos e, há alguns anos, já foi comprovado pelo neurocientista, pesquisador e docente da Universidade Stanford (EUA), Philip Low, que os animais, sim, são seres sencientes. Isso indica que, além da presença do instinto no animal e, portanto, de seu comportamento, eles também são providos de sensações, como nós, humanos.

Primeiramente, vamos entender o que é instinto: o jornalista, e pesquisador da senciência e direitos dos animais, Gilberto Pinheiro, aponta que, segundo os estudos à luz da neurociência, trata-se de ação padrão ou inata ou, em outras palavras, impulso. Segundo a veterinária doutora em Psicologia e diretora Científica do Instituto de Psicologia Animal (INSPA), Ceres Berger Faraco, didaticamente, instinto significa padrão de resposta funcional, controlado inteiramente pela genética, que se desenvolve na maior parte dos indivíduos da mesma espécie.

Pinheiro informa que, naturalmente, animais humanos e não humanos são dotados dessa peculiaridade, além da consciência que é determinante para nossa proteção. “Um exemplo singular explica bem o fato: se um animal sente que será agredido por alguém, imediatamente ele reage ou foge, para se precaver. Isso é instintivo”, explica.

O pet é capaz de lembrar algumas das suas atitudes e as
consequências e avaliar riscos (Foto: reprodução)

Por outro lado, Ceres também explana que senciência é a capacidade do animal para avaliar ações dos outros, lembrar algumas das suas atitudes e as consequências, avaliar riscos, ter certos sentimentos e algum grau de consciência. Pinheiro dá um novo exemplo: “Agora, quando temos ciência que uma galinha adota aves de outras mães ou filhotes de algum mamífero, isso não é ato instintivo. É sentimento, amor, solidariedade. Talvez, seja difícil para muitas pessoas admitirem essa realidade, mas, no momento em que é provado o sentimento no animal, nada mais é impossível”, analisa.

Viralizou. De acordo com Ceres, certamente, os animais devem utilizar suas capacidades cognitivas para o enfrentamento de desafios no dia a dia. Um vídeo bastante reproduzido na internet, nas últimas semanas, mostra uma gata carregando seu filhote pela boca até um hospital. O caso aconteceu em Instambul, na Turquia, e, por conta das imagens registradas, rapidamente virou notícia. Os médicos do local perceberam que o filhote estava doente, fizeram os primeiros atendimentos e, então, o encaminharam para uma clínica veterinária, enquanto alimentavam a mãe (felina).

Esse caso demonstra um comportamento instinto ou por sentimento? “É complexo avaliar se houve, realmente, uma escolha do local. A mente, a percepção e as escolhas das diferentes espécies animais são, ainda, um mistério para os humanos em vários aspectos. Mas, o que se pode afirmar é que esta gata teve um desenvolvimento de sociabilidade bem estruturado e experiências positivas com os seres humanos”, analisa.

Pinheiro entende que médicos têm a sensibilidade aflorada, ajudando ao próximo, objetivando a cura de pacientes e com o animal não seria diferente. “Isso porque muitos desses agentes da saúde possuem pets. Vejo, portanto, como atitude louvável, admirável, tentando salvar essas indefesas e fragilizadas vidas, no caso, a gata e seu filhote. Um belo exemplo a ser seguido por todos nós, sem exceção”, observa.

Em relação aos médicos nessa circunstância, Ceres repara que eles parecem ter sido sensibilizados com a gata e seu filhote e tiveram uma resposta humanitária ao tentar ajudar e avaliar a gravidade do ocorrido. “Entendo como uma situação análoga, se um veterinário ajudar uma pessoa em risco e logo encaminhar aos serviços competentes. As profissões da saúde têm algumas habilidades em comum, mas são limitadas por sua competência ou expertise serem direcionadas aos aspectos particulares das espécies que estudam, além de serem regulamentadas por lei”, frisa.

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O animal percebe quando é amado pelos tutores e isso só é
possível por conta da senciência (Foto: reprodução)

Exemplos comuns. Como citado anteriormente por Pinheiro, tanto o fato de animais que adotam filhotes de outras espécies, tutores de pets citam o carinho e o amor recíproco, segundo o profissional. “O animal percebe quando é amado. E tem mais: há casos frequentes de cães perceberem a chegada de seus tutores no lar, mesmo ainda distantes uns dos outros. Esse fato empírico também comprova que os animais são sencientes”, declara.

Como reforçado pela doutora em psicologia, a senciência, presente na rotina entre pet e tutor, permite aos animais compreender as mudanças de humor dos humanos, ler as expressões faciais das pessoas, aprender novas habilidades, associar locais e pessoas com experiências positivas ou negativas. “Já o instinto, é um comportamento reprodutivo, com respostas de agressividade ou fuga diante de uma ameaça, cuidado dos filhotes, proteção e marcação do território”, diferencia.

Gilberto Pinheiro comenta que é preciso entender que os estudos sobre a senciência dos animais são muito recentes e ele crê que ainda há muito a ser descoberto. “Mas, a Ciência deu um passo importantíssimo no entendimento sobre o que ocorre com a fauna, o cérebro de cada animal, modificando conceitos e paradigmas retrógrados, como muitos pensavam. Desde a antiguidade, imaginava-se que os animais eram seres que não tinham consciência, um ‘subproduto da natureza’, podendo ser utilizados a bel-prazer de cada ser humano. Evidentemente, que há muito ainda a caminhar nessa estrada que conduz ao respeito e amor a todos os animais na face da Terra, mas, sem dúvidas, um dia, chegaremos lá”, assegura.

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